segunda-feira, 22 de dezembro de 2014


Cefet-MG Divinópolis é a 13º melhor
escola pública do país segundo o Enem
     O Cefet-MG de Divinópolis manteve o 1º lugar em Divinópolis no ranking de 2013 por escolas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A escola teve nota média de 651,40 pontos. A unidade de Divinópolis também é a primeira em Minas Gerais entre os Cefets. No ranking nacional incluindo todas as redes de ensino - federal, estadual, municipal e particular -, o Cefet-MG Divinópolis fica no 145º lugar e em 31º em Minas Gerais. Já quando se analisam apenas as escolas públicas, a unidades de Divinópolis é a 13º melhor do país e a 5ª de Minas. É ainda a 10º colocada entre todas as escolas federais do Brasil e a 5ª, nesse quesito, em Minas Gerais. A novidade do ranking deste ano é a inclusão do nível socioeconômico dos alunos participantes: Muito Alto, Alto, Médio alto, Médio, Médio baixo, Baixo e Muito Baixo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Possível abordagem do tema da redação do ENEM
     No mundo todo se discutem os limites da publicidade dirigida a crianças. Alguns países chegam a controlar e até proibir através de leis, propagandas voltadas aos pequenos. A autorregulamentação, como ocorre no Brasil, no entanto, é o meio mais adequado de se tratar o tema.
    A forma como o Brasil lida com a publicidade infantil prestigia a participação da sociedade. Permitir que o setor se autorregule faz com que se discuta caso a caso. Essa prática favorece o engajamento de pais, Ministério Público e entidades sociais no processo. A proibição pura e simples transfere a decisão para o Estado e coíbe esse debate tão caro à democracia.
    Além disso, a intervenção do Governo em temas ligados à comunicação é sempre temerosa. Hoje, proíbem-se comerciais de TV, amanhã produções jornalísticas e a liberdade de expressão... Proibir, nesse caso, é uma solução imediatista com efeitos colaterais nefastos para a sociedade e para a própria formação da criança.
    Portanto, o caminho é aprimorar os meios de autorregulamentação e incentivar mudanças de valores. A criação de conselhos representativos da sociedade civil para acompanhar os métodos da publicidade infantil é uma possibilidade. Junto a isso, família, sociedade, igreja, devem colaborar para a formação de cidadãos críticos, capazes de se desviar das armadilhas do consumismo inconsequente.

sábado, 1 de novembro de 2014

Troco likes
     Em que se transformaram as redes sociais? Procuro encontrar algum parâmetro na vida real mas é difícil. Por que nesse ambiente as pessoas se comportam de forma tão mesquinha e são tão agressivas? Uma explicação já batida é que o suposto anonimato ou a falta de contato visual, cara a cara, encorajam as pessoas a externar seus verdadeiros sentimentos. De fato, a interação na rede parece um cochicho em voz alta, um distrato com as convenções sociais de polidez.
   O curioso é que quando temos contato pessoal, na "vida real", com "amigos" das redes sociais, paira no ar uma sensação de falsidade. Como não achar que o estranho que educadamente me cede a vez na porta giratória do banco não me chamaria de retardado burro que não consegue abrir uma porta? E a mocinha que cumprimenta docemente o porteiro do prédio não é a mesma que promete tacar fogo nos nordestinos preguiçosos e analfabetos que reelegeram Dilma?
     Esses não são de fato dilemas meus porque foi justamente para não os ter que renunciei ao Facebook há um ano. Refugiei-me no Instagram. Terreno bem mais pacífico, onde parece ser tácita a ideia de que se não concordo com a postagem do outro, basta ignorá-la. Não preciso chamá-lo de "corja de alguma coisa".
     Mas há algo de podre no Instagram desde que ele foi invadido por "celebridades instantâneas" como Lucas Ranngel  ou Emerson Lobo. Talentosos ou simplesmente corajosos, como o careteiro Victor Meyniel e sua voz de tia-avó rouca, esses moleques, com seus vídeos de até 15 segundos, parecem ter despertado em boa parte dos usuários uma sanha louca pela fama. E os degraus para o estrelato são feitos de likes e comentários.
    Ter um vídeo reproduzido por Lucas Ranngel em seu @oficialvinesbrasil é uma questão de vida ou morte. Daí surge um estranho comércio: a troca de likes e comentários. Troco likes, retribuo comentários, sigo de volta ou simplesmente sdv são as propostas que transformaram cada foto ou vídeo postado pelas celebridades-relâmpago do Instagram ou do Vine em um grande classificado. Por comentário entendam-se milhares de "KKKKKK morri" ou "assim mesmo" sob vídeos muitas vezes sem um pingo de graça quando não insondáveis.
    Quando, nos anos 1960, o artista Andy Warhol disse que no futuro todo mundo teria direito a 15 minutos de fama, é possível que preconizasse a existência de algo tão democrático como a Internet  Talvez só não imaginasse que o preço dessa fama seriam a dignidade e o amor próprio. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Escola ou educação em tempo integral?
     Quem acompanha a propaganda eleitoral deste ano já deve ter reparado que uma promessa é figurinha fácil entre os candidatos: a escola em tempo integral. Manter crianças o dia todo na escola virou uma panaceia para todos os nossos males. Segundo levantamento do portal G1, 42% dos candidatos a governador prometem escola em tempo integral. Entre presidenciáveis, essa promessa é repetida diariamente por Marina Silva (PSB). 
     Mas essa proposta é um clichê da "velha política". Ela não demonstra necessariamente comprometimento com a melhora da educação. A rigor, boa parte dos candidatos não promete educação em tempo integral. Promete escola em tempo integral. Ou seja, para essa promessa não há necessidade de projetos mais detalhados e de mudanças no currículo. Basta trancafiar as crianças na escola e, à tarde, dar uma bola para elas correrem atrás.
      O que se promete nesse caso é, na verdade, manter nossas crianças em cárcere privado. Um dos candidatos ao governo de Minas deixa claro em suas falas: "na escola, a criança fica longe da violência e das drogas presentes nas ruas". É sintomático quando até alguém em vias de assumir o posto de governante vê o espaço público como um terreno perdido para o crime. Muitos candidatos, quando questionados sobre como vão preencher o dia todo da crianças apreendidas nas escolas, citam as práticas esportivas e o ensino técnico. Sobre reformular o currículo, preparar melhor o professor e melhorar seu salário, o silêncio é de tempo integral.
       Já a educação em tempo integral não precisa que o aluno fique enclausurado na escola. Essa educação poderia ser implantada com o incremento dos trabalhos extra-classe, mais conectados com a realidade do aluno, com a valorização pela escola das atividades que o estudante tem ou deveria ter cotidianamente: ir ao teatro, cinema, ver TV, ler, viajar, como acontece nas escolas da Europa.  O que muitos candidatos têm prometido é, na prática, transformar professores em babás de luxo - luxo devido à sua formação, já que o salário costuma ser até menor do que o de uma baby sitter de fato.
       O pior nisso tudo é ver o professor aceitar ser alçado à condiçao de babá quase perfeita. É ver estudantes aceitarem tacitamente serem trancafiados em um ambiente onde imperam o bullying, a falta de infraestrutura e de planejamento. Educação de tempo integral necessita um imenso esforço de preparação de professores, para serem capazes de lidar com aquilo que aprenderam a taxar como o avesso da educação: a vida real.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina, você se pintou
      A candidata do PSB, Marina Silva, perdeu uma grande chance de mostrar ao Brasil que de fato é diferente daqueles que ela critica. Foi na entrevista ao Jornal Nacional, da Globo. Ao ser confrontada com supostas contradições entre seu discurso e suas ações, a candidata saiu-se com o manjado "Eu não sabia, mas quero que se investigue". É a mesmíssima resposta dos representantes daquilo que Marina chama de "velha política". De Obama a Dilma, quem está no poder, vira-e-mexe se vê em meio a microfones dizendo que não sabia de nada mas que investigará com rigor.
      Marina não sabia que o avião de sua campanha fora comprado com dinheiro de origem obscura. Não acha que ter um vice com ideias diametralmente opostas às suas seja uma jogada de marketing para acalmar os críticos a seu estilo, como fizeram Collor com o mineirinho quase socialista Itamar Franco, Lula com o empresário José Alencar, Obama com o experiente e branco Joseph Biden. Marina embarcou num voo cego e espera aterrisar em Brasília a despeito de suas contradições.
      Marina perdeu uma chance de ouro na entrevista do JN. Perdeu uma oportunidade de fazer o que nenhum candidato conseguiu: dar um xeque-mate em William Boner, dobrar o dedinho abusado de Patrícia Poeta. Poderia ter respondido: "Sim, eu errei". Há que se pensar - e deve ser o raciocínio dela e da "velha política" -: "mas assim ela perderia voto, pois quem vai garantir que eleita ela não errará de novo?". Uai, os mesmos que garantem que eleita ela "não saberá" de novo. No entanto, admitindo o erro, ela estaria dando um exemplo de como é a "nova política". Ela estaria tirando do plano teórico aquilo que hoje ainda soa a discurso eleitoral vazio. Na "nova política", erra-se, pedem-se desculpas, volta-se atrás.
      Admitir o erro não traria prejuízo à imagem de Marina. Ao contrário, daria credibilidade e atrairia eleitores. Mais eleitores entre aqueles que acreditam que possa existir alguém que seja presidente sem ser político; que é possível montar um governo "com os melhores do PT, do PSDB e do PMDB". Ou seja, o que sustenta Marina não são fatos, não é a lógica. É a paixão, é o autoengano. Ao mostrar fraqueza e arrogância no JN, Marina se igualou àqueles que critica e deu um passo para fora do altar em que se pusera.
     Se quiser continuar competitiva, Marina terá de manter o fetiche. Terá de ouvir Dorival Caymmi: "Marina morena, você se pintou. Marina, você faça tudo, mas faça um favor, não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu." O JN apenas mostrou o caminho. A partir de agora Marina terá sua coerência posta à prova pela imprensa e pelos opositores dia e noite. Caberá à candidata evitar que o eleitor se aborreça, se zangue e fique de mal, como na música.

Marina Morena
Marina Morena, Marina
Você se pintou
Marina, você faça tudo, mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto e que é só meu
Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina, não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa .
Você não arranjava outro igual
Desculpe Marina Morena, mas eu tô de mal.
De mal de você
De mal de você

sábado, 26 de julho de 2014

Linguagem e realidade 
    O que é a linguagem humana?  A definição de linguagem como a transcrição da realidade, embora possa satisfazer o senso comum, encerra em si um paradoxo. Isso à luz da definição de realidade segundo Espinosa. De acordo com o filósofo holandês, a realidade reside em uma substância infinita e indivisível. Por outro lado, o homem é finito e a linguagem divide tudo.
     Para efeito prático, a linguagem é a tradução de uma necessidade de socialização do homem. Ou seja, da necessidade de compartilhar conhecimentos, ideias, sentimentos. Ela permite ao homem se apropriar do mundo a sua volta. No entanto, é um equívoco acreditar que sirva para exprimir a realidade. No máximo, ela serve para exprimir a realidade humana. Isso porque a forma que a linguagem tem de representar a realidade é através da divisão, da compartimentalização de tudo em objetos, ideias, conceitos. Uma palavra é incapaz de traduzir uma realidade concreta. Isso seria impossível, devido à variedade e riqueza de características de cada coisa, de cada fenômeno, de cada sentimento.
     Uma palavra não passa de um arquétipo de algo, de uma representação metafórica. Para entender, basta imaginar o seguinte exercício. Você tem um gato de estimação. Quando você fala desse gato para alguém que nunca o viu, por mais detalhes que forneça, o seu interlocutor vai sempre ter apenas a ideia geral de gato que a palavra "gato" consegue evocar nele. Entram aí as experiências dele com aquilo que essa palavra representa e o conjunto de valores e conceitos que o imaginário social em que está inserido reserva para o conceito "gato". Mas nunca, jamais, você conseguirá evocar em outra pessoa o seu gato de verdade, aquela realidade particular, porque a linguagem não consegue transpor realidades, apenas conceitos, apenas ideias básicas, mas nunca particularidades. A palavra, assim, ajuda a compor uma realidade humana, mas não traduz a realidade externa à linguagem. E cada língua conterá uma visão diferente de mundo. Isso porque cada comunidade linguística irá dividir e organizar o mundo à sua maneira. A realidade tal como a entendemos, ou seja, a realidade humana, é apenas o resultado da divisão criada pela linguagem para compreender o mundo. Não é a realidade; não é o mundo. 
     Essa divagação deve ajudá-lo a entender por que é tão difícil conseguir implantar a paz, fazer reinar o amor, a democracia, o respeito... Isso é fácil apenas enquanto desejo, enquanto exercício da linguagem. Ao tentar transpor esses conceitos para a prática, cada povo vai tentar transpor essa realidade compartimentada pela linguagem para a instância da realidade exterior, por assim dizer. E aí entram os conflitos. Mas todos não querem paz, amor, felicidade? Querem, mas a harmonia só existe no plano da linguagem. Em todas as línguas essas palavras baseiam-se em conceitos que são, a priori, positivos. Digamos que a ideia geral evocada pela palavra "Paz", "Peace" ou "Paix" é de conforto, tranquilidade. Mas ao se tentar passar essas ideias para a realidade de fato, esbarram-se nas minúcias, nas visões de mundo, que a palavra em si não traduzia. A paz numa acepção primária pode ser a mera inexistência de conflitos. Mas na prática sua obtenção pode esbarrar em atitudes que se chocam com o conceito que o outro faz de Paz. Agora imagine essas diferenças sendo aplicadas a nivel de cada país, cada religião, cada classe social, cada indivíduo...
    Então, a linguagem não liberta o homem? Bem, o que é liberdade? É ter conhecimentos, direitos, poderes. Será? A posse desses conceitos trará responsabilidades que podem aprisionar seu detentor a obrigações comportamentais, padrões morais e éticos... Por outro lado, a ignorância pode ser a chave da liberdade, uma vez que se não conheço, não aspiro; logo sou livre dentro daquele mundo que consigo abarcar... 
     A questão é que a linguagem é um mal necessário. Ela ajuda o homem a organizar o mundo em diferentes conceitos e ideias.  É fato que ela não traduz a realidade, mas a recria dentro de uma Matrix em que o segredo é fingir que acreditamos que tudo possa ser expresso através de palavras. De ilusão também se vive. Ou só de ilusão se vive?

sábado, 19 de julho de 2014

Obrigado, Rubem Alves
     O escritor Rubem Alves morreu neste sábado. Gostava de saber que Rubem Alves estava vivo. Era a única voz sensata neste país quando o assunto era educação. Eu só passei a me achar "normal" quando li pela primeira vez Rubem Alves. Afinal, eu não era o único a achar quevagas  tudo o que é consenso em educação neste país está errado, é burrice. Está errado colocar criança de seis anos na escola e impedir seu contato com os pais, com a pé de manga do fundo do quintal. Está errado escola de tempo integral, está errado dar prova sem consulta, está errado dar prova, está errado prender nossas crianças na escola enquanto a vida acontece lá fora...
    E ele dizia tudo com a sutileza de um poeta. Seus artigos pareciam contos, às vezes, ironia, bobagem, coisa que nunca será. Afinal, no que nos parecemos com moluscos? Como assim, minha memória é um escorredor de macarrão? É isso mesmo. Um escorredor de macarrão. Na crueza dessa analogia que foi buscar num canto da cozinha um utensílio tão esquecido está a sutileza de Rubem Alves. Você se vai, mas seus ensinamentos, sonhos ficam no nosso escorredor de macarrão. Você nos ensinou a fazer as perguntas certas. 

domingo, 29 de junho de 2014

Chile, nos desculpe
     Chilenos, por favor, nos perdoem. Não, não peço desculpas por termos ganho a partida das oitavas de final da copa mesmo tendo um time muitor pior. Isso é do futebol e em outras ocasiões já fomos defenestrados da disputa mesmo tendo a melhor equipe, como em 1982. Peço desculpas por parte do Mineirão ter vaiado o hino nacional do Chile.
  Afinal, que tipo ordinário de gente vaia gratuitamente um símbolo de outro país? Quem ofende assim de forma tão baixa e traiçoeira o adversário? Simples, são os mesmos idiotas que agrediram verbalmente a presidente e a presidência do Brasil no mesmo Mineirão mandando a chefe da Nação tomar no c*.
     São os mesmos que saíram às ruas gritando que não haveria Copa, para depois gastarem fortunas em ingressos para assistir à Copa. São os mesmos que dizem que o dinheiro gasto com estádios deveria ir para a educação e depois dão show de grosseria e ignorância para o mundo todo ver.
    São os mesmos que fazem o gesto imbecil de coraçãozinho com os dedos para depois vomitarem seus recalques sobre qualquer um que pense diferente no Facebook. São os mesmos que baixam música sem pagar; roubam internet e TV a cabo do vizinho; fabricam e compram tênis falsificado em Nova Serrana e depois se convertem em palmatória dos políticos, "esses corruptos".
     Meses atrás muita gente temia pela Copa achando que os estádios não ficariam prontos ou que o Brasil não tivesse infraestutura à altura do evento. Hoje, o mundo se dobra diante do sucesso do Mundial. Aeroportos funcionando sem problemas, hotéis para todos, estádios perfeitos. Parece que só uma coisa não ficou pronta a tempo da Copa: o povo brasileiro.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Provando do próprio veneno
    É fácil imaginar como DIlma se sente com as manifestações contra seu governo. Afinal, ninguém em sã consciência há de negar que o Brasil de 2014 é muito melhor do que o Brasil de 2003 quando Lula tomou posse. Também são irritantes para qualquer ser que consiga pensar sem antes precisar ler postagens do Facebook os "argumentos" e os métodos que vêm sendo usados para atacar o Governo.
    No entanto, é claro também que o PT está provando do próprio veneno. E não me refiro aqui a seus atos no Governo. O partido está colhendo o que plantou quanto era oposição. Essa balela de que futebol e Rede Globo alienam, de que o dinheiro gasto com a Copa poderia ir para a saúde é invenção do próprio PT quando estava na oposição. Não reconhecer o esforço do adversário também é coisa do PT.
    Antes de chegar ao poder, o PT se arvorava em desconstruir a Copa do Mundo. Seus militantes, boa parte disfarçada sob a identidade secreta de professor de História, Filosofia e Educação Física, martelavam na cabeça dos alunos que a Copa era apenas um artifício para ludibriar o povo. Lembram do velho clichê "sobra circo e falta pão"? Lembram que o partido se dizia contra "tudo o que está aí"? Lembram de quando o presidente Fernando Henrique lançou o Plano Real e o PT proibiu que seus filiados se manifestassem a favor do pacote? Diziam que era mais um "estelionato econômico" e que como o Plano Cruzado, logo naufragaria. A ex-prefeita de São Paulo Luíza Erundina foi expulsa do partido porque apoiou o governo Itamar Franco em um momento delicado do país, pós-impeachment.
    Podemos dizer que essa onda de  gente raivosa contra  a Copa e contra "tudo o que está aí" é fruto de um efeito retardado da pregação do PT quando oposição. Com um delay de 20 anos, finalmente o "filho do trabalhador" entendeu o recado e encontrou no Facebook o ambiente ideal para manifestar sua cultura de almanaque. É óbvio que vários problemas do Brasil, como a corrupção são muito mais profundos e não podem ser resolvidos com a mera mudança do morador do Palácio do Alvorada. É claro que para combater a corrupção, o "filho do trabalhador" e toda a gente deste país terão de se policiar. Terão de valorizar a educação formal, terão de se conter antes de comprar cateira de motorista, roubar internet e TV a cabo do vizinho ou comprar tênis falsificado. Terão de aprender a votar, a defender o patrimônio público e a liberdade de expressão, antes de sair quebrando tudo o que está pela frente ou atacando a imprensa em manifestações sem motivo que não seja postar selfies no Facebook...
      Portanto, se quiser mais quatro anos em Brasília, o PT de 2014 terá de desconstruir o PT de 1994. O que não é difícil, uma vez que contra clichês e chavões, o partido tem oito anos de obras e serviços importantes para mostrar. Inclusive a popularização da internet e do ensino superior, que permitiu aos jovens ter acesso aos meios intelectuais e materiais para criticar o próprio PT.

Tutti buona gente
     Na copa, os comerciais de TV deram uma folga para as mulheres-objeto. Em seu lugar, entra o estrangeiro abobalhado. É essa a mensagem que os comerciais de cerveja parece quererem disseminar. Nada contra inflar o ego dos brasileiros e seu espírito patriótico. Ao contrário, após meses de torcida contra a Copa e contra o país, é alvissareiro ver de novo a TV sem vergonha de propagandear o Brasil. 
     O que incomoda, ou deveria incomodar, é a forma como as cervejarias resolveram dar um up no ego dos torcedores brasileiros: humilhando e debochando dos estrangeiros. Em um comercial de TV, "franceses" sofrem bullying e são obrigados a usar sutiam e saia para dançar o can-can. Mais ou menos como se na Copa da França um comercial de champanhe tivesse resolvido apresentar brasileiros vestidos de Globeleza, dançando de fio dental e salto alto.
     Em uma outra propaganda de cerveja um cântico  enumera contribuições dos italianos - tutti buona gente, dizem -  para com a cultura brasileira: "vocês nos deram o macarrone, o canelone, o panetone etc, etc..." e aí veem a desfeita: "... e também nos deram o tetra." Uma referência ao pênalti para fora do jogador Roberto Baggio, na final da Copa de 1994 contra o Brasil. Nesse caso há ainda um desmerecimento ao esforço da seleção, uma vez que a conquista da Copa dos Estados Unidos é reduzida ao efeito de um pênalti mal cobrado pelo adversário. Em outro anúncio, as vítimas são so ingleses: "Eles inventaram o futebol e não ganham nada desde 66..."
    É bom lembrar também aquele proibido pelo Conar, em que Neymar, ao "ensinar" estrangeiros como pedir uma determinada marca de guaraná no Brasil, acrescentava gracejos como "Um guaraná para o 'água de salsicha' ou 'filho de cruz-credo' aqui". Ou seja, o agradecimento pelo fato de o estrangeiro ter gostado de um produto brasileiro é o deboche. Mas de onde vem a inspiração para esse tipo de abordagem dos comerciais de bebidas? 
    Ao que parece, essas estratégias de marketing se baseiam na velha imagem do brasileiro malandro,  espertalhão, aquele que consegue tudo na maciota e por cima "dos trouxa". Assim, esperto é o que leva vantagem, o que lucra com o menor esforço ou melhor, com o trabalho alheio. Mané é o educado, o francês com sua bela música, o italiano que perdeu tempo inventando comidas tão saborosas, o inglês que criou o esporte mais apreciado no mundo, o idiota do japonês que limpa o estádio após o jogo...  Esperto mesmo é o brasileiro que chega de mansinho e usurpa o trabalho de todos eles. Afinal, roubado é mais gostoso.
     É importante lembrar que os comerciais de bebida não inventaram esses estereótipos; apenas os reproduzem. E se funciona é porque encontra respaldo. É comum ouvir de brasileiros que nunca saíram do país que "franceses não tomam banho", que "ingleses são frios"; "alemães rispidos" e "americanos apegados ao dinheiro". A TV, a mídia, não manipula ninguém, como o senso comum gosta de apregoar. A mídia apenas se apropria de elementos do imaginário coletivo. Ao mostrar uma mulher-bunda, gays afetados  ou estrangeiros sendo maltratados, os anúncios apenas tentam se aproximar desse imaginário inconsciente. Ao contrário, às vezes a TV até compra briga para mostrar algo fora desse imaginário. É o caso do espaço dado aos homossexuais, retratados em novelas como seres humanos que até se beijam. Enquanto isso, no imaginário social, os gays não passam de palhaços caricatos, cabeleireiros e maquiadores fúteis prontos a soltar gritinhos esganiçados ao menor vestígio de Madonna ou Rihanna.
     É claro que seria interessante ver a TV  mostrando uma mulher dinâmica e independente ou uma sociedade em que todos têm direitos iguais e a consumir avidamente literatura clássica. O problema é que nessa dimensão ninguém bebe cerveja, compra carros ou celulares modernos. Isso, pelo simples motivo de que esse mundo não existe. Pelo menos, não fora do Facebook ou dos comentários pretensiosamente inteligentes de internet.

sábado, 10 de maio de 2014

O Facebook, esse assassino!
     Esta semana acordei com um whatsapp de um amigo: "O Facebook matou mais um". Levei um tempo para contextualizar. Imaginei que fosse uma forma de ele me dizer que também havia saído da rede social. Só depois de ver o noticiário da internet entendi a mensagem. Ele se referia à senhora que fora linchada no Guarujá (SP) após uma página no Facebook - "Guarujá Urgente" - divulgar um suposto boato de que haveria na região uma bruxa que matava criancinhas em rituais de magia negra. Cabe aí uma interessante discussão sobre o paradoxo de se usar a modernidade da internet para se incitar nas pessoas temores da Idade Média. Mas isso fica para outro texto.
  Fui, então, conhecer a tal página Guarujá Urgente. No geral, a fanpage se dedica a anunciar cachorrinhos perdidos e veículos roubados. Tudo em meio a uma espantosa fartura de crase. Praticamente todo "a" recebe o seu acento grave - "à todos", "à Deus, "à 50 mil". Fora esse atentado à gramática, a página não traz nada além daquilo em que o Facebook se tornou no Brasil após os flash-mob, ops!, protestos de rua de junho de 2013: um espaço de catarse; um ambiente para se xingar e acusar todo mundo, de preferência sem provas, sem argumentos, sem compaixão.
    O linchamento sofrido pela dona-de-casa confundida com a bruxa de Joãozinho e Maria comoveu o país porque foi real. Porque havia sangue jorrando, porque um corpo jazia no beco imundo da favela de Morrinhos, no Guarujá. Mas linchar tem-se tornado a especialidade dos usuários da rede social. A vítima é sempre o Governo, a TV aberta ou quem ouse defendê-los ou apele à razão, ao direito à defesa, à contra-argumentação. O post vivo e macabro de Morrinhos apenas imitou o Facebook: amigas da pobre vítima alegaram que tentaram evitar o massacre, mas foram ameaçadas por aqueles que curtiam e compartilhavam a barbárie.
    Bem, o Facebook é isso. E a rede social em si não tem nenhuma culpa pelo uso que se faz dela. Culpá-la equivale a botar a culpa na janela pela paisagem que ela mostra. É um espaço fantástico de debate de ideias. Os problemas nacionais estão no Facebook: violência, corrupção, educação ruim, falta de infraestrutura. Ótimo, um espaço para debate, para troca de informações e busca de conhecimento. Só que é mais ou menos como entregar uma Ferrari nas mãos de quem não sabe dirigir. Uma super ferramenta de troca de ideias nas mãos dos lanterninhas no ranking mundial de leitura e produção de texto, segundo o PISA.
   Não há o mínimo domínio da capacidade de interpretação, de analisar  contextos, de fazer inferências, de elaborar argumentos. Sem esses recursos, o usuário do Facebook se expressa de forma binária: existe um bem, ou bom (eu, o pobre, o povo) e um mal  ou mau (o outro: o Governo, os pulítico, a zelite, a Rede Globo). E para combater esse outro malvado vale tudo: mentir, adulterar dados, enganar, xingar, xingar muito, xingar mais. "Calhordas", "filhos da p****", "desgraçados". 
    No início eu fiquei perplexo ao ver professores, advogados, pessoas que eu tinha como instruídas fazendo esse jogo. Tentei argumentar com uma colega de profissão que postou uma foto-montagem de um avião atingindo o Planalto e a legenda: "O que todo brasileiro quer". Perguntei se esse era o papel de um educador ou, em última instância, se ela não sabia que apologia a atentados terroristas é crime. Ela deletou a postagem. Imagino que não soubesse que apologia a crimes é crime.
    Um outro conhecido - bombeiro! - postou uma montagem incentivando a população a botar fogo nas praças de pedágio. Argumento: pagamos IPVA e as estradas estão cheias de buracos. Perguntei se ele sabia que o dinheiro arrecadado com o IPVA não tem de ir para as estradas e que boa parte vai para a educação. Afinal, imagine se o imposto pago ao comprar feijão fosse apenas para o plantio de feijão; as taxas recolhidas na compra de um computador, iriam, então, exclusivamente para as empresas de informática. O imposto sobre os cigarros... Ah, já entendeu, né? Pela lógica dele, então, teríamos de cobrar impostos altos e exclusivos sobre a educação e a saúde, para manter esses serviços.
    Segundo Aristóteles, em sua "Retórica das Paixões", a retórica - que ele também conceitua como sendo a arte da persuasão -  é antes de tudo um ajuste de distância entre os indivíduos. Ou seja, eu faço uso da palavra, seja no Facebook ou em um júri, para tentar diminuir a distância que foi imposta entre mim e meu oponente através da configuração de um problema. É uma batalha a ser ganha com imposição de autoridade, argumentos e também paixões. O que ocorre no Facebook e nos comentários em geral sob artigos publicados na internet é que a única dimensão em que se "argumenta" é a da paixão. "Chamamos de paixão a tudo o que provoca dor, prazer e desprazer e que é capaz alterar os julgamentos proferidos", define Aristóteles.
    Para Aristóteles, a cólera é o reflexo da diferença entre aquele que se entrega a ela e aquele a quem ela se dirige. A ira é, assim, um grito contra a diferença imposta, injusta ou como tal sentida. A cólera, assim, reequilibra a relação proveniente do ultraje ou do desprezo. No caso do Facebook e dos comentários de internet em geral, quando o usuário digita os xingamentos ou inventa calúnias, a sensação é de alívio, de encurtamento da distância entre ele e o ofendido. 
     O curioso é que a ira dos usuários do Facebook pode se voltar até contra quem não lhes fez nada. Quando usava a rede social fui várias vezes atacado por pessoas que sequer conhecia. É que não só um ato é entendido como afronta. Mas o desprezo e até a manifestação involuntária de conhecimento podem ofender e também merecem a cólera como resposta. E num ambiente que sobrevive de trocas de curtições, compartilhamentos, e manifestação de ódio, quem não mantém essas práticas também vai ser visto como arrogante, aquele que se acha superior: daí cria-se a tal distância que o ofendido vai tentar reduzir com o ataque colérico.
    As paixões, portanto, são modos de ser ou respostas a modos de ser. Os moradores de Morrinhos, no Guarujá, não atacaram a dona-de-casa branca e magra porque a confundiram com o retrato falado de uma suposta criminosa negra e gorda do Rio. Também não o fizeram porque desacreditam na Justiça brasileira. Mataram porque precisavam externar sua ira, sua revolta contra algo que os oprime mas que não conseguem enxergar. Como míopes que são, só veem contornos indefinidos. Se não conseguem decifrar o inimigo, melhor matá-lo logo antes que ele os devore.

domingo, 4 de maio de 2014

Onde fica a Rua Viriato Correia?
      Precisei procurar um endereço em Divinópolis. Era no bairro São José, Rua Viriato Correia. Nunca havia ido além da Rua Amazonas. Espantei-me com o local, até mais agradável do que a parte antiga e conhecida do bairro. Mas assustou-me mais um outro fato: as ruas não têm nome ali! Até imagino que tenham nome, o que não há são placas indicando isso. Para conseguir achar a Viriato Correia tive de a todo momento procurar um morador para perguntar em que rua eu estava, o que não foi tarefa fácil, já que havia pouca gente nas ruas e muitas também não sabiam informar. Ao final, até achei a rua, mas o número não existia.
     No Japão, as ruas também não têm nome, mas os blocos de casas têm... Os comunistas são a favor de que não se coloque nome em nada; que se espere que o povo faça isso com o uso (mas quando o fizer, que ponham uma plaquinha!). Mas a experiência de Divinópolis é ainda mais radical. Não há como localizar uma rua e não é apenas em um trecho do São José porque ficaria num elo perdido; boa parte do São Judas também ostenta ruas sem nomes aparentes. Imagino que em rincões menos visitados...
     O que preocupa não é a falta do nome das ruas. Mas por que diabos ninguém reclama disso? Por que as pessoas saem às ruas com nomes do centro para pedir Fora Renan Calheiros! e não se preocupam com o seu bairro? Nomear as coisas é um dos sinais mais marcantes da civilização. Poder encontrar um endereço nos separa da balbúrdia de Cabul ou Djibout. Preocupar-se com o visitante também é um índice de civilização: eu acho a minha casa até de olhos fechados, mas e o forasteiro? Tudo bem que nenhum turista da Copa deve precisar procurar a Viriato Correia no São José, mas mesmo assim...
     Por que vereadores se preocupam em dar nomes a ruas - principal atividade da câmara, ao que parece - mas não ligam se há placas indicativas ou não? Por que os moradores não reclamam? A organização de Nova York onde a maioria das ruas é nomeada com números e oh!, a 74 fica entre a 73 e a 75!  A limpeza de Londres, onde não se joga  papel nas ruas mesmo não havendo lixeiras. Os jardins e árvores floridos de Buenos Aires. O asfalto impecável das avenidas de Lisboa refeito anualmente e não uma vez na vida como por aqui... Os ônibus com ar condcionado de Madri, uma cidade que nem é tão quente... Não,  em Divinópolis, como neste país, acostumou-se em tal magnitude com a desordem, que é bem possível que não se consiga mais viver de forma ordeira.
      "Mas isso tudo porque você não achou uma placa de rua?" Não, isso tudo porque uma cidade que não tem placas nas ruas também deve ter lixo nas calçadas, praças mal cuidadas, violência e educação ruim. Está tudo interligado, como nos mostra a Teoria das Janelas Quebradas. Comodismo gera desorganização, que gera falta de regras, que gera impunidade, que gera crimes... Não é apenas uma rua sem nome. É um país inteiro sem identidade.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Brasil é o país menos solidário da América do Sul
     O Brasil é um país solidário, de gente hospitaleira e gentil, certo? Errado. Pelo menos é o que aponta uma pesquisa divulgada no final do ano passado. O país aparece em 91º lugar entre as 135 nações pesquisadas pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). A pesquisa, que mede a solidariedade dos povos, quis saber em quais países pessoas e empresas têm mais costume de fazer doações. O Brasil, apesar de ser o país mais rico, é o menos solidário da América do Sul. No mesmo patamar de ruindade no ranking está o paraíso do socialismo do século XXI, a Venezuela. Ganha uma viagem a Cuba ao lado do presidente Maduro quem adivinhar qual país tem a população mais generosa do mundo... Estados Unidos! Isso mesmo, os “capitalistas selvagens”, os que “pensam mais no ter do que no ser” são os mais solidários do mundo. E antes que se diga que eles doam porque têm mais dinheiro, é bom informar que o segundo colocado é Myammar. O miserável país da África. Com certeza a culpa é do governo e da Rede Globo, que mantêm as pessoas na ignorância para dominá-las mais facilmente. Deus é americano.

domingo, 27 de abril de 2014

"Não deixe que a escola te ensine"
     Esse é o título de um artigo no mínimo instigante cuja leitura me foi sugerida pela aluna Letícia Raquel, do 2º Ano de Informática do Cefet-MG Divinópolis. O artigo é na verdade uma carta em que um pai alerta a filha sobre as falhas do atual e obsoleto sistema de ensino brasileiro. Reconfortante que ela me tenha recomendado o texto por concordar com ele e não por achar absurda a ideia sugerida logo no título. Desde o primeiro ano trabalho com meus alunos textos que possam ajudá-los a promover por conta própria uma análise crítica da educação neste país. Além de artigos, como os de Rubem Alves, um dos mais antigos opositores da decadente escola brasileira, lemos também textos sobre a experiência da Escola da Ponte, em Portugal.
     A instituição perverte todos os princípios que os brasileiros consideram pilares intocáveis da escola. Na Escola da Ponte não há divisão por séries, não há as disciplinas como no Brasil, não há sala de aula, não há provas com ou sem consulta, não há aulas... Trabalham-se apenas com projetos interdisciplinares vinculados a áreas de conhecimento. Os professores são orientadores e não pessoas obrigadas a passar todo dia duas horas na frente de 40 alunos sentados em fila. A Escola da Ponte é a melhor escola básica de Portugal.
     Também trabalhamos em sala o livro Escola Sem Sala de Aula, uma coletânea fantástica de artigos de profissionais de várias áreas que derrubam dogmas sustentados pela escola brasileira e sugerem mudanças. Atualmente vamos iniciar a análise das propostas dos parlamentares sobre a reestruturação do Ensino Médio no Brasil. Obrigado, Letícia. Uma coisa é sair na rua pedindo educação de qualidade para postar a foto nas redes sociais. Outra é entender como a escola funciona e pesquisar propostas. Isso já é educação de qualidade. Quem quiser ler o artigo "Não deixe que a escola te ensine", clique aqui.

sábado, 26 de abril de 2014

São os valores, estúpido!
     A famosa frase do publicitário James Carville - "É a economia, estúpido!"- justificando a derrota do presidente George Bush para Bill Clinton, em 1992, cai como uma luva no esforço de mudar o foco de estudantes empenhados em fazer a redação do Enem. Só que, nesse caso, com uma correção: "São os valores, estúpido!". Para os espíritos sensíveis, é bom ressaltar que o "estúpido", tanto na frase de Carville como nessa paráfrase, claro, é uma constatação da obviedade de um fato que boa parte das pessoas teima em ignorar. 
    Todo ano é a mesma coisa: basta se aproximar a data do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para que professores de Redação de cursinhos encarnem os poderes duvidosos de Mãe Dinah. Está aberta a sessão de previsões do tema da redação do Enem. Um exercício tão desgastante quanto inútil. O esforço e o tempo gastos nessa clarividência poderiam ser mais bem empregados discutindo-se com os alunos abordagens baseadas nos valores essenciais que sustentam nossas crenças e, por conseguinte, modelam nossos modos de pensar e agir.
    A sociedade não é uma entidade compacta e monolítica. Ela comporta grupos sociais que divergem entre si. Mas acima de todos esses conflitos há  valores que permeiam uma "Consciência coletiva", como define o sociólogo Emile Durkheim. Essa consciência coletiva oferece valores comuns que se impõem fortemente e criam um senso de solidariedade entre os membros de um grupo e até entre grupos diferentes. Exemplos desses valores seriam a religião, a família e a escola. Isso quer dizer que os grupos existentes dentro da sociedade, ainda que divirjam em uma infinidade de situações, comungam alguns valores, como a proteção à criança, à liberdade...
    No entanto, há valores sustentados por grupos sociais que vão se chocar com interesses de outros grupos ou de indivíduos. É daí que surgem os conflitos. E é aí que lançamos a ponte com o tema abordado no início deste texto: a redação do Enem. Ora, o texto exigido no exame vai sempre partir de um tema que gere algum tipo de conflito. Não fosse assim, não haveria por que dissertar sobre o assunto. Sejam as agressões ao meio-ambiente, o preconceito contra negros ou a análise dos efeitos da Lei Seca, o que está em jogo são pontos de vista a respeito de uma problematização de um tema. 
   Uma abordagem simplista, mas bastante comum, consiste em apenas constatar, explicitar no texto que um problema existe. Ou seja: Sim, o negro é vítima de preconceito. Após isso, procede-se a uma análise do problema baseada principalmente em exemplos de situações em que o negro seria vítima de discriminação. Como conclusão: "é preciso conscientizar as pessoas, criar leis que garantam direitos, mudar a forma estereotipada como a mídia retrata o negro e melhorar a educação". Bem, essa é uma opção, mas trata o problema apenas do ponto em que ele foi exposto. Ou seja, não se analisam causas histórias, são se observa o objeto a partir de vários ângulos. Apenas repisa a velha fórmula de que a culpa pelo malfeito é sempre do outro - do Governo, "dos pulítico", da Rede Globo - e a solução também estaria nessas instâncias. Eu não tenho participação nisso. Eu me posiciono fora ou acima dos grupos sociais.
    Uma outra abordagem possível partiria da análise dos valores sociais que sustentam o problema apresentado como tema da redação. Ou seja, que valores comuns e particulares legitimam o preconceito contra gays, mulheres, negros? Que valores abonam a percepção de muitos brasileiros de que é impossível se divertir sem o consumo de álcool e de outras drogas? Que valores emulam no carro a virilidade e a competição, de tal forma que um motorista seja capaz de matar quem ouse fechá-lo no trânsito? Bem, vamos então analisar valores cultuados em três instituições basilares da sociedade: família, Igreja e escola.
    Quanto ao preconceito de gênero, vejamos como essas três instâncias erradiadoras de valores influem na perpetuação do problema. Socialmente, é consenso refutar a tese de que a mulher seria inferior ao homem. Portanto, deve-se lutar contra práticas que reforcem essa percepção. Certo? Na teoria sim, mas na prática... A Igreja católica, por exemplo, não admite padres mulheres, o que é um sinal claro de que elas não seriam aptas para a função. A Igreja não admite sequer discutir a existência dos homossexuais, quando não alimenta a percepção de que seriam "obras do diabo".
       A família, por sua vez, alimenta a ideia do desnível ao tratar meninos e meninas de forma muito diferente. A menina veste rosa, só ganha bonecas e artigos de cozinha e de maquiagem de presente. Já os meninos, vestem azul e ganham carrinhos e jogos eletrônicos. Elas são mais vigiadas; eles são estimulados desde cedo a lutar, agir grosseiramente e sair para a rua à cata de meninas. Um menino que brinca com boneca "vira gay"; a menina que brinca de carrinhos "torna-se lésbica". A escola apenas legitima esses comportamentos. Os livros didáticos trazem fotos de famílias constituídas de pai, mãe e filhos: brancos, magros e aparentemente heterossexuais. Em resumo, os valores que permeiam nossa consciência coletiva, no que tange ao gênero, remetem a uma figura feminina passiva, frágil - numa mulher não se bate nem com uma flor -, emotiva e fútil: leva horas para se trocar e está constantemente preocupada com a aparência física. Isso sem falar no papel da mulher como elemento decorativo.
    Sob esse aspecto, a pergunta não seria por que o preconceito persiste, mas por que não persistiria. Os valores que supostamente agregam a sociedade são baseados na supremacia de um indivíduo do sexo masculino, branco, magro, rico e bonito. Como não esperar que negros, gordos, feios, mulheres, gays não se sintam excluídos? Esses mesmos valores cultivam a percepção de que somos seres incompletos à procura da nossa alma-gêmea, da tampa da nossa panela. Ser solteiro, não seria jamais uma opção, mas uma maldição. Da mesma forma cultuam-se  a bebida, a velocidade e a competitividade como traços distintivos do macho, do forte, do vencedor. 
    Bem, concluindo. Com o que devo me preocupar na preparação para a redação do Enem? Você deve se preocupar menos com o tema e mais com a pesquisa sobre os valores que historicamente sustentam ou sustentaram nossa sociedade, que embasam nossa visão de mundo. Você deve sair da sua zona de conforto e refletir sobre esses valores. Isso é que lhe vai render argumentos e conclusões autênticas e mais distantes do senso-comum. A escola, por sua vez, contribuiria sobremaneira não apenas para preparar o estudante para avaliações, mas para formar cidadãos melhores se adotasse uma postura crítica quanto aos valores socialmente postos como "unânimes". Em vez de demonizar a TV, a internet e o funk, discutir esses elementos, situando-os histórica e socialmente.  Adotar uma postura crítica não significa negar ou destruir. É óbvio que a união em torno de determinados valores pode ser a única forma de  garantir o bem-estar social em um determinado tempo e lugar. Mas essa percepção não pode ser confundida com comodismo e dogmatização. 
    Posicionar-se criticamente significa, por exemplo, analisar um problema de vários ângulos. O Governo é sempre o problema, o culpado? Nunca a solução? A mídia manipula mesmo ou apenas se apropria de valores do senso-comum, como todo mundo faz? O cidadão comum é sempre um pobre inocente frente a todos os problemas? Ficar calado ou não ter opinião é mesmo um ato de isenção?  O fato de um comportamento ser praticado pela maioria significa que ele seja padrão ou correto? A maioria já concordou com a escravidão. A maioria na Alemanha apoiava Hitler... Pense.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Meninos não aprendem nada
     Quem lê reportagens e artigos na internet já se acostumou aos comentários sem-noção. Geralmente um emaranhado de insultos que ao final se resumem em culpar o Governo ou o PT por todos os problemas da humanidade. Mas às vezes; vezes muito, muito raras, os comentários são tão bons que completam ou superam o texto original. É o caso do artigo “Meninas aprendem a se proteger; meninos não aprendem nada”, da especialista em políticas de educação e ciência Sabine Righetti, publicado na edição eletrônica da Folha de S. Paulo deste domingo, 20 de abril. O ideal é que se leiam o artigo e os comentários na íntegra, mas, resumidamente, o texto, ainda no rastro da pesquisa do IPEA que suspostamente indica que os entrevistados consideram que uma mulher sumariamente vestida mereça ser atacada sexualmente, defende que as escolas ensinam as meninas a se proteger contra ataques sexuais mas não ensina os meninos a não as atacar.
     Além da fragilidade da tese defendida, há ainda o título genérico demais: as meninas, todas elas, aprendem a se proteger, mas os meninos, esses malvados, não aprendem nada. Possivelmente, a infeliz escolha desse título já foi suficiente para atrair comentários irados. Mas o mais curioso é que a maioria dos comentários mantém um alto nível de argumentação. Alto nível que a autora do texto não conseguiu nem de perto alcançar. É o caso do leitor que se identifica como John Keiper. Ele diz: “Ah, as generalizações… Se alguns são doentes e covardes, todos os homens não possuem escrúpulos e devem ser educados, assim como todas as mulheres são entidades divinas, que podem sair a hora que quiserem, em um país seguro como o Brasil. O senso de segurança não serve para ambos os sexos?. Prezo pela igualdade de direitos e deveres, mas sem esse feminismo cego.”
     Já Léo Roberto ponderou: “Estuprar é um ato que revela, sem dúvida alguma, um gravíssimo problema psiquiátrico do praticante. Educação nada tem a ver com esse comportamento terrível. Qualquer homem, independentemente de sua educação, se não for desequilibrado jamais conseguirá perpetrar esse crime.” O leitor Flávio argumenta que o estupro deve ser encarado em meio a todas as outras formas de violência: “Alienado seu texto. Sou homem, 33 anos faço academia, musculação pesada, e não saio de casa pra correr nem depois das seis. Não na rua. Uma coisa é estar em Viena outra é estar no Rio ou em São Paulo em que há uma horda armada disposta a tudo. Se quiser ficar teorizando sobre o machismo, feminismo e outros ismos tudo bem, mas a violência urbana não escolhe, porte físico etnia, gênero.”
     E assim seguem os comentários, sempre atacando as incoerências que permeiam os raciocínios desenvolvidos no texto. Até o momento de publicação deste texto, apenas Loira havia empenhado total apoio à tese de Sabine e de uma forma bem clássica, com direito a ofensas e generalizações: “Ótimo post, ótima observação Sabine. Infelizmente essa proporção de um em quatro ainda é grande e revela que o Brasil é o país dos calhordas que acham, sim, que só compete às mulheres ter freios morais.”, postou a leitora, se referindo à pesquisa corrigida do IPEA. Parece que Loira aprendeu a se defender.
Por que não temos  uma Shakira
    É bem verdade que o Brasil tem evoluído muito nos últimos tempos. E os sinais desse crescimento estão evidentes seja nas ruas entupidas de carros zero das mais variadas marcas ou no crescente número de passaportes emitidos para a classe média ávida em gastar seu dinheiro em Miami ou Bariloche. No entanto, há algo imutável no Brasil: o preconceito cultural que como uma pesada âncora nos amarra à idade média. É esse preconceito que infelizmente baliza e muitas vezes mata no nascedouro novas manifestações artísticas brasileiras. Os brasileiros odeiam - até antes de conhecer - Funk, Axé, Arrocha,Tecnobrega, ou qualquer outra novidade que não surja com a chancela dos cânones do samba, da bossa nova, da MPB.
    O mais cruel dessa lógica perversa é que até os brasileiros mais simples, mais pobres, da janela de seus barracos no alto do morro já ouvem com desconfiança a batida dos novos ritmos. É que a medíocre elite intelectual deste país conseguiu incutir, principalmente via escola, na cabeça das pessoas que só o que surge da classe média para cima pode ser moralmente aceito, sem ser antes taxado de aberração, anormalidade, vulgaridade, falta de cultura. Ou seja, por causa de uma miopia cultural o Brasil relega a segundo plano a periferia, o youtube, enfim, condena à clandestinidade a mais autêntica e alvissareira novidade musical. Tudo em nome de um purismo idiota que nada mais é que um conservadorismo tacanho. Fosse carioca, paulista, ou de Belém do Pará, Shakira estaria até hoje condenada a esparsos e meteóricos vídeos na internet, quando muito aos palcos do Domingão do Faustão. Mas jamais seria estrela mundial, mesmo que esperneasse, ficasse raviosa, loca, loca crazy. A Shakira brasileira, que responderia pelo nome de Gaby Amarantos, Ivete Sangalo ou MC Rodolfinho jamais cruzará as fronteiras do Brasil.
    Não porque não tenha talento, mas, por estar desde sempre acorrentada ao preconceito de um povo hipócrita que embora se refestele descendo até o chão com os novos ritmos ainda acredita que tudo que surja longe das paredes mofadas da Academia Brasileira de Letras ou do Teatro Municipal do Rio não seja legítimo e deva ser curtido na surdina em escapadelas para a senzala, no escurinho da noite. A Colômbia não tem vergonha de Shakira; Porto Rico não tem vergonha de Ricky Martin ou de Luís Miguel; a Coreia do Sul não tem vergonha do Psy; a Espanha se orgulha de Julio Iglesias. Houvesse surgido hoje, nem a pequena notável Carmem Miranda teria conseguido ser reconhecida fora do Brasil. Portanto graças ao nosso preconceito travestido de apuro cultural, graças à hipocrisia de gente que se diverte com as novelas da Globo e mente que só ocupa o tempo lendo livros, nunca teremos um cantor de sucesso internacional. Mas continuaremos a tentar sufocar dentro da nossa mente aquela balada envolvente que chega dos morros, das periferias de SP, dos bares sujos da esquina. Shakira teve muita sorte de nascer na Colômbia.
Os três oráculos do ano novo
   Início de ano é época para reflexão. Revèillon, IPVA, IPTU materializam na vida da gente aquela encruzilhada em que nos detemos e pensamos: para onde vou? Aí entram nossas crenças para guiar nossas ações. E foi numa dessas coincidências de filme da Sessão da Tarde que meus passos foram conduzidos para três oráculos. Não um, não dois, mas três oportunidades de obter orientação para saber que estrada seguir. Pois bem, minha primeira chance de definir meu 2014, de fazer a escolha certa, de abrir meus caminhos se deu num hipermercado. Estava na fila para pagar a compra quando me deparei com um cartaz de propaganda de um sabonete. Sim, o sabonete Lifebuoy é a solução para todos os problemas da humanidade. Combate desde espinha no rosto até infecções generalizadas, passando pelas mais terríveis e abomináveis bactérias e vírus. Lifebuoy é tudo de que preciso. Comprei. Mas foi no Rio de Janeiro, sob um sol escaldante e sensação térmica de 50 graus que tive uma visão maravilhosa. E me senti um tolo, um herege, ao cair na sedução fácil e materialista do Lifebuoy.
   A princípio pensei ser uma alucinação, uma miragem causada pelo forte calor. Mas não, estava ali, no calçadão da Cinelândia, um rival à altura para o sabonete Lifebuoy. Um cartaz da Igreja Universal prometia fazer tudo o que o sabonete faz e muito mais. Seria o fim dos meus problemas financeiros, das minhas angústias, da miséria, das brigas e da depressão. E até problemas que eu nem sabia que tinha seriam resolvidos, como “ouvir vozes”. Sempre pensei que isso fosse uma bênção mas parece que não. Ouvir é um mal.
   A igreja também atua na área dos oftalmologistas – “acaba com a visão de vultos” – e vai economizar meu terapeuta: “acaba com a depressão, a tristeza e a angústia”. Até o Ministério do Trabalho devia entrar para a tal igreja, que também combate o desemprego. Estava decidido: iria me alistar, aderir, curtir, sei lá como se diz, à Igreja Universal da Cinelândia. Mas foi aí que a libélula entrou na minha vida. Na verdade, entrou no meu quarto e pousou sobre a toalha úmida que eu acabara de deixar sobre a cama. Meu primeiro impulso foi expulsar o inseto dali. Mas fui antes ao Google: “o que significa libélula?”. E a resposta me apareceu. Veio do Yahoo Respostas mas podia ter sido anunciada entre trombetas no alto do Monte das Oliveiras: “A libélula avisa que devemos procurar em nós mesmos os hábitos que precisamos mudar para alcançarmos a evolução”. Era ela. Veio até mim. Não estava numa prateleira do supermercado nem entre bares, ambulantes e michês da Cinelândia. Ela veio até mim. Saiu de onde vivem as libélulas. Cruzou sabe-se lá quantos caminhos, exauriu as forças das suas asinhas transparentes para me dizer que eu deveria mudar para evoluir. É ela que eu tenho de ouvir. Agora tenho de pagar IPTU e IPVA.

sábado, 19 de abril de 2014

O primeiro hater do Galvão Bueno

Hoje em dia qualquer um odeia o Galvão Bueno. Não gostar do Galvão é politicamente correto. É quase pré-requisito para ser descolado. Mas muito, muito antes de odiar o Galvão ser moda, Kit já detestava o locutor da Globo. Kit foi o primeiro odiador do Galvão. Não era só ódio. Era pânico, terror; Kit era galvanofóbico. Kit se escondia debaixo da cama tremendo e chorando de medo do Galvão. Kit era o cãozinho pinscher lá de casa. Um bicho minúsculo, pretinho e metido a valente como só os pinschers sabem ser. Mas ele tinha um ponto fraco. A criptonita do Kit era o Galvão Bueno. Tardes de domingo eram o inferno para o Kit. Ele aturava a musiquinha chata do Esporte Espetacular, suportava a Turma do Didi, mas ficava tenso com o Faustão. Ele sabia que o Faustão era o prenúncio do Galvão. “Bem, amigos da Rede Globo...” essa era a senha para o terror. Kit e Galvão não se davam. Era começar o futebol e o Kit saía apavorado e se escondia debaixo da primeira cama que encontrasse. Ninguém o tirava de lá. Não, enquanto Galvão estivesse no ar.
     Mas por que Kit odiava Galvão Bueno? À época nem havia o RRRRRRonaldo! Galvão ainda poupava nossos tímpanos. Resolvemos fazer testes. Afinal, Kit jamais nos diria por que odiava Galvão. Levantamos hipóteses: Kit não odiava a TV, pois suportava até o Zorra Total e parecia ter uma quedinha pela Priscila do TV Colosso. Então Kit odiava futebol? Fácil descobrir: em vez da Globo, Band. E não é que o kit via de bom grado o Luciano do Vale? O Sílvio Luiz também não mexia com o Kit. Olho no lancêêêê.... Não era a TV, não era a Globo. Sim, Kit podia ser desses que juram que a Globo aliena e coisas do tipo. Mas não, o ódio do Kit não tinha fundamentação ideológica. Também não era o futebol. Não era o Cruzeiro, não era o Atlético nem o XV de Jaú. Foi aí, como na maior parte das grandes descobertas, que o acaso nos socorreu. Estava lá o tempo todo e nunca tínhamos percebido! É verdade que em muitas partidas o verdadeiro inimigo do Kit não dá as caras. Mas, o motivo do ódio do Kit não era o Galvão! Era o gol! Também não era exatamente o gol, eram os fogos de artifício que acompanham os gols! Então Kit não era um hater do Galvão, Kit tinha apenas medo do barulho dos fogos. E como na minha casa futebol era apenas na Globo, o pobrezinho associou a voz do Galvão aos estrondos dos foguetes. Descobrimos isso quando outro locutor gritou Gol! e o Kit correu para debaixo da cama.
     O medo irracional do Kit, que depois morreria atropelado na Rua Pernambuco com Sete de Setembro, foi assim um dos primeiros experimentos científicos da minha vida. Descobrir por que Kit tinha medo do Galvão Bueno desencadeou em nós ainda que rusticamente, métodos científicos: hipóteses, testes, análises, refutações e comprovações. Bem antes disso, lembro do meu avô, em Carmo da Mata explicando como ele descobriu que o Manacá na verdade não dava flores de cores diferentes... Mas isso é outra história que também envolve ciência, que também envolve curiosidade e a única coisa que nos move para a frente: o querer saber.
Bic-Jr pode ser um modelo para o ensino médio
     Às vezes não enxergamos  uma coisa porque ela está longe ou perto demais dos nossos olhos. Parecer ser o caso da bolsa de iniciação científica para alunos do ensino médio, o “Bic-Jr”. O governo não é capaz de vislumbrar no programa a solução para a maior parte dos problemas da escola brasileira. O Bic-Jr -  Bolsa de Iniciação Científica  - funciona assim: um professor com experiência em pesquisa propõe dentro de sua área de domínio um projeto de pesquisa de um ano de duração. O estudo é então submetido à entidade financiadora, do governo. Se o projeto for aprovado, o passo seguinte é o professor selecionar um ou mais bolsistas para tocar o projeto.
    O estudante recebe uma ajuda de custo mensal, em dinheiro. Mas quem orienta ou já orientou alunos dentro do programa sabe muito bem do alcance do Bic-Jr. A relação aluno-professor é muito, mas muito mais proveitosa dentro desse sistema. E seria mesquinharia dizer que isso se dá pela bolsa. Não, o que estimula o aluno nesse caso é o senso de investigador, de pesquisador que lhe é incutido pelo trabalho.
     Além disso, o bolsista sabe exatamente o que ele faz ali. Ele conhece os objetivos de seu trabalho, sabe aonde pode chegar, onde buscar os dados. Ao contrário do que acontece geralmente dentro da sala de aula, quando o professor leva respostas prontas, no Bic o professor ou orientador é um problematizador. Sua função é instigar, é criticar e elogiar, ajudando o aluno a pesquisar, a redigir teses, hipóteses, conclusões. Isso sim é educação.
    É claro que essa relação depende muito da experiência do professor, de sua capacidade de analisar variantes, de liderar uma equipe. Mas isso é mais uma vantagem do Bic. O programa permite detectar erros do orientador com muito mais facilidade. Isso porque se algo der errado, o próprio aluno perceberá logo que sua pesquisa não anda, que os objetivos traçados no início não estão sendo contemplados.
     Mas como o Bic pode ser uma saída para a educação brasileira? Pode à medida que as modorrentas aulas e os obsoletos e extensos programas de curso forem transformados em trabalhos em equipe e em projetos interdisciplinares com objetivos bem claros, a curto, médio e longo prazos. Um bom argumento contra a ideia seria: mas os projetos do Bic são restritos a uma área específica do conhecimento, como usar essa experiência, então, para dar formação geral ao aluno, caso do ensino médio?
    Primeiro, que é impossível empreender uma pesquisa que só use um conteúdo. Seja qual for o tema da pesquisa, o aluno precisará de recorrer à linguística, à matemática, a noções de geografia, de história. Segundo, que os projetos seriam pensados de forma a contemplar todas as áreas do conhecimento. O enfoque é que mudaria: os conteúdos passariam a ser ferramentas e não um fim em si próprio. Um erro comum que professores costumam cometer é achar que o que eles ensinam é fim e não meio.
     A escola, então, em vez de dividida em salas de aula que isolam alunos e professores, em vez de aulas, que fragmentam o raciocínio e impedem a disciplinaridade, teria projetos. Por mais simples que fossem, não importa, seriam tarefas planejadas em conjunto pelos professores, a ser desenvolvidas em seis meses, um ano… Não é algo difícil de ser posto em prática. Não demanda mais aportes de dinheiro nem contratações. Mas altera estrutura secular e tira do professor seu show diário, seu monólogo de 50 minutos e coloca o aluno no centro de uma busca real e produtiva pelo conhecimento.
A xávena!, a xávena!
     Outro dia, em uma aula sobre variação linguística, o assunto era a diferença vocabular que existe entre o português brasileiro e o português. Foi quando me vieram à mente as lembranças das vezes em que, mesmo sabendo dessas diferenças, tive alguma dificuldade de comunicação em Portugal. Em 1998, fui a uma exposição mundial em Lisboa e, quando me dirigia ao pavilhão da França, uma senhora me segurou pelo braço e alertou: “Tu não vais conseguir entrar lá, por causa das bichas!”
    Fiquei tão perplexo com a afirmativa, que não consegui dizer nada. Apenas olhava para a mulher e ela ficou tão assustada que me deixou em paz. Por via das dúvidas, desisti de ver a exposição da França. Mas continuei indignado com o preconceito da mulher. Só uma semana depois, quando fui converter dinheiro no banco Pinto Sotto Mayor - só em Portugal pra existir um banco com um nome tão sugestivo -, entendi o que a mulher havia querido dizer. A luz me veio de uma placa, afixada no banco, com os dizeres: “Respeite a bicha única”. Bicha é fila, claro.
     No hotel, não me lembro se na mesma viagem, houve dois episódios divertidos. Quando fui entrar no elevador, o ascensorista fechou a porta, aquelas jurássicas, dobráveis, de ferro, no meu braço. Mais tarde, o gerente foi até o meu quarto pedir desculpas pelo ocorrido e perguntou: “O senhor está magoado?”. Achei tão bonitinho isso: o hotel se preocupar com os meus sentimentos... Eu respondi que não, por que haveria de me magoar com um pequeno incidente? Estava apenas com o braço dolorido. Por via das dúvidas, consultei o Aurélio deles: “magoar”, por lá, é o nosso “machucar”.
     Por fim, há o caso do pequeno almoço - é como chamam o café da manhã em Portugal. Quando a garçonete - meseira, na verdade - ia servir o café, ela sempre pedia que as pessoas virassem as xícaras, que em Portugal se chamam xávenas. Ela repetia, em um tom de voz bem autoritário a mesma ordem: “A xávena!” “A xávena!”. Quando ela disse isso na mesa ao lado da minha, a ocupante da mesa, uma brasileira, saiu correndo como uma doida.
    A mal humoradíssima garçonete não entendeu nada, e passou à mesa seguinte. Eu e muito provavelmente a mal humorada, já havíamos até esquecido a fuga da brasileira, quando ela chegou correndo no salão, visivelmente esbaforida e gritando: “Aqui estão as chaves!”. A coitada pensou que para servir o café, a garçonete havia exigido as chaves do quarto, para provar que ela era hóspede do hotel, quando na verdade, só queria a xávena, ou seja, a xícara!
Skins é Malhação com neurônios
     Encontrei Skins por acaso, quando procurava na internet outros papéis de Dev Patel, o ator de Quem quer ser um milionário. Não sou tão fã assim do filme, mas é que Dev me lembra um amigo antigo. Mas não é a minha história que interessa e sim a dos adolescentes de Skins. Desde a primeira vez que vi Friends, que não me impressionava tanto com uma produção desse tipo. Skins é uma espécie de Malhação com neurônios. A semelhança na verdade reside tão-somente no fato de que as histórias circundam o mundo teen. Só isso. Skins é intenso, é forte, é angustiante, é repulsivo é viciante.
    É claro que as experiências pessoais, os traumas, os desejos reprimidos e as lembranças nos ajudam a compor a história alheia. Skins se passa em Bristol, cidade simpática da Inglaterra. Quem já andou por lá sabe o cheiro das ruas, o clima dos pubs, o vento frio do fim de tarde... Mas não precisa ter pisado na Inglaterra para se sentir na pele dos adolescentes de Skins.
   À primeira vista depravados e inconsequentes, os garotos e garotas são apenas um estereótipo das incoerências dessa fase da vida. Longe da frivolidade e do maniqueísmo das produções americanas  - O.C. – e brasileiras – Malhação, Sandy e Júnior (hehehe) -, Skins exagera nas cenas de sexo, bullying e transgressão de toda forma e assim vai esfolando os clichês até que em carne viva se apresenta a questão nua e crua: o que importa é o sentimento.
    Não o arquétipo romântico que caminha para o altar sob a indefectível valsa e a arrastar o impecável véu branco. Mas o sentimento que nos faz ser fiéis, companheiros e cúmplices; bons e maus. Amizade, amor, gostar, amar.  Skins consegue ser didático sem ser chato. O diálogo entre o jovem gay Maxxie e o muçulmano de araque Anwar – sim, achei o Dev Patel! – é quase um manifesto anti-homofobia: “Você já tentou ficar com garotas?”, pergunta Anwar ao amigo. “Você já tentou ficar com garotos?”, devolve Maxxie , com uma lógica desconcertante.
    Skins é a constatação de que existe vida inteligente longe de Hollywood e do Projac. É a prova de que é possível retratar o adolescente sem recorrer a caricaturas grosseiras. Skins é coisa de pele. Não compensa o amigo que sumiu, mas reforça que o que importa é o sentimento que fica. “A coisa mais fina do mundo”, diria Adélia Prado em seus saudosos tempos de coerência. (Skins, Inglaterra, 2007. HBO Plus, Netflix)
Por que professores dão prova sem consulta?
    O livro Escola sem sala de aula (Editora Papiros, 2004), escrito por um jornalista, um educador e um empresário deveria ser leitura obrigatória de professores. A obra traz um debate sobre os problemas da educação no Brasil e sugestões de como tudo poderia mudar. Mas o mais curioso e divertido é quando os autores tentam desvendar alguns mitos das nossas escolas: por que uma aula dura 50 minutos?; por que uma turma tem sempre cerca de 40 alunos?; escola de tempo integral funciona?; por que os professores não mudam se eles mesmos sabem que o atual esquema não funciona?; por que durante as provas, os alunos não podem usar livros ou calculadoras, se eles sempre terão isso à mão?
    Nos próximos artigos, pretendo expor as conclusões do livro sobre esses mitos todos. Mas neste, vamos ficar com o último: por que professores fazem questão de provas sem consulta? Pois bem, no livro, o pedagogo Antônio Carlos Gomes da Costa explica que essa mania de muitos professores não passa mesmo de mito. O pedagogo lembra que, durante a Idade Média, a escola exigia que os alunos decorassem a matéria. Naquela época, os alunos copiavam em uma pequena lousa o que o professor passava no quadro. Mas como não havia espaço suficiente, os estudantes tinham de apagar para copiar mais conteúdo. Assim, o professor obrigava que os alunos decorassem a matéria antes de apagar.
    Com a invenção da gráfica – livros, cadernos, folhetos... –, de computadores, esse expediente não seria mais necessário. Note-se: na Idade Média, decorar não era um recurso didático, mas prático. Ou seja, o professor exigia que o aluno decorasse porque não havia como eles estocarem aquela matéria para consulta futura. Só que a escola não entendeu isso e transformou em mito o que era apenas uma necessidade causada pela limitação tecnológica. O fato de o aluno decorar uma informação não significa que ele a tenha compreendido. E muitas vezes o aluno sequer sabe procurar a informação no livro ou na internet.
    Antônio Carlos lembra que não há absolutamente nenhum argumento lógico a favor da decoreba. Não existe situação real – fora da escola - em que a pessoa não possa consultar. Além disso, a memória é seletiva. Só guarda o que tem utilidade vital. Por isso, nunca esquecemos como se anda, como se dirige o carro, como se escreve ou as operações matemáticas básicas. Para o pedagogo, é difícil mudar a cultura da decoreba justamente porque a prática se transformou em mito. Também é muito difícil convencer pessoas simples da zona rural de que manga com leite não é um veneno. Da mesma forma, muitos professores têm medo de mudar e perder um referencial e às vezes até um mecanismo de manutenção do respeito – ou medo? – da turma em relação a ele.
     Mas, uma dica para os alunos: é fácil provar para seu professor que decorar a matéria não é um método eficiente de ensino. Basta que você desafie seu professor de Matemática a responder a uma questão sobre Gramática ou o professor de Português a responder algo sobre Química... Mas não o deixe consultar, heim!
O show da vida
     E se tudo fosse um sonho? Pelo menos uma vez na vida, todo mundo se faz essa pergunta. É porque é tudo tão absurdo, e às vezes tão ilógico, que não  resta resposta mais lógica do que achar que estamos sonhando ou, para os megalomaníacos – e criativos – supor que tudo não passa de uma armação.
    No cinema, dois filmes fizeram sucesso ao embarcar na teoria da conspiração: a vida não passaria de uma fraude, um jogo ou uma encenação. Matrix (EUA, 1999) é mais adolescente, também mais confuso. Trabalha com a hipótese de que o mundo como o vemos é apenas uma ilusão gerada por um programa de computador.
    Já O Show de Truman (EUA, 1998), apesar do careteiro Jim Carrey (argh!) é muito mais criativo, pois coloca lado a lado suposta realidade e a ilusão. O que se chama de mundo, de vida, é, na verdade,  uma farsa armada por uma rede de TV, um reallity show no ar há trinta anos. A cena final, da porta que se abre no céu, que na verdade, como tudo, é apenas um cenário, é uma das mais instigantes e belas do cinema.
    De certa forma, a teoria abordada pelos dois filmes tem lógica. Vivemos, sim, em um misto de Matrix e O Show de Truman. Nossa matrix é gerada pela linguagem que, por sua vez, contém o script do show que interpretamos. Com a linguagem, o homem  supriu a necessidade de se falar de algo na ausência desse algo.  Se isso é uma vantagem competitiva colossal, com relação a outras espécies, é também uma fonte de sofrimento e a aceitação de um script a ser seguido durante toda a vida. Isso porque com o tempo, a imagem, sempre distorcida, que criamos de algo, torna-se mais real do que aquilo que representa no mundo.
    O mundo e tudo o que existe nele, não pode ser transportado para dentro da linguagem.Uma palavra é apenas um simulacro, é bom que se repita, sempre distorcido de um coisa real. A linguagem evoluiu tanto, que hoje ocupa o lugar daquilo que deveria apenas representar. Quando pedimos paz, quando fazemos loucuras em nome da felicidade, quando damos um presente, estamos cumprindo rituais estabelecidos dentro da linguagem. Não paramos para definir felicidade, mas a queremos; não questionamos o que exatamente seria o amor, mas o evocamos diariamente. Nossa paz é o branco, é uma pomba, é um gesto com as mãos. Mas no fundo é nada, fora da linguagem. Queremos apenas cumprir o roteiro, seguir o mesmo caminho por que outros já passaram. Não vivemos porque estamos ocupados demais querendo viver uma fantasia.
Como foram as minhas férias
     Boa parte dos brasileiros, mesmo escolarizados, não é capaz de compor uma dissertação coerente sobre um tema atual.  De quem é a culpa? Quando surge o trauma com a redação? Redigir é algo que deveria ser desenvolvido com a prática. Mas essa tarefa está a cargo das escolas, que não a cumprem bem. O principal responsável por isso talvez seja a falta de preparo dos professores. Além de se aterem a esquemas fixos baseados apenas no “racional”, recorrem a temas descontextualizados ou já tão batidos que só vão reproduzir fórmulas fixas de elaboração de textos.  O tema mais antológico é, sem dúvida, o “Como foram as minhas férias”.  Aliás, esse tema me faz lembrar uma história que eu sempre conto em sala-de-aula e que é bastante emblemática para exemplificar como a escolha de temas tolos pode levar à produção de textos idem. Certa vez, uma amiga de Carmo do Cajuru (MG) me contou, bastante constrangida, que depois de ser obrigada pela milésima vez a escrever sobre as férias, resolveu inovar.
    O enredo básico ela manteve, já que em time que está ganhando não se mexe: em seu texto, ela havia ido passar as férias na fazenda de um tio no interior - como se fosse possível ir de Cajuru ainda mais para o interior; deve ser para o centro da Terra. Lá, ela nadou, chupou jabuticaba ou manga, andou a cavalo... A novidade vem agora: “depois de um dia de muitas peripécias pela fazenda, ao cair da tarde, eu me deitava sob um frondoso pé de amendoim para ler um livro, enquanto o sol fazia brilhar os cachinhos dourados da fruta.”
   Ela entregou o texto - que na época se chamava composição - e ficou esperando ansiosamente o resultado de sua ousadia literária. Está esperando até hoje. Mas isso não lhe custou nenhum trauma, já que era normal o professor jamais dar satisfação sobre os textos. O choque mesmo veio foi muitos anos depois, quando ela teve um revelador encontro frente a frente com um pé de amendoim.
    A moça me contou, cobrindo o rosto com as mãos, que nunca sentiu tanta vergonha na vida quanto frente àquela planta de no máximo cinco centímetros de altura. Ela confessou que escolheu o tal pé de amendoim como local de leitura, no texto, justamente porque nunca tinha visto um. Era um toque de exotismo. Como também nunca tinha lido um livro. “Meu Deus, pra ler um livro debaixo de um pé de amendoim, eu tinha de ser um smurff ou um gnomo”, disse rindo. Que nada, minha amiga, bastava ser do tamanho do seu professor.
A nossa época
     “Na minha época as coisas eram bem diferentes...” Quem já não ouviu uma narrativa que comece assim? Mas, como assim, “na minha época”? Quer dizer que quem diz isso é o quê? Um viajante do tempo? Alguém que não é desta época? Isso não existe. Hoje é o primeiro dia do ano. Na prática, isso não quer dizer nada, já que fomos nós mesmos que inventamos o calendário.
     Mas o efeito psicológico é evidente. Até um cético de carteirinha como eu tem de admitir isso. Ontem, por exemplo, eu fiz uma faxina nas gavetas. Isso é bom, pois simboliza vida nova. Joguei todos os trabalhinhos não entregues no lixo. Mas para quem acha que é de outra época, esse ritual pode ser um desastre. Para quem tira o time de campo e entrega a vida, o tempo presente para os tais jovens... Não existe isso. Tenha você 12, 30, 80 anos ou seja a Hebe Camargo, sua época é agora.
    Nossa! Isso está começando a ficar com cara de auto-ajuda. Que nojo! Mas o que eu queria dizer é: não se deixe iludir pelo marketing consumista. A época de ninguém “passa”. Nem a uva passa. Aproveite 2006 para viver. Saia da Academia, se isso é apenas uma obrigação. Siga a novela das oito, se você gosta de ter um compromisso. Portanto, que em 2006 você se liberte dos clichês que o impedem de ser feliz. Ou não. (01º/01/2006)