quarta-feira, 30 de abril de 2014

Brasil é o país menos solidário da América do Sul
     O Brasil é um país solidário, de gente hospitaleira e gentil, certo? Errado. Pelo menos é o que aponta uma pesquisa divulgada no final do ano passado. O país aparece em 91º lugar entre as 135 nações pesquisadas pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). A pesquisa, que mede a solidariedade dos povos, quis saber em quais países pessoas e empresas têm mais costume de fazer doações. O Brasil, apesar de ser o país mais rico, é o menos solidário da América do Sul. No mesmo patamar de ruindade no ranking está o paraíso do socialismo do século XXI, a Venezuela. Ganha uma viagem a Cuba ao lado do presidente Maduro quem adivinhar qual país tem a população mais generosa do mundo... Estados Unidos! Isso mesmo, os “capitalistas selvagens”, os que “pensam mais no ter do que no ser” são os mais solidários do mundo. E antes que se diga que eles doam porque têm mais dinheiro, é bom informar que o segundo colocado é Myammar. O miserável país da África. Com certeza a culpa é do governo e da Rede Globo, que mantêm as pessoas na ignorância para dominá-las mais facilmente. Deus é americano.

domingo, 27 de abril de 2014

"Não deixe que a escola te ensine"
     Esse é o título de um artigo no mínimo instigante cuja leitura me foi sugerida pela aluna Letícia Raquel, do 2º Ano de Informática do Cefet-MG Divinópolis. O artigo é na verdade uma carta em que um pai alerta a filha sobre as falhas do atual e obsoleto sistema de ensino brasileiro. Reconfortante que ela me tenha recomendado o texto por concordar com ele e não por achar absurda a ideia sugerida logo no título. Desde o primeiro ano trabalho com meus alunos textos que possam ajudá-los a promover por conta própria uma análise crítica da educação neste país. Além de artigos, como os de Rubem Alves, um dos mais antigos opositores da decadente escola brasileira, lemos também textos sobre a experiência da Escola da Ponte, em Portugal.
     A instituição perverte todos os princípios que os brasileiros consideram pilares intocáveis da escola. Na Escola da Ponte não há divisão por séries, não há as disciplinas como no Brasil, não há sala de aula, não há provas com ou sem consulta, não há aulas... Trabalham-se apenas com projetos interdisciplinares vinculados a áreas de conhecimento. Os professores são orientadores e não pessoas obrigadas a passar todo dia duas horas na frente de 40 alunos sentados em fila. A Escola da Ponte é a melhor escola básica de Portugal.
     Também trabalhamos em sala o livro Escola Sem Sala de Aula, uma coletânea fantástica de artigos de profissionais de várias áreas que derrubam dogmas sustentados pela escola brasileira e sugerem mudanças. Atualmente vamos iniciar a análise das propostas dos parlamentares sobre a reestruturação do Ensino Médio no Brasil. Obrigado, Letícia. Uma coisa é sair na rua pedindo educação de qualidade para postar a foto nas redes sociais. Outra é entender como a escola funciona e pesquisar propostas. Isso já é educação de qualidade. Quem quiser ler o artigo "Não deixe que a escola te ensine", clique aqui.

sábado, 26 de abril de 2014

São os valores, estúpido!
     A famosa frase do publicitário James Carville - "É a economia, estúpido!"- justificando a derrota do presidente George Bush para Bill Clinton, em 1992, cai como uma luva no esforço de mudar o foco de estudantes empenhados em fazer a redação do Enem. Só que, nesse caso, com uma correção: "São os valores, estúpido!". Para os espíritos sensíveis, é bom ressaltar que o "estúpido", tanto na frase de Carville como nessa paráfrase, claro, é uma constatação da obviedade de um fato que boa parte das pessoas teima em ignorar. 
    Todo ano é a mesma coisa: basta se aproximar a data do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para que professores de Redação de cursinhos encarnem os poderes duvidosos de Mãe Dinah. Está aberta a sessão de previsões do tema da redação do Enem. Um exercício tão desgastante quanto inútil. O esforço e o tempo gastos nessa clarividência poderiam ser mais bem empregados discutindo-se com os alunos abordagens baseadas nos valores essenciais que sustentam nossas crenças e, por conseguinte, modelam nossos modos de pensar e agir.
    A sociedade não é uma entidade compacta e monolítica. Ela comporta grupos sociais que divergem entre si. Mas acima de todos esses conflitos há  valores que permeiam uma "Consciência coletiva", como define o sociólogo Emile Durkheim. Essa consciência coletiva oferece valores comuns que se impõem fortemente e criam um senso de solidariedade entre os membros de um grupo e até entre grupos diferentes. Exemplos desses valores seriam a religião, a família e a escola. Isso quer dizer que os grupos existentes dentro da sociedade, ainda que divirjam em uma infinidade de situações, comungam alguns valores, como a proteção à criança, à liberdade...
    No entanto, há valores sustentados por grupos sociais que vão se chocar com interesses de outros grupos ou de indivíduos. É daí que surgem os conflitos. E é aí que lançamos a ponte com o tema abordado no início deste texto: a redação do Enem. Ora, o texto exigido no exame vai sempre partir de um tema que gere algum tipo de conflito. Não fosse assim, não haveria por que dissertar sobre o assunto. Sejam as agressões ao meio-ambiente, o preconceito contra negros ou a análise dos efeitos da Lei Seca, o que está em jogo são pontos de vista a respeito de uma problematização de um tema. 
   Uma abordagem simplista, mas bastante comum, consiste em apenas constatar, explicitar no texto que um problema existe. Ou seja: Sim, o negro é vítima de preconceito. Após isso, procede-se a uma análise do problema baseada principalmente em exemplos de situações em que o negro seria vítima de discriminação. Como conclusão: "é preciso conscientizar as pessoas, criar leis que garantam direitos, mudar a forma estereotipada como a mídia retrata o negro e melhorar a educação". Bem, essa é uma opção, mas trata o problema apenas do ponto em que ele foi exposto. Ou seja, não se analisam causas histórias, são se observa o objeto a partir de vários ângulos. Apenas repisa a velha fórmula de que a culpa pelo malfeito é sempre do outro - do Governo, "dos pulítico", da Rede Globo - e a solução também estaria nessas instâncias. Eu não tenho participação nisso. Eu me posiciono fora ou acima dos grupos sociais.
    Uma outra abordagem possível partiria da análise dos valores sociais que sustentam o problema apresentado como tema da redação. Ou seja, que valores comuns e particulares legitimam o preconceito contra gays, mulheres, negros? Que valores abonam a percepção de muitos brasileiros de que é impossível se divertir sem o consumo de álcool e de outras drogas? Que valores emulam no carro a virilidade e a competição, de tal forma que um motorista seja capaz de matar quem ouse fechá-lo no trânsito? Bem, vamos então analisar valores cultuados em três instituições basilares da sociedade: família, Igreja e escola.
    Quanto ao preconceito de gênero, vejamos como essas três instâncias erradiadoras de valores influem na perpetuação do problema. Socialmente, é consenso refutar a tese de que a mulher seria inferior ao homem. Portanto, deve-se lutar contra práticas que reforcem essa percepção. Certo? Na teoria sim, mas na prática... A Igreja católica, por exemplo, não admite padres mulheres, o que é um sinal claro de que elas não seriam aptas para a função. A Igreja não admite sequer discutir a existência dos homossexuais, quando não alimenta a percepção de que seriam "obras do diabo".
       A família, por sua vez, alimenta a ideia do desnível ao tratar meninos e meninas de forma muito diferente. A menina veste rosa, só ganha bonecas e artigos de cozinha e de maquiagem de presente. Já os meninos, vestem azul e ganham carrinhos e jogos eletrônicos. Elas são mais vigiadas; eles são estimulados desde cedo a lutar, agir grosseiramente e sair para a rua à cata de meninas. Um menino que brinca com boneca "vira gay"; a menina que brinca de carrinhos "torna-se lésbica". A escola apenas legitima esses comportamentos. Os livros didáticos trazem fotos de famílias constituídas de pai, mãe e filhos: brancos, magros e aparentemente heterossexuais. Em resumo, os valores que permeiam nossa consciência coletiva, no que tange ao gênero, remetem a uma figura feminina passiva, frágil - numa mulher não se bate nem com uma flor -, emotiva e fútil: leva horas para se trocar e está constantemente preocupada com a aparência física. Isso sem falar no papel da mulher como elemento decorativo.
    Sob esse aspecto, a pergunta não seria por que o preconceito persiste, mas por que não persistiria. Os valores que supostamente agregam a sociedade são baseados na supremacia de um indivíduo do sexo masculino, branco, magro, rico e bonito. Como não esperar que negros, gordos, feios, mulheres, gays não se sintam excluídos? Esses mesmos valores cultivam a percepção de que somos seres incompletos à procura da nossa alma-gêmea, da tampa da nossa panela. Ser solteiro, não seria jamais uma opção, mas uma maldição. Da mesma forma cultuam-se  a bebida, a velocidade e a competitividade como traços distintivos do macho, do forte, do vencedor. 
    Bem, concluindo. Com o que devo me preocupar na preparação para a redação do Enem? Você deve se preocupar menos com o tema e mais com a pesquisa sobre os valores que historicamente sustentam ou sustentaram nossa sociedade, que embasam nossa visão de mundo. Você deve sair da sua zona de conforto e refletir sobre esses valores. Isso é que lhe vai render argumentos e conclusões autênticas e mais distantes do senso-comum. A escola, por sua vez, contribuiria sobremaneira não apenas para preparar o estudante para avaliações, mas para formar cidadãos melhores se adotasse uma postura crítica quanto aos valores socialmente postos como "unânimes". Em vez de demonizar a TV, a internet e o funk, discutir esses elementos, situando-os histórica e socialmente.  Adotar uma postura crítica não significa negar ou destruir. É óbvio que a união em torno de determinados valores pode ser a única forma de  garantir o bem-estar social em um determinado tempo e lugar. Mas essa percepção não pode ser confundida com comodismo e dogmatização. 
    Posicionar-se criticamente significa, por exemplo, analisar um problema de vários ângulos. O Governo é sempre o problema, o culpado? Nunca a solução? A mídia manipula mesmo ou apenas se apropria de valores do senso-comum, como todo mundo faz? O cidadão comum é sempre um pobre inocente frente a todos os problemas? Ficar calado ou não ter opinião é mesmo um ato de isenção?  O fato de um comportamento ser praticado pela maioria significa que ele seja padrão ou correto? A maioria já concordou com a escravidão. A maioria na Alemanha apoiava Hitler... Pense.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Meninos não aprendem nada
     Quem lê reportagens e artigos na internet já se acostumou aos comentários sem-noção. Geralmente um emaranhado de insultos que ao final se resumem em culpar o Governo ou o PT por todos os problemas da humanidade. Mas às vezes; vezes muito, muito raras, os comentários são tão bons que completam ou superam o texto original. É o caso do artigo “Meninas aprendem a se proteger; meninos não aprendem nada”, da especialista em políticas de educação e ciência Sabine Righetti, publicado na edição eletrônica da Folha de S. Paulo deste domingo, 20 de abril. O ideal é que se leiam o artigo e os comentários na íntegra, mas, resumidamente, o texto, ainda no rastro da pesquisa do IPEA que suspostamente indica que os entrevistados consideram que uma mulher sumariamente vestida mereça ser atacada sexualmente, defende que as escolas ensinam as meninas a se proteger contra ataques sexuais mas não ensina os meninos a não as atacar.
     Além da fragilidade da tese defendida, há ainda o título genérico demais: as meninas, todas elas, aprendem a se proteger, mas os meninos, esses malvados, não aprendem nada. Possivelmente, a infeliz escolha desse título já foi suficiente para atrair comentários irados. Mas o mais curioso é que a maioria dos comentários mantém um alto nível de argumentação. Alto nível que a autora do texto não conseguiu nem de perto alcançar. É o caso do leitor que se identifica como John Keiper. Ele diz: “Ah, as generalizações… Se alguns são doentes e covardes, todos os homens não possuem escrúpulos e devem ser educados, assim como todas as mulheres são entidades divinas, que podem sair a hora que quiserem, em um país seguro como o Brasil. O senso de segurança não serve para ambos os sexos?. Prezo pela igualdade de direitos e deveres, mas sem esse feminismo cego.”
     Já Léo Roberto ponderou: “Estuprar é um ato que revela, sem dúvida alguma, um gravíssimo problema psiquiátrico do praticante. Educação nada tem a ver com esse comportamento terrível. Qualquer homem, independentemente de sua educação, se não for desequilibrado jamais conseguirá perpetrar esse crime.” O leitor Flávio argumenta que o estupro deve ser encarado em meio a todas as outras formas de violência: “Alienado seu texto. Sou homem, 33 anos faço academia, musculação pesada, e não saio de casa pra correr nem depois das seis. Não na rua. Uma coisa é estar em Viena outra é estar no Rio ou em São Paulo em que há uma horda armada disposta a tudo. Se quiser ficar teorizando sobre o machismo, feminismo e outros ismos tudo bem, mas a violência urbana não escolhe, porte físico etnia, gênero.”
     E assim seguem os comentários, sempre atacando as incoerências que permeiam os raciocínios desenvolvidos no texto. Até o momento de publicação deste texto, apenas Loira havia empenhado total apoio à tese de Sabine e de uma forma bem clássica, com direito a ofensas e generalizações: “Ótimo post, ótima observação Sabine. Infelizmente essa proporção de um em quatro ainda é grande e revela que o Brasil é o país dos calhordas que acham, sim, que só compete às mulheres ter freios morais.”, postou a leitora, se referindo à pesquisa corrigida do IPEA. Parece que Loira aprendeu a se defender.
Por que não temos  uma Shakira
    É bem verdade que o Brasil tem evoluído muito nos últimos tempos. E os sinais desse crescimento estão evidentes seja nas ruas entupidas de carros zero das mais variadas marcas ou no crescente número de passaportes emitidos para a classe média ávida em gastar seu dinheiro em Miami ou Bariloche. No entanto, há algo imutável no Brasil: o preconceito cultural que como uma pesada âncora nos amarra à idade média. É esse preconceito que infelizmente baliza e muitas vezes mata no nascedouro novas manifestações artísticas brasileiras. Os brasileiros odeiam - até antes de conhecer - Funk, Axé, Arrocha,Tecnobrega, ou qualquer outra novidade que não surja com a chancela dos cânones do samba, da bossa nova, da MPB.
    O mais cruel dessa lógica perversa é que até os brasileiros mais simples, mais pobres, da janela de seus barracos no alto do morro já ouvem com desconfiança a batida dos novos ritmos. É que a medíocre elite intelectual deste país conseguiu incutir, principalmente via escola, na cabeça das pessoas que só o que surge da classe média para cima pode ser moralmente aceito, sem ser antes taxado de aberração, anormalidade, vulgaridade, falta de cultura. Ou seja, por causa de uma miopia cultural o Brasil relega a segundo plano a periferia, o youtube, enfim, condena à clandestinidade a mais autêntica e alvissareira novidade musical. Tudo em nome de um purismo idiota que nada mais é que um conservadorismo tacanho. Fosse carioca, paulista, ou de Belém do Pará, Shakira estaria até hoje condenada a esparsos e meteóricos vídeos na internet, quando muito aos palcos do Domingão do Faustão. Mas jamais seria estrela mundial, mesmo que esperneasse, ficasse raviosa, loca, loca crazy. A Shakira brasileira, que responderia pelo nome de Gaby Amarantos, Ivete Sangalo ou MC Rodolfinho jamais cruzará as fronteiras do Brasil.
    Não porque não tenha talento, mas, por estar desde sempre acorrentada ao preconceito de um povo hipócrita que embora se refestele descendo até o chão com os novos ritmos ainda acredita que tudo que surja longe das paredes mofadas da Academia Brasileira de Letras ou do Teatro Municipal do Rio não seja legítimo e deva ser curtido na surdina em escapadelas para a senzala, no escurinho da noite. A Colômbia não tem vergonha de Shakira; Porto Rico não tem vergonha de Ricky Martin ou de Luís Miguel; a Coreia do Sul não tem vergonha do Psy; a Espanha se orgulha de Julio Iglesias. Houvesse surgido hoje, nem a pequena notável Carmem Miranda teria conseguido ser reconhecida fora do Brasil. Portanto graças ao nosso preconceito travestido de apuro cultural, graças à hipocrisia de gente que se diverte com as novelas da Globo e mente que só ocupa o tempo lendo livros, nunca teremos um cantor de sucesso internacional. Mas continuaremos a tentar sufocar dentro da nossa mente aquela balada envolvente que chega dos morros, das periferias de SP, dos bares sujos da esquina. Shakira teve muita sorte de nascer na Colômbia.
Os três oráculos do ano novo
   Início de ano é época para reflexão. Revèillon, IPVA, IPTU materializam na vida da gente aquela encruzilhada em que nos detemos e pensamos: para onde vou? Aí entram nossas crenças para guiar nossas ações. E foi numa dessas coincidências de filme da Sessão da Tarde que meus passos foram conduzidos para três oráculos. Não um, não dois, mas três oportunidades de obter orientação para saber que estrada seguir. Pois bem, minha primeira chance de definir meu 2014, de fazer a escolha certa, de abrir meus caminhos se deu num hipermercado. Estava na fila para pagar a compra quando me deparei com um cartaz de propaganda de um sabonete. Sim, o sabonete Lifebuoy é a solução para todos os problemas da humanidade. Combate desde espinha no rosto até infecções generalizadas, passando pelas mais terríveis e abomináveis bactérias e vírus. Lifebuoy é tudo de que preciso. Comprei. Mas foi no Rio de Janeiro, sob um sol escaldante e sensação térmica de 50 graus que tive uma visão maravilhosa. E me senti um tolo, um herege, ao cair na sedução fácil e materialista do Lifebuoy.
   A princípio pensei ser uma alucinação, uma miragem causada pelo forte calor. Mas não, estava ali, no calçadão da Cinelândia, um rival à altura para o sabonete Lifebuoy. Um cartaz da Igreja Universal prometia fazer tudo o que o sabonete faz e muito mais. Seria o fim dos meus problemas financeiros, das minhas angústias, da miséria, das brigas e da depressão. E até problemas que eu nem sabia que tinha seriam resolvidos, como “ouvir vozes”. Sempre pensei que isso fosse uma bênção mas parece que não. Ouvir é um mal.
   A igreja também atua na área dos oftalmologistas – “acaba com a visão de vultos” – e vai economizar meu terapeuta: “acaba com a depressão, a tristeza e a angústia”. Até o Ministério do Trabalho devia entrar para a tal igreja, que também combate o desemprego. Estava decidido: iria me alistar, aderir, curtir, sei lá como se diz, à Igreja Universal da Cinelândia. Mas foi aí que a libélula entrou na minha vida. Na verdade, entrou no meu quarto e pousou sobre a toalha úmida que eu acabara de deixar sobre a cama. Meu primeiro impulso foi expulsar o inseto dali. Mas fui antes ao Google: “o que significa libélula?”. E a resposta me apareceu. Veio do Yahoo Respostas mas podia ter sido anunciada entre trombetas no alto do Monte das Oliveiras: “A libélula avisa que devemos procurar em nós mesmos os hábitos que precisamos mudar para alcançarmos a evolução”. Era ela. Veio até mim. Não estava numa prateleira do supermercado nem entre bares, ambulantes e michês da Cinelândia. Ela veio até mim. Saiu de onde vivem as libélulas. Cruzou sabe-se lá quantos caminhos, exauriu as forças das suas asinhas transparentes para me dizer que eu deveria mudar para evoluir. É ela que eu tenho de ouvir. Agora tenho de pagar IPTU e IPVA.

sábado, 19 de abril de 2014

O primeiro hater do Galvão Bueno

Hoje em dia qualquer um odeia o Galvão Bueno. Não gostar do Galvão é politicamente correto. É quase pré-requisito para ser descolado. Mas muito, muito antes de odiar o Galvão ser moda, Kit já detestava o locutor da Globo. Kit foi o primeiro odiador do Galvão. Não era só ódio. Era pânico, terror; Kit era galvanofóbico. Kit se escondia debaixo da cama tremendo e chorando de medo do Galvão. Kit era o cãozinho pinscher lá de casa. Um bicho minúsculo, pretinho e metido a valente como só os pinschers sabem ser. Mas ele tinha um ponto fraco. A criptonita do Kit era o Galvão Bueno. Tardes de domingo eram o inferno para o Kit. Ele aturava a musiquinha chata do Esporte Espetacular, suportava a Turma do Didi, mas ficava tenso com o Faustão. Ele sabia que o Faustão era o prenúncio do Galvão. “Bem, amigos da Rede Globo...” essa era a senha para o terror. Kit e Galvão não se davam. Era começar o futebol e o Kit saía apavorado e se escondia debaixo da primeira cama que encontrasse. Ninguém o tirava de lá. Não, enquanto Galvão estivesse no ar.
     Mas por que Kit odiava Galvão Bueno? À época nem havia o RRRRRRonaldo! Galvão ainda poupava nossos tímpanos. Resolvemos fazer testes. Afinal, Kit jamais nos diria por que odiava Galvão. Levantamos hipóteses: Kit não odiava a TV, pois suportava até o Zorra Total e parecia ter uma quedinha pela Priscila do TV Colosso. Então Kit odiava futebol? Fácil descobrir: em vez da Globo, Band. E não é que o kit via de bom grado o Luciano do Vale? O Sílvio Luiz também não mexia com o Kit. Olho no lancêêêê.... Não era a TV, não era a Globo. Sim, Kit podia ser desses que juram que a Globo aliena e coisas do tipo. Mas não, o ódio do Kit não tinha fundamentação ideológica. Também não era o futebol. Não era o Cruzeiro, não era o Atlético nem o XV de Jaú. Foi aí, como na maior parte das grandes descobertas, que o acaso nos socorreu. Estava lá o tempo todo e nunca tínhamos percebido! É verdade que em muitas partidas o verdadeiro inimigo do Kit não dá as caras. Mas, o motivo do ódio do Kit não era o Galvão! Era o gol! Também não era exatamente o gol, eram os fogos de artifício que acompanham os gols! Então Kit não era um hater do Galvão, Kit tinha apenas medo do barulho dos fogos. E como na minha casa futebol era apenas na Globo, o pobrezinho associou a voz do Galvão aos estrondos dos foguetes. Descobrimos isso quando outro locutor gritou Gol! e o Kit correu para debaixo da cama.
     O medo irracional do Kit, que depois morreria atropelado na Rua Pernambuco com Sete de Setembro, foi assim um dos primeiros experimentos científicos da minha vida. Descobrir por que Kit tinha medo do Galvão Bueno desencadeou em nós ainda que rusticamente, métodos científicos: hipóteses, testes, análises, refutações e comprovações. Bem antes disso, lembro do meu avô, em Carmo da Mata explicando como ele descobriu que o Manacá na verdade não dava flores de cores diferentes... Mas isso é outra história que também envolve ciência, que também envolve curiosidade e a única coisa que nos move para a frente: o querer saber.
Bic-Jr pode ser um modelo para o ensino médio
     Às vezes não enxergamos  uma coisa porque ela está longe ou perto demais dos nossos olhos. Parecer ser o caso da bolsa de iniciação científica para alunos do ensino médio, o “Bic-Jr”. O governo não é capaz de vislumbrar no programa a solução para a maior parte dos problemas da escola brasileira. O Bic-Jr -  Bolsa de Iniciação Científica  - funciona assim: um professor com experiência em pesquisa propõe dentro de sua área de domínio um projeto de pesquisa de um ano de duração. O estudo é então submetido à entidade financiadora, do governo. Se o projeto for aprovado, o passo seguinte é o professor selecionar um ou mais bolsistas para tocar o projeto.
    O estudante recebe uma ajuda de custo mensal, em dinheiro. Mas quem orienta ou já orientou alunos dentro do programa sabe muito bem do alcance do Bic-Jr. A relação aluno-professor é muito, mas muito mais proveitosa dentro desse sistema. E seria mesquinharia dizer que isso se dá pela bolsa. Não, o que estimula o aluno nesse caso é o senso de investigador, de pesquisador que lhe é incutido pelo trabalho.
     Além disso, o bolsista sabe exatamente o que ele faz ali. Ele conhece os objetivos de seu trabalho, sabe aonde pode chegar, onde buscar os dados. Ao contrário do que acontece geralmente dentro da sala de aula, quando o professor leva respostas prontas, no Bic o professor ou orientador é um problematizador. Sua função é instigar, é criticar e elogiar, ajudando o aluno a pesquisar, a redigir teses, hipóteses, conclusões. Isso sim é educação.
    É claro que essa relação depende muito da experiência do professor, de sua capacidade de analisar variantes, de liderar uma equipe. Mas isso é mais uma vantagem do Bic. O programa permite detectar erros do orientador com muito mais facilidade. Isso porque se algo der errado, o próprio aluno perceberá logo que sua pesquisa não anda, que os objetivos traçados no início não estão sendo contemplados.
     Mas como o Bic pode ser uma saída para a educação brasileira? Pode à medida que as modorrentas aulas e os obsoletos e extensos programas de curso forem transformados em trabalhos em equipe e em projetos interdisciplinares com objetivos bem claros, a curto, médio e longo prazos. Um bom argumento contra a ideia seria: mas os projetos do Bic são restritos a uma área específica do conhecimento, como usar essa experiência, então, para dar formação geral ao aluno, caso do ensino médio?
    Primeiro, que é impossível empreender uma pesquisa que só use um conteúdo. Seja qual for o tema da pesquisa, o aluno precisará de recorrer à linguística, à matemática, a noções de geografia, de história. Segundo, que os projetos seriam pensados de forma a contemplar todas as áreas do conhecimento. O enfoque é que mudaria: os conteúdos passariam a ser ferramentas e não um fim em si próprio. Um erro comum que professores costumam cometer é achar que o que eles ensinam é fim e não meio.
     A escola, então, em vez de dividida em salas de aula que isolam alunos e professores, em vez de aulas, que fragmentam o raciocínio e impedem a disciplinaridade, teria projetos. Por mais simples que fossem, não importa, seriam tarefas planejadas em conjunto pelos professores, a ser desenvolvidas em seis meses, um ano… Não é algo difícil de ser posto em prática. Não demanda mais aportes de dinheiro nem contratações. Mas altera estrutura secular e tira do professor seu show diário, seu monólogo de 50 minutos e coloca o aluno no centro de uma busca real e produtiva pelo conhecimento.
A xávena!, a xávena!
     Outro dia, em uma aula sobre variação linguística, o assunto era a diferença vocabular que existe entre o português brasileiro e o português. Foi quando me vieram à mente as lembranças das vezes em que, mesmo sabendo dessas diferenças, tive alguma dificuldade de comunicação em Portugal. Em 1998, fui a uma exposição mundial em Lisboa e, quando me dirigia ao pavilhão da França, uma senhora me segurou pelo braço e alertou: “Tu não vais conseguir entrar lá, por causa das bichas!”
    Fiquei tão perplexo com a afirmativa, que não consegui dizer nada. Apenas olhava para a mulher e ela ficou tão assustada que me deixou em paz. Por via das dúvidas, desisti de ver a exposição da França. Mas continuei indignado com o preconceito da mulher. Só uma semana depois, quando fui converter dinheiro no banco Pinto Sotto Mayor - só em Portugal pra existir um banco com um nome tão sugestivo -, entendi o que a mulher havia querido dizer. A luz me veio de uma placa, afixada no banco, com os dizeres: “Respeite a bicha única”. Bicha é fila, claro.
     No hotel, não me lembro se na mesma viagem, houve dois episódios divertidos. Quando fui entrar no elevador, o ascensorista fechou a porta, aquelas jurássicas, dobráveis, de ferro, no meu braço. Mais tarde, o gerente foi até o meu quarto pedir desculpas pelo ocorrido e perguntou: “O senhor está magoado?”. Achei tão bonitinho isso: o hotel se preocupar com os meus sentimentos... Eu respondi que não, por que haveria de me magoar com um pequeno incidente? Estava apenas com o braço dolorido. Por via das dúvidas, consultei o Aurélio deles: “magoar”, por lá, é o nosso “machucar”.
     Por fim, há o caso do pequeno almoço - é como chamam o café da manhã em Portugal. Quando a garçonete - meseira, na verdade - ia servir o café, ela sempre pedia que as pessoas virassem as xícaras, que em Portugal se chamam xávenas. Ela repetia, em um tom de voz bem autoritário a mesma ordem: “A xávena!” “A xávena!”. Quando ela disse isso na mesa ao lado da minha, a ocupante da mesa, uma brasileira, saiu correndo como uma doida.
    A mal humoradíssima garçonete não entendeu nada, e passou à mesa seguinte. Eu e muito provavelmente a mal humorada, já havíamos até esquecido a fuga da brasileira, quando ela chegou correndo no salão, visivelmente esbaforida e gritando: “Aqui estão as chaves!”. A coitada pensou que para servir o café, a garçonete havia exigido as chaves do quarto, para provar que ela era hóspede do hotel, quando na verdade, só queria a xávena, ou seja, a xícara!
Skins é Malhação com neurônios
     Encontrei Skins por acaso, quando procurava na internet outros papéis de Dev Patel, o ator de Quem quer ser um milionário. Não sou tão fã assim do filme, mas é que Dev me lembra um amigo antigo. Mas não é a minha história que interessa e sim a dos adolescentes de Skins. Desde a primeira vez que vi Friends, que não me impressionava tanto com uma produção desse tipo. Skins é uma espécie de Malhação com neurônios. A semelhança na verdade reside tão-somente no fato de que as histórias circundam o mundo teen. Só isso. Skins é intenso, é forte, é angustiante, é repulsivo é viciante.
    É claro que as experiências pessoais, os traumas, os desejos reprimidos e as lembranças nos ajudam a compor a história alheia. Skins se passa em Bristol, cidade simpática da Inglaterra. Quem já andou por lá sabe o cheiro das ruas, o clima dos pubs, o vento frio do fim de tarde... Mas não precisa ter pisado na Inglaterra para se sentir na pele dos adolescentes de Skins.
   À primeira vista depravados e inconsequentes, os garotos e garotas são apenas um estereótipo das incoerências dessa fase da vida. Longe da frivolidade e do maniqueísmo das produções americanas  - O.C. – e brasileiras – Malhação, Sandy e Júnior (hehehe) -, Skins exagera nas cenas de sexo, bullying e transgressão de toda forma e assim vai esfolando os clichês até que em carne viva se apresenta a questão nua e crua: o que importa é o sentimento.
    Não o arquétipo romântico que caminha para o altar sob a indefectível valsa e a arrastar o impecável véu branco. Mas o sentimento que nos faz ser fiéis, companheiros e cúmplices; bons e maus. Amizade, amor, gostar, amar.  Skins consegue ser didático sem ser chato. O diálogo entre o jovem gay Maxxie e o muçulmano de araque Anwar – sim, achei o Dev Patel! – é quase um manifesto anti-homofobia: “Você já tentou ficar com garotas?”, pergunta Anwar ao amigo. “Você já tentou ficar com garotos?”, devolve Maxxie , com uma lógica desconcertante.
    Skins é a constatação de que existe vida inteligente longe de Hollywood e do Projac. É a prova de que é possível retratar o adolescente sem recorrer a caricaturas grosseiras. Skins é coisa de pele. Não compensa o amigo que sumiu, mas reforça que o que importa é o sentimento que fica. “A coisa mais fina do mundo”, diria Adélia Prado em seus saudosos tempos de coerência. (Skins, Inglaterra, 2007. HBO Plus, Netflix)
Por que professores dão prova sem consulta?
    O livro Escola sem sala de aula (Editora Papiros, 2004), escrito por um jornalista, um educador e um empresário deveria ser leitura obrigatória de professores. A obra traz um debate sobre os problemas da educação no Brasil e sugestões de como tudo poderia mudar. Mas o mais curioso e divertido é quando os autores tentam desvendar alguns mitos das nossas escolas: por que uma aula dura 50 minutos?; por que uma turma tem sempre cerca de 40 alunos?; escola de tempo integral funciona?; por que os professores não mudam se eles mesmos sabem que o atual esquema não funciona?; por que durante as provas, os alunos não podem usar livros ou calculadoras, se eles sempre terão isso à mão?
    Nos próximos artigos, pretendo expor as conclusões do livro sobre esses mitos todos. Mas neste, vamos ficar com o último: por que professores fazem questão de provas sem consulta? Pois bem, no livro, o pedagogo Antônio Carlos Gomes da Costa explica que essa mania de muitos professores não passa mesmo de mito. O pedagogo lembra que, durante a Idade Média, a escola exigia que os alunos decorassem a matéria. Naquela época, os alunos copiavam em uma pequena lousa o que o professor passava no quadro. Mas como não havia espaço suficiente, os estudantes tinham de apagar para copiar mais conteúdo. Assim, o professor obrigava que os alunos decorassem a matéria antes de apagar.
    Com a invenção da gráfica – livros, cadernos, folhetos... –, de computadores, esse expediente não seria mais necessário. Note-se: na Idade Média, decorar não era um recurso didático, mas prático. Ou seja, o professor exigia que o aluno decorasse porque não havia como eles estocarem aquela matéria para consulta futura. Só que a escola não entendeu isso e transformou em mito o que era apenas uma necessidade causada pela limitação tecnológica. O fato de o aluno decorar uma informação não significa que ele a tenha compreendido. E muitas vezes o aluno sequer sabe procurar a informação no livro ou na internet.
    Antônio Carlos lembra que não há absolutamente nenhum argumento lógico a favor da decoreba. Não existe situação real – fora da escola - em que a pessoa não possa consultar. Além disso, a memória é seletiva. Só guarda o que tem utilidade vital. Por isso, nunca esquecemos como se anda, como se dirige o carro, como se escreve ou as operações matemáticas básicas. Para o pedagogo, é difícil mudar a cultura da decoreba justamente porque a prática se transformou em mito. Também é muito difícil convencer pessoas simples da zona rural de que manga com leite não é um veneno. Da mesma forma, muitos professores têm medo de mudar e perder um referencial e às vezes até um mecanismo de manutenção do respeito – ou medo? – da turma em relação a ele.
     Mas, uma dica para os alunos: é fácil provar para seu professor que decorar a matéria não é um método eficiente de ensino. Basta que você desafie seu professor de Matemática a responder a uma questão sobre Gramática ou o professor de Português a responder algo sobre Química... Mas não o deixe consultar, heim!
O show da vida
     E se tudo fosse um sonho? Pelo menos uma vez na vida, todo mundo se faz essa pergunta. É porque é tudo tão absurdo, e às vezes tão ilógico, que não  resta resposta mais lógica do que achar que estamos sonhando ou, para os megalomaníacos – e criativos – supor que tudo não passa de uma armação.
    No cinema, dois filmes fizeram sucesso ao embarcar na teoria da conspiração: a vida não passaria de uma fraude, um jogo ou uma encenação. Matrix (EUA, 1999) é mais adolescente, também mais confuso. Trabalha com a hipótese de que o mundo como o vemos é apenas uma ilusão gerada por um programa de computador.
    Já O Show de Truman (EUA, 1998), apesar do careteiro Jim Carrey (argh!) é muito mais criativo, pois coloca lado a lado suposta realidade e a ilusão. O que se chama de mundo, de vida, é, na verdade,  uma farsa armada por uma rede de TV, um reallity show no ar há trinta anos. A cena final, da porta que se abre no céu, que na verdade, como tudo, é apenas um cenário, é uma das mais instigantes e belas do cinema.
    De certa forma, a teoria abordada pelos dois filmes tem lógica. Vivemos, sim, em um misto de Matrix e O Show de Truman. Nossa matrix é gerada pela linguagem que, por sua vez, contém o script do show que interpretamos. Com a linguagem, o homem  supriu a necessidade de se falar de algo na ausência desse algo.  Se isso é uma vantagem competitiva colossal, com relação a outras espécies, é também uma fonte de sofrimento e a aceitação de um script a ser seguido durante toda a vida. Isso porque com o tempo, a imagem, sempre distorcida, que criamos de algo, torna-se mais real do que aquilo que representa no mundo.
    O mundo e tudo o que existe nele, não pode ser transportado para dentro da linguagem.Uma palavra é apenas um simulacro, é bom que se repita, sempre distorcido de um coisa real. A linguagem evoluiu tanto, que hoje ocupa o lugar daquilo que deveria apenas representar. Quando pedimos paz, quando fazemos loucuras em nome da felicidade, quando damos um presente, estamos cumprindo rituais estabelecidos dentro da linguagem. Não paramos para definir felicidade, mas a queremos; não questionamos o que exatamente seria o amor, mas o evocamos diariamente. Nossa paz é o branco, é uma pomba, é um gesto com as mãos. Mas no fundo é nada, fora da linguagem. Queremos apenas cumprir o roteiro, seguir o mesmo caminho por que outros já passaram. Não vivemos porque estamos ocupados demais querendo viver uma fantasia.
Como foram as minhas férias
     Boa parte dos brasileiros, mesmo escolarizados, não é capaz de compor uma dissertação coerente sobre um tema atual.  De quem é a culpa? Quando surge o trauma com a redação? Redigir é algo que deveria ser desenvolvido com a prática. Mas essa tarefa está a cargo das escolas, que não a cumprem bem. O principal responsável por isso talvez seja a falta de preparo dos professores. Além de se aterem a esquemas fixos baseados apenas no “racional”, recorrem a temas descontextualizados ou já tão batidos que só vão reproduzir fórmulas fixas de elaboração de textos.  O tema mais antológico é, sem dúvida, o “Como foram as minhas férias”.  Aliás, esse tema me faz lembrar uma história que eu sempre conto em sala-de-aula e que é bastante emblemática para exemplificar como a escolha de temas tolos pode levar à produção de textos idem. Certa vez, uma amiga de Carmo do Cajuru (MG) me contou, bastante constrangida, que depois de ser obrigada pela milésima vez a escrever sobre as férias, resolveu inovar.
    O enredo básico ela manteve, já que em time que está ganhando não se mexe: em seu texto, ela havia ido passar as férias na fazenda de um tio no interior - como se fosse possível ir de Cajuru ainda mais para o interior; deve ser para o centro da Terra. Lá, ela nadou, chupou jabuticaba ou manga, andou a cavalo... A novidade vem agora: “depois de um dia de muitas peripécias pela fazenda, ao cair da tarde, eu me deitava sob um frondoso pé de amendoim para ler um livro, enquanto o sol fazia brilhar os cachinhos dourados da fruta.”
   Ela entregou o texto - que na época se chamava composição - e ficou esperando ansiosamente o resultado de sua ousadia literária. Está esperando até hoje. Mas isso não lhe custou nenhum trauma, já que era normal o professor jamais dar satisfação sobre os textos. O choque mesmo veio foi muitos anos depois, quando ela teve um revelador encontro frente a frente com um pé de amendoim.
    A moça me contou, cobrindo o rosto com as mãos, que nunca sentiu tanta vergonha na vida quanto frente àquela planta de no máximo cinco centímetros de altura. Ela confessou que escolheu o tal pé de amendoim como local de leitura, no texto, justamente porque nunca tinha visto um. Era um toque de exotismo. Como também nunca tinha lido um livro. “Meu Deus, pra ler um livro debaixo de um pé de amendoim, eu tinha de ser um smurff ou um gnomo”, disse rindo. Que nada, minha amiga, bastava ser do tamanho do seu professor.
A nossa época
     “Na minha época as coisas eram bem diferentes...” Quem já não ouviu uma narrativa que comece assim? Mas, como assim, “na minha época”? Quer dizer que quem diz isso é o quê? Um viajante do tempo? Alguém que não é desta época? Isso não existe. Hoje é o primeiro dia do ano. Na prática, isso não quer dizer nada, já que fomos nós mesmos que inventamos o calendário.
     Mas o efeito psicológico é evidente. Até um cético de carteirinha como eu tem de admitir isso. Ontem, por exemplo, eu fiz uma faxina nas gavetas. Isso é bom, pois simboliza vida nova. Joguei todos os trabalhinhos não entregues no lixo. Mas para quem acha que é de outra época, esse ritual pode ser um desastre. Para quem tira o time de campo e entrega a vida, o tempo presente para os tais jovens... Não existe isso. Tenha você 12, 30, 80 anos ou seja a Hebe Camargo, sua época é agora.
    Nossa! Isso está começando a ficar com cara de auto-ajuda. Que nojo! Mas o que eu queria dizer é: não se deixe iludir pelo marketing consumista. A época de ninguém “passa”. Nem a uva passa. Aproveite 2006 para viver. Saia da Academia, se isso é apenas uma obrigação. Siga a novela das oito, se você gosta de ter um compromisso. Portanto, que em 2006 você se liberte dos clichês que o impedem de ser feliz. Ou não. (01º/01/2006)
Quem precisa de mais aulas?
     Em tempos de discussão sobre um novo formato para o ensino médio, aparecerão várias sugestões de mudanças. Mas não tenha dúvida que apenas aqueças que propuserem aumento de carga horária irãp prosperar. E não é culpa do Governo. O senso comum aprendeu a associar tempo na escola com qualidade de ensino. O que é uma relação obviamente falsa. Mais tempo para uma escola ruim não vai  torná-la melhor. Nos últimos anos, os estudantes viram suas férias serem reduzidas a ponto de quase se tornarem apenas recessos.  Para os adolescentes que imaginam que sempre foi assim é bom relembrar. Até a década de 1980, os estudantes tinham até quatro meses de férias no ano: dezembro, janeiro, boa parte de fevereiro e julho inteiro. As crianças só entravam na escola aos sete anos e geralmente estudavam em apenas um período.
     Hoje, férias de fato, só em janeiro, mês de temperaturas altíssimas, enchentes e BBB na TV. Pois bem, se escola fosse um ambiente em que imperasse o bom senso, uma pergunta lógica seria: valeu a pena? Valeu a pena arrancar as crianças do convívio familiar e social e trancafiá-las em salas calorentas por mais tempo? O ensino melhorou? Formamos cidadãos melhores, capazes de responder a dilemas como violência urbana, corrupção, degradação ambiental, intolerância religiosa?
     Isso não importa. Nós sabemos por que de fato, as escolas aumentaram seus dias letivos. Não foi para melhorar a qualidade de ensino. Foi para servir de refúgio para crianças e adolescentes cujas mães passaram a trabalhar fora. As mesmas pessoas – professores, pais e autoridades políticas – que apoiam a escola sem férias sabem muito bem que a educação era muito melhor na época delas. O grande argumento pela escola em tempo integral nem é a qualidade de ensino, mas a fuga das ruas. No Brasil, o espaço público é visto como o lugar das drogas, das más companhias, do trânsito assassino, dos bandidos. Um erro. É na rua que estão o teatro, a praça, a biblioteca, os amigos, a diversidade, o parlamento. Mas a escola neste país prefere se manter no faz-de-conta, fechar os olhos para a realidade e atulhar os estudantes com conteúdos ultrapassado e desconectados.
     De toda a minha vida escolar, a lembrança que mais me toca é a alegria de chegar em casa todo dia após a escola. Religiosamente às 11h35 quando abria a porta de casa , era envolto por uma onda sinestésica de aconchego: o cheiro da comida que acaba de ficar pronta, o som dos desenhos de Hanna Barbera na TV,  o contato com a família. Hoje, talvez essa cena seja bem difierente, em tempos de micro-ondas, internet e pais separados. Mesmo assim, ainda acho que a vida real sempre será melhor do que uma escola quente, com currículos ultrapassados e professores desestimulados.  
Sobre sítios e presidentas
    No início, Dilma Rousseff dizia que respeitaria quem a chamasse de presidente ou de presidenta. Mas após a posse, a prática foi diferente. No Senado já houve tentativa de constrangimento do então presidente Sarney pela senadora Marta Suplicy, exigindo que ele se referisse à mandatária como presidenta. Mas pelo menos dois outros fatos deixam claro que Dilma quer sim, impor o neologismo esdrúxulo.
    O primeiro é o fato de o Diário Oficial da União passar a trazer sua assinatura sobre a forma Presidenta Dilma Rousseff. O segundo é a fala da própria presidente no matutino Mais Você, da Globo. Lá, entre papagaio de borracha, receitas de omelete e cachorrinho de madame, ela disse que “deve às mulheres do país impor-se como presidenta” ou disse algo parecido com isso. É um argumento tolo e nos deixa a questionar se Dilma também não espera que as estudantes do país se imponham como “estudantas” ou as garçonetes como “garçonetas”...
    Uma bobagem tão grande quanto aquela imposta pelo governo Lula, que tentou forçar a forma lusitana “sítio” no lugar da brasileira “site”. É triste ver a primeira mulher a chegar à presidência querer para si um simples “a” quando teria a seu dispor todo o alfabeto para reescrever não só a história das mulheres, mas de todo o sofrido povo brasileiro.
Seja jovem ou morra
    Ainda sobre o tema "politicamente correto", especificamente sobre a questão da velhice. Se chamar os idosos de "pessoas da melhor idade" não resolve, então qual seria a forma de fazer com que as pessoas mais velhas sejam respeitadas? Não sei se existe uma forma de eliminar completamente o preconceito, imagino que não. A velhice nos assusta e, por isso, a repudiamos. Mas daí a agredir ou abandonar nossos velhinhos vai uma enorme distância.
    A solução para uma convivência pacífica entre gerações passa por uma revisão de valores. Vivemos numa sociedade que idolatra a juventude. Todo o mercado de consumo, as opções de lazer, estão voltadas para satisfazer o jovem. O tempo todo, a TV prega que temos de nos rejuvenescer. Chega-se ao cúmulo de se mostrarem velhinhas espevitadas em academias dançando lamba-aeróbica! A imagem da vovô que faz tricô é repudiada porque sugere o idoso no ritmo do idoso e isso não pode. Jovem é outro papo.
     Ora, se dizemos aos idosos que a única forma de ser feliz é através da imitação do estilo de vida dos adolescentes - palavra que, aliás, só passou a existir de fato a partir da década de 90 -, então estamos negando a velhice. E essa ideologia está em toda parte. Há alguns anos deixei de usar livros didáticos de português justamente por isso. Sob o pretexto de falar a língua dos jovens, essas publicações supervalorizam o universo infanto-juvenil e fecham ao aluno, a visão ao modo de vida de outras gerações, de outras tribos.
     Essa supervalorização dos jovens é, em boa parte, uma jogada de marketing. Muitos caem nessa armadilha. O modo de vida dos adolescentes, se é que existe isso, não é o melhor nem o único possível. Mas é o que tem mais apelos consumistas. Não existe consumismo sem desejo, sexo, esportes... Ao bombardeá-lo 24 horas por dia com apelos para que você faça exercícios físicos, a TV quer a sua saúde ou a sua atenção aos anúncios relativos a esse tema?
     Pensando bem, mudei de idéia.A melhor forma de valorizar os idosos não é uma mudança de valores. Mas um aumento de valores. Aumentem o valor das aposentadorias e todos vão ver como os velhinhos se tornam de fato a melhor idade.
A pedagogia segundo as andorinhas
     Já ia voltar à interminável preparação de aulas quando dei pelas duas ali. Duas andorinhas que conversavam animadamente no parapeito do meu prédio. Fiquei olhando pela janela. Dizem que elas vêm da América do Norte, fugindo do inverno. Também dizem que uma andorinha só não faz verão. Mas eram duas e me trouxeram à mente uma trilha sonora que por sua vez evocou a casa dos meus falecidos avós, de manhazinha e o cheiro de café fresco: “As andorinhas voltaram e eu também voltei...”
     Essa contemplação não durou mais que um minuto. E quantas lembranças cabem em um minuto! Quanto exercício de associação de fatos, lendas, de sentimentos, quanta poesia duas andorinhas podem proporcionar! Essa provocação das andorinhas vale por uma manhã inteira entre quatro paredes em uma escola quente quase sem janelas?
     Na Grécia antiga, a escola era concebida para instigar cinco dimensões: o Logos (conhecimento), o Pathos (a dimensão do sentimento), o Eros (dimensão do desejo), o Mythos (dimensão em que se dava espaço à fé, ao mistério, ao transcendente) e o Corporeidade (espaço para a educação do corpo). O pedagogo, na sua origem, era um escravo que saía arrastando a criança pela mão e fazendo-a vivenciar a polis, a cidade. A educação, então, não se dava dentro de uma gaiola, mas pelo contado com a cidade, com as pessoas, os templos, as bibliotecas, as praças e as andorinhas nos beirais.
    Hoje, depois do iluminismo, com seu senso prático e racional, a escola só tem a dimensão do logos, só interessa a informação, o conhecimento supostamente lógico. Nessa escola sem espaço para as andorinhas, os alunos são apenas um cérebro sem corpo, sem sentimentos, sem temores, sem desejos. Aliás, aluno vem do latim - alumnu - e significa sem luz.
     Bendita hora em que fui à cozinha e deparei com aquelas duas. Imagino que da Grécia alguém me arrastou até aquela janela para ver as duas andorinhas que trouxeram nas asas música, a América e os meus avós até o beiral do meu prédio. Se estivesse na escola não teria visto. Mesmo porque, sem luz não se vê nada. (17/11/2006)
Ceia de Natal na minha casa
Personagens (os nomes, são quase fictícios, mas os personagens e os fatos são verídicos): Eu (professor de português), Marcos (segundo ele, professor de português), Mariele (professora de Filosofia), Nilson (professor de artes), Fábio (ator de teatro), Dênis (professor de música), o peru (um chester interpretou o peru).

Cena 1 - Como se faz um peru?
Eu - Aqui tá dizendo que tem uma coisa dentro dele.
Dênis - Como assim, uma coisa?
Eu - Sei lá, as vísceras, um ovo. Tem de tirar, mas como, vou abrir o peru?
Dênis - Não, deve ser parto natural. Eu tiro.
Eu - Isso vai me traumatizar pro resto da vida.
Cena 2 - Ceia ou conselho de classe?
Mariele - Por que a ceia tem de ser à meia-noite
Marcos - Deve ser por causa daquele lance dos reis magos e da estrela
Dênis - Que que tem a ver?
Marcos - Sim, foi à meia-noite que chegaram na gruta Baltazar, Aristóteles, Sócrates e ...? Esqueci o outro
Eu - Você quer os reis magos ou a seleção de Portugal de 70?
Marcos - Não! Eu sempre esqueço o nome do outro rei mago!
Nilson - Soneca.
Dênis - O negócio do peru subiu?
Eu - O quê???
Dênis - Aquele negócio vermelhinho que avisa que ele tá pronto. Mas não apita
Marcos - Vocês acreditam que os meus alunos do curso de alfabetização de adulto nunca leram Machado?
Eu - Não!!!
Nilson - E você acha que eles têm de ler?
Marcos - Claro
Eu - Você acha que eles já leram alguma coisa na vida?
Marcos - Não, mas todo mundo tem de ler Machado.
Eu - Você já leu todos os livros dele?
Marcos - Não. Mas é meu dever incentivar a leitura!
Miriele - É uma delícia!
Eu - Machado?
Miriele - O peru.
Nilson - Eu tenho a coleção completa dele e nunca li. Do Machado, claro
Marcos - Mas nós professores de português temos de incentivar a leitura de Machado.
Eu - Fale por você. Eu não recebo para promover editoras.
Marcos - Meu Deus! Você tem de incentivar a leitura
Eu - Literatura é entretenimento e arte. Não se obriga ninguém a admirar arte.
Nilson - Eu concordo com isso. Tem um professor amigo meu...
Marcos - Bartolomeu!
Nilson - Não! É o...
Marcos - É o rei mago que faltava!
Fábio - Mariele, você está mais bonita depois que deixou de ser bicho-grilo.
Mariele - Não tem sobremesa?
Marcos - Foi você que trouxe...
Mariele - Traz que eu preciso ir a outra ceia.
Marcos - Não vamos esperar os fogos?
Dênis - Os fogos não são no ano novo?
Eu - E o Machado?
(Escrito em 2006)
Entrevista coletiva com Machado de Assis
     Cem anos após sua morte, o escritor realista Machado de Assis ainda fascina. Como quem é morto sempre aparece, o próprio Machado de Assis concordou em participar de uma entrevista coletiva sobre o conto "A cartomante" e sobre a sua obra em geral. Sua única exigência é que a banca de entrevistadores fosse composta por inquestionáveis intelectuais da atualidade. O próprio escritor, que parece ter-se tornado ainda mais irônico em sua fase pós-túmulo, fez questão de indicar os nomes. Veja a seguir os melhores momentos dessa entrevista.
     Carla Perez - A priori, eu diria que a obra do senhor mantém uma certa equipolência entre o ficcional e o real, uma vez que a mimetização que o senhor faz da vida comezinha é de uma verossimilhança atroz, se me permite. Mas, deixando de lado um foco mais fenomenologista e declinando uma concessão ao vulgo, o que o senhor diria ser o grande tchan do conto "A cartomante"?

    Machado de Assis - Minha cara leitora, quem sou eu para falar de tchans com a senhora, não é? Mas eu penso que o pulo do gato é o seqüestro que meu texto faz do ideário romântico. De certa forma, a narrativa engana o leitor, ao induzi-lo a supor que o conto poderia ter um final romântico.

     Carla Perez - Como, nesse caso, o senhor consegue levar o leitor a esquecer o paradigma positivista que permeia sua obra?

     Machado de Assis - Bem, é uma questão de lábia, minha cara, de auto-sugestão. Veja como eu abro a narrativa: com uma frase de Shakespeare: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Ora, Shakespeare é Shakespeare e quem é Machado de Assis perto dele? Daí o leitor pensa: Ora, não é que o velho cansou de ser cético e agora admite que existem mistérios, que nem tudo pode ser encarado de forma positivista, cientificista? E quando vê, o leitor já está roendo o queijo...

     Hebe Camargo - Bem, é sobre a paixão dessa gracinha que é o Machado pelo Rio, que eu queria perguntar. Por que só o Rio, gracinha?

     Machado de Assis - Bem, Hebe, você mais do que ninguém viu essa cidade nascer e sabe que no século dezenove o Rio era o único centro urbano de fato, no Brasil. As obras realistas focalizam problemas causados pelo convívio social urbano. Como eu poderia ambientar "A cartomante" numa cidadezinha do interior? Nesses lugares praticamente todo mundo acredita em videntes, benzedeiras, políticos. Numa grande cidade não, nela a visão cientificista, positivista já estava bem enraizada para poder mexer com os costumes.

     Hebe Camargo - E por que tanto pessimismo, ceticismo? O senhor não acha que o homem mereça um crédito, que o homem seja bom?

     Machado de Assis - Eu não defendo teses. Eu apenas escrevo. Nos meus livros, eu não afirmo que o homem seja mau por natureza ou que este ou aquele setor da sociedade seja bom ou ruim. Se o leitor enxerga isso nos meus textos é porque consegue depreender isso das entrelinhas. E se o faz é porque talvez tenha no mundo real, fora dos meus livros, indícios para pensar assim... Mas os meus personagens podem estar errados. Aquela era uma visão do século XIX. Veja como a humanidade progrediu. O Rio de Janeiro, na minha época era um esgoto a céu aberto. Havia ratos para todo lado, cólera, dengue. Imagina você, minha jurássica apresentadora, que havia até larápios, gatunos, a furtar flores dos jardins públicos. Hoje, tudo mudou. Realmente, não havia motivo para ceticismo...

     Gretchen - O senhor está sendo irônico?

     Machado de Assis - Não, e a senhora está?

   Gretchen - Não. Bem, mas voltando ao conto "A cartomante", como o senhor explica a repentina conversão de Camilo de cético a fã da vidente?

    Machado de Assis - A necessidade, a fraqueza espiritual, a falta de caráter. Eu conheço pessoas que mudam de religião, de crença, como quem muda de roupa. Basta uma dificuldade qualquer para se converter no mais crédulo beato da paróquia. Passadas as dificuldades... Mas, no conto há sinais bem palpáveis que levam Camilo a acreditar na vidente. O maior deles é o fato de o tílburi haver tombado em frente à casa da cartomante. Coincidência, diria um Camilo tranqüilo e livre de pressões. Mas a senhora já deve ter lido nesses manuais de auto-ajuda que não existem coincidências e sim pequenos milagres...

     Gretchen - E era um pequeno milagre?

     Machado de Assis - Não, era coincidência mesmo.

   Carla Perez - Em um de meus livros, há um pensamento lindo, que diz assim: "Pau que nasce torto nunca se endireita". O senhor acha que é assim mesmo?

     Machado de Assis - Não sei, o livro é da senhora...

    Sônia Abrão - Bem Machado mas uma coisa que eu considero muto importante que a gente deve estar sempre atenta é a questão da violência porque no conto o Vilela resolve tudo com um tiro e eu penso que a gente não deve dar essa solução porque já existe tanta coisa ruim tanta violência nesse país e uma obra escrita por um escritor do talento do porte de um Machado de Assis não deveria jogar mais lenha nessa fogueira é como o caso da Simony que preferiu se mudar com seu filho Ryan para Portugal a continuar com uma relação com o seu marido que não tinha mais futuro porque a violência não leva a nada e tudo pode ser resolvido com diálogo na paz e com muito carinho é isso o que eu penso, gente.

    Machado de Assis - ........................! ...................? .....................



    Carla Perez é doutora em Axé e autora de "Repensando a música brasileira: como segurar o tchan sem perder o rebolado em um mundo cada vez mais globalizado", "A dança da garrafa: resolvendo o gargalo de uma economia estagnada" e "Quem mexeu no meu queixo: a mulher e a tirania da cirurgia plástica", entre outros.
      Hebe Camargo é autora dos "Manuscritos do Mar Morto", "Big bang: eu vi" e colaboradora da série "Caminhando com Dinossauros", da BBC de Londres.
     Gretchen é precursora do culto à bunda no Brasil e autora de gemidos como "Pirimpimpim, pirimpim, ui!, ai!, ui!" e "Conga la conga, ui!, ai!, ui!"
     Sônia Abrão é jornalista que lê revistas na TV e fala sem ponto final e sem respirar.
(Publicado originalmente em 15/10/05)
A iscola de Carla Perez

“Livro é como uma esteira ergométrica:
um dia você olha e ele está ali, você nem liga,
mas quando descobre o bem que pode fazer...”
(Presidente Lula)

     Todo movimento literário - barroco, romantismo - é sempre estudado e caracterizado bastante tempo depois de sua manifestação. Pela proximidade, portanto, acostumou-se a chamar qualquer manifestação literária contemporânea de modernista. Isso porque ainda não se deu um distanciamento ideal para que estudiosos rotulem a nossa produção artística atual. Nada impede, no entanto, que façamos um exercício de futurologia e tentemos prever como as gerações futuras catalogariam a arte manifestada hoje. Vamos nos imaginar, então, no futuro. O ano é 2107. Naquele tempo, o mundo tentava se reerguer depois de ser quase devastado por guerras insanas, pelo efeito estufa, pelo fenômeno El Niño e por outros clichês desse tipo.
     É, bem, a verdade é que não sobrou ninguém, nada. Quase nada, pois alguma coisa ficou entre as ruínas e, com a ajuda de figuras imortais da nossa cultura, como Dercy Gonçalves, foi descoberta pelos arqueólogos. Dentre o material encontrado, muitos relatos sobre uma tal civilização popozuda, que teria habitado o local onde hoje é o Rio de Janeiro.  Antigos escritos de filósofos dos séculos XX e XXI também ajudaram a compreender melhor essa época. É o caso de Sandy e Júnior. Dentre os seus ensinamentos, uma frase ficou na mente dos arqueólogos: “o que é imortal, não morre no final”. De fato, alguns livros se salvaram, para sorte e deleite das gerações futuras. Uma mensagem atribuída ao presidente Lula (2003-2010), sintetiza bem o amor desse povo pela cultura: “Livro é como uma esteira ergométrica. Ela fica ali, no quarto, e você nunca usa. Um dia, você descobre e não quer mais parar”.
     Pois é. Nada disso, no entanto, se equipara ao tesouro encontrado em escavações feitas próximo ao Pelourinho, na Bahia. Pilhas e pilhas de letras de poemas escritos com uma ousadia sintática e semântica impressionante. Tinham certeza que não eram de Gregório de Matos Guerra. Os testes de carbono catorze revelaram que os poemas datavam do período hebe-camargo. Em quase todos havia referência àquela que provavelmente seria a musa inspiradora dos artistas da época: Carla Perez. Pouco se sabe sobre essa fascinante espécie. Os arqueólogos já haviam ouvido falar nessa mulher mitológica, metade seios metade bumbum. Mas sempre pensaram que fosse uma lenda.
     Segundo o mito, ela teria sido a mãe de uma  espécie nova que daria origem a uma nova geração. Mas como em toda biografia de celebridades, é difícil separar a verdade da mentira. O fato é que Carla Perez teria sido um divisor de águas na cultura brasileira. Voltemos à literatura.  Através da análise dos poemas foi possível configurar o período literário que ainda se constituía num vácuo para os  estudiosos. Os poemas - batizados de Axé - foram, portanto, o elo perdido da literatura do período FHC, que vai da invenção do Real até a desinvenção da luz, em 2001. A partir de pérolas como “Pau que nasce torto nunca se endireita; menina que requebra, mãe, pega na cabeça” ou “joelhinho, cabeça, joelhinho, cabeça” foi possível traçar o que teria sido o fabuloso período axeísta. É interessante ressaltar que Axé não significa nada. 
     É impossível, porém, estudar tal movimento sem se chamar a atenção para a sua principal idealizadora: a polivalente artista Carla Perez. Nascida na Bahia, na década de 70 do século XX, Carla Perez nunca foi compreendida. Filha de uma mulata vendedora de acarajés no Pelourinho com um português, desde cedo mostrou aptidão para a arte. Para conseguir realizar seu sonho sempre se virou. E virava-se quantas vezes fossem necessárias, sem perder o rebolado. Os pais queriam vê-la médica, mas a vocação artística falou mais alto. Tal qual os grandes gênios, foi incompreendida na escola. Certa vez foi severamente repreendida pela professora porque lançou uma polêmica: a palavra “escola” deveria ser escrita com “i” (“iscola”, como é hoje) e não com “e”, como se escrevia na época. Quando resolveu questionar assuntos mais delicados, como a defesa da tese de que Salvador é uma capital e não uma cidade, foi obrigada a abandonar os bancos escolares. Estava à frente de seu tempo. Filósofa, compositora, coreógrafa, alfabetizadora, humorista... A verdade é que Carla Perez era uma artista completa, de difícil categorização. Algodão doce pra lá, algodão doce pra cá, Carla teve uma vida conturbada, mas marcada por sua determinação em consolidar um novo estilo de manifestação artística: o axeísmo. Apesar da dificuldade em rotular a arte manifestada por Carla Perez, vamos tentar, a seguir, enumerar cronologicamente os movimentos que marcaram a consolidação do axeísmo, bem como o contexto histórico da época.

1995 - A dança da garrafa
     Naquele ano, o Brasil reafirmava sua democracia, ao dar posse ao segundo presidente democraticamente eleito após o Golpe de 1964, Fernando Henrique Cardoso. Ao mesmo tempo, o país discutia se Simony devia ou não permitir a filmagem do parto de seu filho Ryan. Na área artística, Carla Perez faz em 1995 a primeira mostra pública de sua arte, totalmente revolucionária para a época. Visionária, a artista vislumbrou em suas nádegas uma extensão do eu-lírico. Conta-se que Carla, então com 17 anos, saiu de casa decidida. Com o pouco dinheiro que lhe restava no bolso da tanguinha, comprou um ingresso para um show de rock, que aconteceria no estádio do Barradão, famoso ponto cultural da Salvador da época. Assim, com uma idéia na cabeça e uma garrafa vazia na mão, a beldade deu início a sua carreira.
     No intervalo do show, subiu ao palco e na frente de uma platéia de roqueiros conservadores, expôs a sua arte, que consistia em um movimento corporal circular, de modo que a artista ia descendo e subindo sobre o gargalo da tal garrafa vazia. Foi um escândalo. Após a performance - incompreendida pelo público, como o tempo tratou de mostrar - houve quem vaiasse, atirasse cocos e até relinchasse como cavalo. No dia seguinte, o escritor ultra-conservador da época, Jorge Amado, lançava no principal jornal da Bahia o famoso e inflamado artigo “Paranóia ou Mistificação”. Carla Perez ficou desolada: não fazia a menor idéia do que fosse mistificação. Paranóia era uma doença sexualmente transmissível, pensava ela.

1996 - A divulgação do novo movimento
     A partir daí surgem vários manifestos axeístas. As portas do Domingo Legal, uma revista de divulgação do novo movimento cultural, se abrem para Carla. Uma revista do Rio de Janeiro, a Domingão do Faustão, também se rende ao novo estilo, mas defende uma transição pacífica. Surge também a revista H, que revela a artista Tiazinha, para quem a nova arte deveria atingir a burguesia como uma chicotada.

• Carla Perez sacode o seu Manifesto É o Tchan. De caráter antropofagista - os axeístas diziam que toda arte deveria ser devorada e depois vomitada -, o movimento teve inspiração em Mário de Andrade, pois fazia sucesso com letras de músicas aparentemente simples, usando um baianês que o povo entendia. O símbolo era a bunda. Pensaram, assim como os modernistas, em usar uma anta. Carla Perez chegou a apresentar um programa com suas propostas. A atração se chamava “Anta dança, minha gente”, mas a artista descartou a idéia, temendo associações maldosas.

1997 - 1ª fase ou Gera-samba Heróica
     Bem ou mal, estava dada a bundada inicial do axeísmo. Ainda sob o efeito do artigo de Jorge Amado, Carla conseguiu reunir em torno de si vários artistas descontentes com o modernismo.
• O poema “Segura o Tchan”, do poeta Compadre Washington, torna-se o hino dos axeístas, devido à sua escrachada crítica à elite conservadora, representada por poetas como Caetano Veloso e Chico Buarque.
• É lançado o manifesto Gera-Samba, que reuniu artistas desconhecidos, mas que depois acabariam virando ícones do axeísmo, como Jacaré, Compadre Washington, Sheila Loira e Sheila Morena e Beto Jamaica, com os seus famosos poemas de duplo-sentido.

1998 - 2ª fase ou Geração Fantasia
A Usurpadora é um sucesso maior que Maria do Bairro. Carla Perez abandona a militância artística, mas não a arte. Lança um programa na TV, o “Fantasia”, em que dá aulas sobre conhecimentos culturais. “Quero ensinar minha arte às crianças”, dizia ela. Mais uma vez é atropelada pela crítica, que classifica seu programa como elitista, devido ao elevado nível intelectual dos assuntos abordados. Com um formato ousado e sofisticado demais para a sociedade conservadora  da época, o “Fantasia” sai do ar. 

• Abandonada, Carla cai em depressão. Entrega-se às drogas. Num só dia chega a consumir cinco tons diferentes de tintura de cabelo. Morre de overdose, sozinha e miserável, num puxadinho da Casa dos Artistas. Durante o velório, que aconteceu no SBT, as amigas Gretchen e Tiazinha fazem gemidos inflamados. A Orquestra Sinfônica de São Paulo, regida pelo grande maestro Zezinho, executa o clássico Dança do Bumbum: “Conheci uma menina que veio do sul...”. Multidões choram em frente à TV. Ironicamente, o último desejo da artista, de ser velada de bruços, não foi atendido. Sobre a lápide, grafou-se em letras garrafais a inscrição que resume a sua vida: “Aqui jaz Carla Perez: deu em cima, deu embaixo, na dança do tchaco e na garrafinha deu uma raladinha”.

• No mesmo ano, é lançado o movimento É o Tchan no Havaí, que visa a revitalizar o axeísmo. É taxado de escapista demais pela crítica. Sem Carla Perez, o movimento perde adeptos. Começa o declínio do axeísmo.

2000 - 3ª fase ou Geração Bucólica
     Em busca de inspirações neoclássicas e bucólicas, o grupo É o Tchan se refugia na selva.  É publicada a obra completa do movimento axeísta em um álbum de figurinhas coloridas que vêm em chicletes. Começa a era sheilas e as popozudas vêm pra abalar. A sociedade é envolvida pelo debate em torno de uma questão crucial para a época: “Só um tapinha não dói?”  (Escrito em 2004)