sábado, 19 de abril de 2014

A iscola de Carla Perez

“Livro é como uma esteira ergométrica:
um dia você olha e ele está ali, você nem liga,
mas quando descobre o bem que pode fazer...”
(Presidente Lula)

     Todo movimento literário - barroco, romantismo - é sempre estudado e caracterizado bastante tempo depois de sua manifestação. Pela proximidade, portanto, acostumou-se a chamar qualquer manifestação literária contemporânea de modernista. Isso porque ainda não se deu um distanciamento ideal para que estudiosos rotulem a nossa produção artística atual. Nada impede, no entanto, que façamos um exercício de futurologia e tentemos prever como as gerações futuras catalogariam a arte manifestada hoje. Vamos nos imaginar, então, no futuro. O ano é 2107. Naquele tempo, o mundo tentava se reerguer depois de ser quase devastado por guerras insanas, pelo efeito estufa, pelo fenômeno El Niño e por outros clichês desse tipo.
     É, bem, a verdade é que não sobrou ninguém, nada. Quase nada, pois alguma coisa ficou entre as ruínas e, com a ajuda de figuras imortais da nossa cultura, como Dercy Gonçalves, foi descoberta pelos arqueólogos. Dentre o material encontrado, muitos relatos sobre uma tal civilização popozuda, que teria habitado o local onde hoje é o Rio de Janeiro.  Antigos escritos de filósofos dos séculos XX e XXI também ajudaram a compreender melhor essa época. É o caso de Sandy e Júnior. Dentre os seus ensinamentos, uma frase ficou na mente dos arqueólogos: “o que é imortal, não morre no final”. De fato, alguns livros se salvaram, para sorte e deleite das gerações futuras. Uma mensagem atribuída ao presidente Lula (2003-2010), sintetiza bem o amor desse povo pela cultura: “Livro é como uma esteira ergométrica. Ela fica ali, no quarto, e você nunca usa. Um dia, você descobre e não quer mais parar”.
     Pois é. Nada disso, no entanto, se equipara ao tesouro encontrado em escavações feitas próximo ao Pelourinho, na Bahia. Pilhas e pilhas de letras de poemas escritos com uma ousadia sintática e semântica impressionante. Tinham certeza que não eram de Gregório de Matos Guerra. Os testes de carbono catorze revelaram que os poemas datavam do período hebe-camargo. Em quase todos havia referência àquela que provavelmente seria a musa inspiradora dos artistas da época: Carla Perez. Pouco se sabe sobre essa fascinante espécie. Os arqueólogos já haviam ouvido falar nessa mulher mitológica, metade seios metade bumbum. Mas sempre pensaram que fosse uma lenda.
     Segundo o mito, ela teria sido a mãe de uma  espécie nova que daria origem a uma nova geração. Mas como em toda biografia de celebridades, é difícil separar a verdade da mentira. O fato é que Carla Perez teria sido um divisor de águas na cultura brasileira. Voltemos à literatura.  Através da análise dos poemas foi possível configurar o período literário que ainda se constituía num vácuo para os  estudiosos. Os poemas - batizados de Axé - foram, portanto, o elo perdido da literatura do período FHC, que vai da invenção do Real até a desinvenção da luz, em 2001. A partir de pérolas como “Pau que nasce torto nunca se endireita; menina que requebra, mãe, pega na cabeça” ou “joelhinho, cabeça, joelhinho, cabeça” foi possível traçar o que teria sido o fabuloso período axeísta. É interessante ressaltar que Axé não significa nada. 
     É impossível, porém, estudar tal movimento sem se chamar a atenção para a sua principal idealizadora: a polivalente artista Carla Perez. Nascida na Bahia, na década de 70 do século XX, Carla Perez nunca foi compreendida. Filha de uma mulata vendedora de acarajés no Pelourinho com um português, desde cedo mostrou aptidão para a arte. Para conseguir realizar seu sonho sempre se virou. E virava-se quantas vezes fossem necessárias, sem perder o rebolado. Os pais queriam vê-la médica, mas a vocação artística falou mais alto. Tal qual os grandes gênios, foi incompreendida na escola. Certa vez foi severamente repreendida pela professora porque lançou uma polêmica: a palavra “escola” deveria ser escrita com “i” (“iscola”, como é hoje) e não com “e”, como se escrevia na época. Quando resolveu questionar assuntos mais delicados, como a defesa da tese de que Salvador é uma capital e não uma cidade, foi obrigada a abandonar os bancos escolares. Estava à frente de seu tempo. Filósofa, compositora, coreógrafa, alfabetizadora, humorista... A verdade é que Carla Perez era uma artista completa, de difícil categorização. Algodão doce pra lá, algodão doce pra cá, Carla teve uma vida conturbada, mas marcada por sua determinação em consolidar um novo estilo de manifestação artística: o axeísmo. Apesar da dificuldade em rotular a arte manifestada por Carla Perez, vamos tentar, a seguir, enumerar cronologicamente os movimentos que marcaram a consolidação do axeísmo, bem como o contexto histórico da época.

1995 - A dança da garrafa
     Naquele ano, o Brasil reafirmava sua democracia, ao dar posse ao segundo presidente democraticamente eleito após o Golpe de 1964, Fernando Henrique Cardoso. Ao mesmo tempo, o país discutia se Simony devia ou não permitir a filmagem do parto de seu filho Ryan. Na área artística, Carla Perez faz em 1995 a primeira mostra pública de sua arte, totalmente revolucionária para a época. Visionária, a artista vislumbrou em suas nádegas uma extensão do eu-lírico. Conta-se que Carla, então com 17 anos, saiu de casa decidida. Com o pouco dinheiro que lhe restava no bolso da tanguinha, comprou um ingresso para um show de rock, que aconteceria no estádio do Barradão, famoso ponto cultural da Salvador da época. Assim, com uma idéia na cabeça e uma garrafa vazia na mão, a beldade deu início a sua carreira.
     No intervalo do show, subiu ao palco e na frente de uma platéia de roqueiros conservadores, expôs a sua arte, que consistia em um movimento corporal circular, de modo que a artista ia descendo e subindo sobre o gargalo da tal garrafa vazia. Foi um escândalo. Após a performance - incompreendida pelo público, como o tempo tratou de mostrar - houve quem vaiasse, atirasse cocos e até relinchasse como cavalo. No dia seguinte, o escritor ultra-conservador da época, Jorge Amado, lançava no principal jornal da Bahia o famoso e inflamado artigo “Paranóia ou Mistificação”. Carla Perez ficou desolada: não fazia a menor idéia do que fosse mistificação. Paranóia era uma doença sexualmente transmissível, pensava ela.

1996 - A divulgação do novo movimento
     A partir daí surgem vários manifestos axeístas. As portas do Domingo Legal, uma revista de divulgação do novo movimento cultural, se abrem para Carla. Uma revista do Rio de Janeiro, a Domingão do Faustão, também se rende ao novo estilo, mas defende uma transição pacífica. Surge também a revista H, que revela a artista Tiazinha, para quem a nova arte deveria atingir a burguesia como uma chicotada.

• Carla Perez sacode o seu Manifesto É o Tchan. De caráter antropofagista - os axeístas diziam que toda arte deveria ser devorada e depois vomitada -, o movimento teve inspiração em Mário de Andrade, pois fazia sucesso com letras de músicas aparentemente simples, usando um baianês que o povo entendia. O símbolo era a bunda. Pensaram, assim como os modernistas, em usar uma anta. Carla Perez chegou a apresentar um programa com suas propostas. A atração se chamava “Anta dança, minha gente”, mas a artista descartou a idéia, temendo associações maldosas.

1997 - 1ª fase ou Gera-samba Heróica
     Bem ou mal, estava dada a bundada inicial do axeísmo. Ainda sob o efeito do artigo de Jorge Amado, Carla conseguiu reunir em torno de si vários artistas descontentes com o modernismo.
• O poema “Segura o Tchan”, do poeta Compadre Washington, torna-se o hino dos axeístas, devido à sua escrachada crítica à elite conservadora, representada por poetas como Caetano Veloso e Chico Buarque.
• É lançado o manifesto Gera-Samba, que reuniu artistas desconhecidos, mas que depois acabariam virando ícones do axeísmo, como Jacaré, Compadre Washington, Sheila Loira e Sheila Morena e Beto Jamaica, com os seus famosos poemas de duplo-sentido.

1998 - 2ª fase ou Geração Fantasia
A Usurpadora é um sucesso maior que Maria do Bairro. Carla Perez abandona a militância artística, mas não a arte. Lança um programa na TV, o “Fantasia”, em que dá aulas sobre conhecimentos culturais. “Quero ensinar minha arte às crianças”, dizia ela. Mais uma vez é atropelada pela crítica, que classifica seu programa como elitista, devido ao elevado nível intelectual dos assuntos abordados. Com um formato ousado e sofisticado demais para a sociedade conservadora  da época, o “Fantasia” sai do ar. 

• Abandonada, Carla cai em depressão. Entrega-se às drogas. Num só dia chega a consumir cinco tons diferentes de tintura de cabelo. Morre de overdose, sozinha e miserável, num puxadinho da Casa dos Artistas. Durante o velório, que aconteceu no SBT, as amigas Gretchen e Tiazinha fazem gemidos inflamados. A Orquestra Sinfônica de São Paulo, regida pelo grande maestro Zezinho, executa o clássico Dança do Bumbum: “Conheci uma menina que veio do sul...”. Multidões choram em frente à TV. Ironicamente, o último desejo da artista, de ser velada de bruços, não foi atendido. Sobre a lápide, grafou-se em letras garrafais a inscrição que resume a sua vida: “Aqui jaz Carla Perez: deu em cima, deu embaixo, na dança do tchaco e na garrafinha deu uma raladinha”.

• No mesmo ano, é lançado o movimento É o Tchan no Havaí, que visa a revitalizar o axeísmo. É taxado de escapista demais pela crítica. Sem Carla Perez, o movimento perde adeptos. Começa o declínio do axeísmo.

2000 - 3ª fase ou Geração Bucólica
     Em busca de inspirações neoclássicas e bucólicas, o grupo É o Tchan se refugia na selva.  É publicada a obra completa do movimento axeísta em um álbum de figurinhas coloridas que vêm em chicletes. Começa a era sheilas e as popozudas vêm pra abalar. A sociedade é envolvida pelo debate em torno de uma questão crucial para a época: “Só um tapinha não dói?”  (Escrito em 2004)