sábado, 19 de abril de 2014

A pedagogia segundo as andorinhas
     Já ia voltar à interminável preparação de aulas quando dei pelas duas ali. Duas andorinhas que conversavam animadamente no parapeito do meu prédio. Fiquei olhando pela janela. Dizem que elas vêm da América do Norte, fugindo do inverno. Também dizem que uma andorinha só não faz verão. Mas eram duas e me trouxeram à mente uma trilha sonora que por sua vez evocou a casa dos meus falecidos avós, de manhazinha e o cheiro de café fresco: “As andorinhas voltaram e eu também voltei...”
     Essa contemplação não durou mais que um minuto. E quantas lembranças cabem em um minuto! Quanto exercício de associação de fatos, lendas, de sentimentos, quanta poesia duas andorinhas podem proporcionar! Essa provocação das andorinhas vale por uma manhã inteira entre quatro paredes em uma escola quente quase sem janelas?
     Na Grécia antiga, a escola era concebida para instigar cinco dimensões: o Logos (conhecimento), o Pathos (a dimensão do sentimento), o Eros (dimensão do desejo), o Mythos (dimensão em que se dava espaço à fé, ao mistério, ao transcendente) e o Corporeidade (espaço para a educação do corpo). O pedagogo, na sua origem, era um escravo que saía arrastando a criança pela mão e fazendo-a vivenciar a polis, a cidade. A educação, então, não se dava dentro de uma gaiola, mas pelo contado com a cidade, com as pessoas, os templos, as bibliotecas, as praças e as andorinhas nos beirais.
    Hoje, depois do iluminismo, com seu senso prático e racional, a escola só tem a dimensão do logos, só interessa a informação, o conhecimento supostamente lógico. Nessa escola sem espaço para as andorinhas, os alunos são apenas um cérebro sem corpo, sem sentimentos, sem temores, sem desejos. Aliás, aluno vem do latim - alumnu - e significa sem luz.
     Bendita hora em que fui à cozinha e deparei com aquelas duas. Imagino que da Grécia alguém me arrastou até aquela janela para ver as duas andorinhas que trouxeram nas asas música, a América e os meus avós até o beiral do meu prédio. Se estivesse na escola não teria visto. Mesmo porque, sem luz não se vê nada. (17/11/2006)