sábado, 19 de abril de 2014

A xávena!, a xávena!
     Outro dia, em uma aula sobre variação linguística, o assunto era a diferença vocabular que existe entre o português brasileiro e o português. Foi quando me vieram à mente as lembranças das vezes em que, mesmo sabendo dessas diferenças, tive alguma dificuldade de comunicação em Portugal. Em 1998, fui a uma exposição mundial em Lisboa e, quando me dirigia ao pavilhão da França, uma senhora me segurou pelo braço e alertou: “Tu não vais conseguir entrar lá, por causa das bichas!”
    Fiquei tão perplexo com a afirmativa, que não consegui dizer nada. Apenas olhava para a mulher e ela ficou tão assustada que me deixou em paz. Por via das dúvidas, desisti de ver a exposição da França. Mas continuei indignado com o preconceito da mulher. Só uma semana depois, quando fui converter dinheiro no banco Pinto Sotto Mayor - só em Portugal pra existir um banco com um nome tão sugestivo -, entendi o que a mulher havia querido dizer. A luz me veio de uma placa, afixada no banco, com os dizeres: “Respeite a bicha única”. Bicha é fila, claro.
     No hotel, não me lembro se na mesma viagem, houve dois episódios divertidos. Quando fui entrar no elevador, o ascensorista fechou a porta, aquelas jurássicas, dobráveis, de ferro, no meu braço. Mais tarde, o gerente foi até o meu quarto pedir desculpas pelo ocorrido e perguntou: “O senhor está magoado?”. Achei tão bonitinho isso: o hotel se preocupar com os meus sentimentos... Eu respondi que não, por que haveria de me magoar com um pequeno incidente? Estava apenas com o braço dolorido. Por via das dúvidas, consultei o Aurélio deles: “magoar”, por lá, é o nosso “machucar”.
     Por fim, há o caso do pequeno almoço - é como chamam o café da manhã em Portugal. Quando a garçonete - meseira, na verdade - ia servir o café, ela sempre pedia que as pessoas virassem as xícaras, que em Portugal se chamam xávenas. Ela repetia, em um tom de voz bem autoritário a mesma ordem: “A xávena!” “A xávena!”. Quando ela disse isso na mesa ao lado da minha, a ocupante da mesa, uma brasileira, saiu correndo como uma doida.
    A mal humoradíssima garçonete não entendeu nada, e passou à mesa seguinte. Eu e muito provavelmente a mal humorada, já havíamos até esquecido a fuga da brasileira, quando ela chegou correndo no salão, visivelmente esbaforida e gritando: “Aqui estão as chaves!”. A coitada pensou que para servir o café, a garçonete havia exigido as chaves do quarto, para provar que ela era hóspede do hotel, quando na verdade, só queria a xávena, ou seja, a xícara!