sábado, 19 de abril de 2014

Bic-Jr pode ser um modelo para o ensino médio
     Às vezes não enxergamos  uma coisa porque ela está longe ou perto demais dos nossos olhos. Parecer ser o caso da bolsa de iniciação científica para alunos do ensino médio, o “Bic-Jr”. O governo não é capaz de vislumbrar no programa a solução para a maior parte dos problemas da escola brasileira. O Bic-Jr -  Bolsa de Iniciação Científica  - funciona assim: um professor com experiência em pesquisa propõe dentro de sua área de domínio um projeto de pesquisa de um ano de duração. O estudo é então submetido à entidade financiadora, do governo. Se o projeto for aprovado, o passo seguinte é o professor selecionar um ou mais bolsistas para tocar o projeto.
    O estudante recebe uma ajuda de custo mensal, em dinheiro. Mas quem orienta ou já orientou alunos dentro do programa sabe muito bem do alcance do Bic-Jr. A relação aluno-professor é muito, mas muito mais proveitosa dentro desse sistema. E seria mesquinharia dizer que isso se dá pela bolsa. Não, o que estimula o aluno nesse caso é o senso de investigador, de pesquisador que lhe é incutido pelo trabalho.
     Além disso, o bolsista sabe exatamente o que ele faz ali. Ele conhece os objetivos de seu trabalho, sabe aonde pode chegar, onde buscar os dados. Ao contrário do que acontece geralmente dentro da sala de aula, quando o professor leva respostas prontas, no Bic o professor ou orientador é um problematizador. Sua função é instigar, é criticar e elogiar, ajudando o aluno a pesquisar, a redigir teses, hipóteses, conclusões. Isso sim é educação.
    É claro que essa relação depende muito da experiência do professor, de sua capacidade de analisar variantes, de liderar uma equipe. Mas isso é mais uma vantagem do Bic. O programa permite detectar erros do orientador com muito mais facilidade. Isso porque se algo der errado, o próprio aluno perceberá logo que sua pesquisa não anda, que os objetivos traçados no início não estão sendo contemplados.
     Mas como o Bic pode ser uma saída para a educação brasileira? Pode à medida que as modorrentas aulas e os obsoletos e extensos programas de curso forem transformados em trabalhos em equipe e em projetos interdisciplinares com objetivos bem claros, a curto, médio e longo prazos. Um bom argumento contra a ideia seria: mas os projetos do Bic são restritos a uma área específica do conhecimento, como usar essa experiência, então, para dar formação geral ao aluno, caso do ensino médio?
    Primeiro, que é impossível empreender uma pesquisa que só use um conteúdo. Seja qual for o tema da pesquisa, o aluno precisará de recorrer à linguística, à matemática, a noções de geografia, de história. Segundo, que os projetos seriam pensados de forma a contemplar todas as áreas do conhecimento. O enfoque é que mudaria: os conteúdos passariam a ser ferramentas e não um fim em si próprio. Um erro comum que professores costumam cometer é achar que o que eles ensinam é fim e não meio.
     A escola, então, em vez de dividida em salas de aula que isolam alunos e professores, em vez de aulas, que fragmentam o raciocínio e impedem a disciplinaridade, teria projetos. Por mais simples que fossem, não importa, seriam tarefas planejadas em conjunto pelos professores, a ser desenvolvidas em seis meses, um ano… Não é algo difícil de ser posto em prática. Não demanda mais aportes de dinheiro nem contratações. Mas altera estrutura secular e tira do professor seu show diário, seu monólogo de 50 minutos e coloca o aluno no centro de uma busca real e produtiva pelo conhecimento.