sábado, 19 de abril de 2014

Como foram as minhas férias
     Boa parte dos brasileiros, mesmo escolarizados, não é capaz de compor uma dissertação coerente sobre um tema atual.  De quem é a culpa? Quando surge o trauma com a redação? Redigir é algo que deveria ser desenvolvido com a prática. Mas essa tarefa está a cargo das escolas, que não a cumprem bem. O principal responsável por isso talvez seja a falta de preparo dos professores. Além de se aterem a esquemas fixos baseados apenas no “racional”, recorrem a temas descontextualizados ou já tão batidos que só vão reproduzir fórmulas fixas de elaboração de textos.  O tema mais antológico é, sem dúvida, o “Como foram as minhas férias”.  Aliás, esse tema me faz lembrar uma história que eu sempre conto em sala-de-aula e que é bastante emblemática para exemplificar como a escolha de temas tolos pode levar à produção de textos idem. Certa vez, uma amiga de Carmo do Cajuru (MG) me contou, bastante constrangida, que depois de ser obrigada pela milésima vez a escrever sobre as férias, resolveu inovar.
    O enredo básico ela manteve, já que em time que está ganhando não se mexe: em seu texto, ela havia ido passar as férias na fazenda de um tio no interior - como se fosse possível ir de Cajuru ainda mais para o interior; deve ser para o centro da Terra. Lá, ela nadou, chupou jabuticaba ou manga, andou a cavalo... A novidade vem agora: “depois de um dia de muitas peripécias pela fazenda, ao cair da tarde, eu me deitava sob um frondoso pé de amendoim para ler um livro, enquanto o sol fazia brilhar os cachinhos dourados da fruta.”
   Ela entregou o texto - que na época se chamava composição - e ficou esperando ansiosamente o resultado de sua ousadia literária. Está esperando até hoje. Mas isso não lhe custou nenhum trauma, já que era normal o professor jamais dar satisfação sobre os textos. O choque mesmo veio foi muitos anos depois, quando ela teve um revelador encontro frente a frente com um pé de amendoim.
    A moça me contou, cobrindo o rosto com as mãos, que nunca sentiu tanta vergonha na vida quanto frente àquela planta de no máximo cinco centímetros de altura. Ela confessou que escolheu o tal pé de amendoim como local de leitura, no texto, justamente porque nunca tinha visto um. Era um toque de exotismo. Como também nunca tinha lido um livro. “Meu Deus, pra ler um livro debaixo de um pé de amendoim, eu tinha de ser um smurff ou um gnomo”, disse rindo. Que nada, minha amiga, bastava ser do tamanho do seu professor.