sábado, 19 de abril de 2014

Entrevista coletiva com Machado de Assis
     Cem anos após sua morte, o escritor realista Machado de Assis ainda fascina. Como quem é morto sempre aparece, o próprio Machado de Assis concordou em participar de uma entrevista coletiva sobre o conto "A cartomante" e sobre a sua obra em geral. Sua única exigência é que a banca de entrevistadores fosse composta por inquestionáveis intelectuais da atualidade. O próprio escritor, que parece ter-se tornado ainda mais irônico em sua fase pós-túmulo, fez questão de indicar os nomes. Veja a seguir os melhores momentos dessa entrevista.
     Carla Perez - A priori, eu diria que a obra do senhor mantém uma certa equipolência entre o ficcional e o real, uma vez que a mimetização que o senhor faz da vida comezinha é de uma verossimilhança atroz, se me permite. Mas, deixando de lado um foco mais fenomenologista e declinando uma concessão ao vulgo, o que o senhor diria ser o grande tchan do conto "A cartomante"?

    Machado de Assis - Minha cara leitora, quem sou eu para falar de tchans com a senhora, não é? Mas eu penso que o pulo do gato é o seqüestro que meu texto faz do ideário romântico. De certa forma, a narrativa engana o leitor, ao induzi-lo a supor que o conto poderia ter um final romântico.

     Carla Perez - Como, nesse caso, o senhor consegue levar o leitor a esquecer o paradigma positivista que permeia sua obra?

     Machado de Assis - Bem, é uma questão de lábia, minha cara, de auto-sugestão. Veja como eu abro a narrativa: com uma frase de Shakespeare: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Ora, Shakespeare é Shakespeare e quem é Machado de Assis perto dele? Daí o leitor pensa: Ora, não é que o velho cansou de ser cético e agora admite que existem mistérios, que nem tudo pode ser encarado de forma positivista, cientificista? E quando vê, o leitor já está roendo o queijo...

     Hebe Camargo - Bem, é sobre a paixão dessa gracinha que é o Machado pelo Rio, que eu queria perguntar. Por que só o Rio, gracinha?

     Machado de Assis - Bem, Hebe, você mais do que ninguém viu essa cidade nascer e sabe que no século dezenove o Rio era o único centro urbano de fato, no Brasil. As obras realistas focalizam problemas causados pelo convívio social urbano. Como eu poderia ambientar "A cartomante" numa cidadezinha do interior? Nesses lugares praticamente todo mundo acredita em videntes, benzedeiras, políticos. Numa grande cidade não, nela a visão cientificista, positivista já estava bem enraizada para poder mexer com os costumes.

     Hebe Camargo - E por que tanto pessimismo, ceticismo? O senhor não acha que o homem mereça um crédito, que o homem seja bom?

     Machado de Assis - Eu não defendo teses. Eu apenas escrevo. Nos meus livros, eu não afirmo que o homem seja mau por natureza ou que este ou aquele setor da sociedade seja bom ou ruim. Se o leitor enxerga isso nos meus textos é porque consegue depreender isso das entrelinhas. E se o faz é porque talvez tenha no mundo real, fora dos meus livros, indícios para pensar assim... Mas os meus personagens podem estar errados. Aquela era uma visão do século XIX. Veja como a humanidade progrediu. O Rio de Janeiro, na minha época era um esgoto a céu aberto. Havia ratos para todo lado, cólera, dengue. Imagina você, minha jurássica apresentadora, que havia até larápios, gatunos, a furtar flores dos jardins públicos. Hoje, tudo mudou. Realmente, não havia motivo para ceticismo...

     Gretchen - O senhor está sendo irônico?

     Machado de Assis - Não, e a senhora está?

   Gretchen - Não. Bem, mas voltando ao conto "A cartomante", como o senhor explica a repentina conversão de Camilo de cético a fã da vidente?

    Machado de Assis - A necessidade, a fraqueza espiritual, a falta de caráter. Eu conheço pessoas que mudam de religião, de crença, como quem muda de roupa. Basta uma dificuldade qualquer para se converter no mais crédulo beato da paróquia. Passadas as dificuldades... Mas, no conto há sinais bem palpáveis que levam Camilo a acreditar na vidente. O maior deles é o fato de o tílburi haver tombado em frente à casa da cartomante. Coincidência, diria um Camilo tranqüilo e livre de pressões. Mas a senhora já deve ter lido nesses manuais de auto-ajuda que não existem coincidências e sim pequenos milagres...

     Gretchen - E era um pequeno milagre?

     Machado de Assis - Não, era coincidência mesmo.

   Carla Perez - Em um de meus livros, há um pensamento lindo, que diz assim: "Pau que nasce torto nunca se endireita". O senhor acha que é assim mesmo?

     Machado de Assis - Não sei, o livro é da senhora...

    Sônia Abrão - Bem Machado mas uma coisa que eu considero muto importante que a gente deve estar sempre atenta é a questão da violência porque no conto o Vilela resolve tudo com um tiro e eu penso que a gente não deve dar essa solução porque já existe tanta coisa ruim tanta violência nesse país e uma obra escrita por um escritor do talento do porte de um Machado de Assis não deveria jogar mais lenha nessa fogueira é como o caso da Simony que preferiu se mudar com seu filho Ryan para Portugal a continuar com uma relação com o seu marido que não tinha mais futuro porque a violência não leva a nada e tudo pode ser resolvido com diálogo na paz e com muito carinho é isso o que eu penso, gente.

    Machado de Assis - ........................! ...................? .....................



    Carla Perez é doutora em Axé e autora de "Repensando a música brasileira: como segurar o tchan sem perder o rebolado em um mundo cada vez mais globalizado", "A dança da garrafa: resolvendo o gargalo de uma economia estagnada" e "Quem mexeu no meu queixo: a mulher e a tirania da cirurgia plástica", entre outros.
      Hebe Camargo é autora dos "Manuscritos do Mar Morto", "Big bang: eu vi" e colaboradora da série "Caminhando com Dinossauros", da BBC de Londres.
     Gretchen é precursora do culto à bunda no Brasil e autora de gemidos como "Pirimpimpim, pirimpim, ui!, ai!, ui!" e "Conga la conga, ui!, ai!, ui!"
     Sônia Abrão é jornalista que lê revistas na TV e fala sem ponto final e sem respirar.
(Publicado originalmente em 15/10/05)