sábado, 19 de abril de 2014

O primeiro hater do Galvão Bueno

Hoje em dia qualquer um odeia o Galvão Bueno. Não gostar do Galvão é politicamente correto. É quase pré-requisito para ser descolado. Mas muito, muito antes de odiar o Galvão ser moda, Kit já detestava o locutor da Globo. Kit foi o primeiro odiador do Galvão. Não era só ódio. Era pânico, terror; Kit era galvanofóbico. Kit se escondia debaixo da cama tremendo e chorando de medo do Galvão. Kit era o cãozinho pinscher lá de casa. Um bicho minúsculo, pretinho e metido a valente como só os pinschers sabem ser. Mas ele tinha um ponto fraco. A criptonita do Kit era o Galvão Bueno. Tardes de domingo eram o inferno para o Kit. Ele aturava a musiquinha chata do Esporte Espetacular, suportava a Turma do Didi, mas ficava tenso com o Faustão. Ele sabia que o Faustão era o prenúncio do Galvão. “Bem, amigos da Rede Globo...” essa era a senha para o terror. Kit e Galvão não se davam. Era começar o futebol e o Kit saía apavorado e se escondia debaixo da primeira cama que encontrasse. Ninguém o tirava de lá. Não, enquanto Galvão estivesse no ar.
     Mas por que Kit odiava Galvão Bueno? À época nem havia o RRRRRRonaldo! Galvão ainda poupava nossos tímpanos. Resolvemos fazer testes. Afinal, Kit jamais nos diria por que odiava Galvão. Levantamos hipóteses: Kit não odiava a TV, pois suportava até o Zorra Total e parecia ter uma quedinha pela Priscila do TV Colosso. Então Kit odiava futebol? Fácil descobrir: em vez da Globo, Band. E não é que o kit via de bom grado o Luciano do Vale? O Sílvio Luiz também não mexia com o Kit. Olho no lancêêêê.... Não era a TV, não era a Globo. Sim, Kit podia ser desses que juram que a Globo aliena e coisas do tipo. Mas não, o ódio do Kit não tinha fundamentação ideológica. Também não era o futebol. Não era o Cruzeiro, não era o Atlético nem o XV de Jaú. Foi aí, como na maior parte das grandes descobertas, que o acaso nos socorreu. Estava lá o tempo todo e nunca tínhamos percebido! É verdade que em muitas partidas o verdadeiro inimigo do Kit não dá as caras. Mas, o motivo do ódio do Kit não era o Galvão! Era o gol! Também não era exatamente o gol, eram os fogos de artifício que acompanham os gols! Então Kit não era um hater do Galvão, Kit tinha apenas medo do barulho dos fogos. E como na minha casa futebol era apenas na Globo, o pobrezinho associou a voz do Galvão aos estrondos dos foguetes. Descobrimos isso quando outro locutor gritou Gol! e o Kit correu para debaixo da cama.
     O medo irracional do Kit, que depois morreria atropelado na Rua Pernambuco com Sete de Setembro, foi assim um dos primeiros experimentos científicos da minha vida. Descobrir por que Kit tinha medo do Galvão Bueno desencadeou em nós ainda que rusticamente, métodos científicos: hipóteses, testes, análises, refutações e comprovações. Bem antes disso, lembro do meu avô, em Carmo da Mata explicando como ele descobriu que o Manacá na verdade não dava flores de cores diferentes... Mas isso é outra história que também envolve ciência, que também envolve curiosidade e a única coisa que nos move para a frente: o querer saber.