sábado, 19 de abril de 2014

O show da vida
     E se tudo fosse um sonho? Pelo menos uma vez na vida, todo mundo se faz essa pergunta. É porque é tudo tão absurdo, e às vezes tão ilógico, que não  resta resposta mais lógica do que achar que estamos sonhando ou, para os megalomaníacos – e criativos – supor que tudo não passa de uma armação.
    No cinema, dois filmes fizeram sucesso ao embarcar na teoria da conspiração: a vida não passaria de uma fraude, um jogo ou uma encenação. Matrix (EUA, 1999) é mais adolescente, também mais confuso. Trabalha com a hipótese de que o mundo como o vemos é apenas uma ilusão gerada por um programa de computador.
    Já O Show de Truman (EUA, 1998), apesar do careteiro Jim Carrey (argh!) é muito mais criativo, pois coloca lado a lado suposta realidade e a ilusão. O que se chama de mundo, de vida, é, na verdade,  uma farsa armada por uma rede de TV, um reallity show no ar há trinta anos. A cena final, da porta que se abre no céu, que na verdade, como tudo, é apenas um cenário, é uma das mais instigantes e belas do cinema.
    De certa forma, a teoria abordada pelos dois filmes tem lógica. Vivemos, sim, em um misto de Matrix e O Show de Truman. Nossa matrix é gerada pela linguagem que, por sua vez, contém o script do show que interpretamos. Com a linguagem, o homem  supriu a necessidade de se falar de algo na ausência desse algo.  Se isso é uma vantagem competitiva colossal, com relação a outras espécies, é também uma fonte de sofrimento e a aceitação de um script a ser seguido durante toda a vida. Isso porque com o tempo, a imagem, sempre distorcida, que criamos de algo, torna-se mais real do que aquilo que representa no mundo.
    O mundo e tudo o que existe nele, não pode ser transportado para dentro da linguagem.Uma palavra é apenas um simulacro, é bom que se repita, sempre distorcido de um coisa real. A linguagem evoluiu tanto, que hoje ocupa o lugar daquilo que deveria apenas representar. Quando pedimos paz, quando fazemos loucuras em nome da felicidade, quando damos um presente, estamos cumprindo rituais estabelecidos dentro da linguagem. Não paramos para definir felicidade, mas a queremos; não questionamos o que exatamente seria o amor, mas o evocamos diariamente. Nossa paz é o branco, é uma pomba, é um gesto com as mãos. Mas no fundo é nada, fora da linguagem. Queremos apenas cumprir o roteiro, seguir o mesmo caminho por que outros já passaram. Não vivemos porque estamos ocupados demais querendo viver uma fantasia.