sábado, 19 de abril de 2014

Quem precisa de mais aulas?
     Em tempos de discussão sobre um novo formato para o ensino médio, aparecerão várias sugestões de mudanças. Mas não tenha dúvida que apenas aqueças que propuserem aumento de carga horária irãp prosperar. E não é culpa do Governo. O senso comum aprendeu a associar tempo na escola com qualidade de ensino. O que é uma relação obviamente falsa. Mais tempo para uma escola ruim não vai  torná-la melhor. Nos últimos anos, os estudantes viram suas férias serem reduzidas a ponto de quase se tornarem apenas recessos.  Para os adolescentes que imaginam que sempre foi assim é bom relembrar. Até a década de 1980, os estudantes tinham até quatro meses de férias no ano: dezembro, janeiro, boa parte de fevereiro e julho inteiro. As crianças só entravam na escola aos sete anos e geralmente estudavam em apenas um período.
     Hoje, férias de fato, só em janeiro, mês de temperaturas altíssimas, enchentes e BBB na TV. Pois bem, se escola fosse um ambiente em que imperasse o bom senso, uma pergunta lógica seria: valeu a pena? Valeu a pena arrancar as crianças do convívio familiar e social e trancafiá-las em salas calorentas por mais tempo? O ensino melhorou? Formamos cidadãos melhores, capazes de responder a dilemas como violência urbana, corrupção, degradação ambiental, intolerância religiosa?
     Isso não importa. Nós sabemos por que de fato, as escolas aumentaram seus dias letivos. Não foi para melhorar a qualidade de ensino. Foi para servir de refúgio para crianças e adolescentes cujas mães passaram a trabalhar fora. As mesmas pessoas – professores, pais e autoridades políticas – que apoiam a escola sem férias sabem muito bem que a educação era muito melhor na época delas. O grande argumento pela escola em tempo integral nem é a qualidade de ensino, mas a fuga das ruas. No Brasil, o espaço público é visto como o lugar das drogas, das más companhias, do trânsito assassino, dos bandidos. Um erro. É na rua que estão o teatro, a praça, a biblioteca, os amigos, a diversidade, o parlamento. Mas a escola neste país prefere se manter no faz-de-conta, fechar os olhos para a realidade e atulhar os estudantes com conteúdos ultrapassado e desconectados.
     De toda a minha vida escolar, a lembrança que mais me toca é a alegria de chegar em casa todo dia após a escola. Religiosamente às 11h35 quando abria a porta de casa , era envolto por uma onda sinestésica de aconchego: o cheiro da comida que acaba de ficar pronta, o som dos desenhos de Hanna Barbera na TV,  o contato com a família. Hoje, talvez essa cena seja bem difierente, em tempos de micro-ondas, internet e pais separados. Mesmo assim, ainda acho que a vida real sempre será melhor do que uma escola quente, com currículos ultrapassados e professores desestimulados.