sábado, 26 de abril de 2014

São os valores, estúpido!
     A famosa frase do publicitário James Carville - "É a economia, estúpido!"- justificando a derrota do presidente George Bush para Bill Clinton, em 1992, cai como uma luva no esforço de mudar o foco de estudantes empenhados em fazer a redação do Enem. Só que, nesse caso, com uma correção: "São os valores, estúpido!". Para os espíritos sensíveis, é bom ressaltar que o "estúpido", tanto na frase de Carville como nessa paráfrase, claro, é uma constatação da obviedade de um fato que boa parte das pessoas teima em ignorar. 
    Todo ano é a mesma coisa: basta se aproximar a data do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para que professores de Redação de cursinhos encarnem os poderes duvidosos de Mãe Dinah. Está aberta a sessão de previsões do tema da redação do Enem. Um exercício tão desgastante quanto inútil. O esforço e o tempo gastos nessa clarividência poderiam ser mais bem empregados discutindo-se com os alunos abordagens baseadas nos valores essenciais que sustentam nossas crenças e, por conseguinte, modelam nossos modos de pensar e agir.
    A sociedade não é uma entidade compacta e monolítica. Ela comporta grupos sociais que divergem entre si. Mas acima de todos esses conflitos há  valores que permeiam uma "Consciência coletiva", como define o sociólogo Emile Durkheim. Essa consciência coletiva oferece valores comuns que se impõem fortemente e criam um senso de solidariedade entre os membros de um grupo e até entre grupos diferentes. Exemplos desses valores seriam a religião, a família e a escola. Isso quer dizer que os grupos existentes dentro da sociedade, ainda que divirjam em uma infinidade de situações, comungam alguns valores, como a proteção à criança, à liberdade...
    No entanto, há valores sustentados por grupos sociais que vão se chocar com interesses de outros grupos ou de indivíduos. É daí que surgem os conflitos. E é aí que lançamos a ponte com o tema abordado no início deste texto: a redação do Enem. Ora, o texto exigido no exame vai sempre partir de um tema que gere algum tipo de conflito. Não fosse assim, não haveria por que dissertar sobre o assunto. Sejam as agressões ao meio-ambiente, o preconceito contra negros ou a análise dos efeitos da Lei Seca, o que está em jogo são pontos de vista a respeito de uma problematização de um tema. 
   Uma abordagem simplista, mas bastante comum, consiste em apenas constatar, explicitar no texto que um problema existe. Ou seja: Sim, o negro é vítima de preconceito. Após isso, procede-se a uma análise do problema baseada principalmente em exemplos de situações em que o negro seria vítima de discriminação. Como conclusão: "é preciso conscientizar as pessoas, criar leis que garantam direitos, mudar a forma estereotipada como a mídia retrata o negro e melhorar a educação". Bem, essa é uma opção, mas trata o problema apenas do ponto em que ele foi exposto. Ou seja, não se analisam causas histórias, são se observa o objeto a partir de vários ângulos. Apenas repisa a velha fórmula de que a culpa pelo malfeito é sempre do outro - do Governo, "dos pulítico", da Rede Globo - e a solução também estaria nessas instâncias. Eu não tenho participação nisso. Eu me posiciono fora ou acima dos grupos sociais.
    Uma outra abordagem possível partiria da análise dos valores sociais que sustentam o problema apresentado como tema da redação. Ou seja, que valores comuns e particulares legitimam o preconceito contra gays, mulheres, negros? Que valores abonam a percepção de muitos brasileiros de que é impossível se divertir sem o consumo de álcool e de outras drogas? Que valores emulam no carro a virilidade e a competição, de tal forma que um motorista seja capaz de matar quem ouse fechá-lo no trânsito? Bem, vamos então analisar valores cultuados em três instituições basilares da sociedade: família, Igreja e escola.
    Quanto ao preconceito de gênero, vejamos como essas três instâncias erradiadoras de valores influem na perpetuação do problema. Socialmente, é consenso refutar a tese de que a mulher seria inferior ao homem. Portanto, deve-se lutar contra práticas que reforcem essa percepção. Certo? Na teoria sim, mas na prática... A Igreja católica, por exemplo, não admite padres mulheres, o que é um sinal claro de que elas não seriam aptas para a função. A Igreja não admite sequer discutir a existência dos homossexuais, quando não alimenta a percepção de que seriam "obras do diabo".
       A família, por sua vez, alimenta a ideia do desnível ao tratar meninos e meninas de forma muito diferente. A menina veste rosa, só ganha bonecas e artigos de cozinha e de maquiagem de presente. Já os meninos, vestem azul e ganham carrinhos e jogos eletrônicos. Elas são mais vigiadas; eles são estimulados desde cedo a lutar, agir grosseiramente e sair para a rua à cata de meninas. Um menino que brinca com boneca "vira gay"; a menina que brinca de carrinhos "torna-se lésbica". A escola apenas legitima esses comportamentos. Os livros didáticos trazem fotos de famílias constituídas de pai, mãe e filhos: brancos, magros e aparentemente heterossexuais. Em resumo, os valores que permeiam nossa consciência coletiva, no que tange ao gênero, remetem a uma figura feminina passiva, frágil - numa mulher não se bate nem com uma flor -, emotiva e fútil: leva horas para se trocar e está constantemente preocupada com a aparência física. Isso sem falar no papel da mulher como elemento decorativo.
    Sob esse aspecto, a pergunta não seria por que o preconceito persiste, mas por que não persistiria. Os valores que supostamente agregam a sociedade são baseados na supremacia de um indivíduo do sexo masculino, branco, magro, rico e bonito. Como não esperar que negros, gordos, feios, mulheres, gays não se sintam excluídos? Esses mesmos valores cultivam a percepção de que somos seres incompletos à procura da nossa alma-gêmea, da tampa da nossa panela. Ser solteiro, não seria jamais uma opção, mas uma maldição. Da mesma forma cultuam-se  a bebida, a velocidade e a competitividade como traços distintivos do macho, do forte, do vencedor. 
    Bem, concluindo. Com o que devo me preocupar na preparação para a redação do Enem? Você deve se preocupar menos com o tema e mais com a pesquisa sobre os valores que historicamente sustentam ou sustentaram nossa sociedade, que embasam nossa visão de mundo. Você deve sair da sua zona de conforto e refletir sobre esses valores. Isso é que lhe vai render argumentos e conclusões autênticas e mais distantes do senso-comum. A escola, por sua vez, contribuiria sobremaneira não apenas para preparar o estudante para avaliações, mas para formar cidadãos melhores se adotasse uma postura crítica quanto aos valores socialmente postos como "unânimes". Em vez de demonizar a TV, a internet e o funk, discutir esses elementos, situando-os histórica e socialmente.  Adotar uma postura crítica não significa negar ou destruir. É óbvio que a união em torno de determinados valores pode ser a única forma de  garantir o bem-estar social em um determinado tempo e lugar. Mas essa percepção não pode ser confundida com comodismo e dogmatização. 
    Posicionar-se criticamente significa, por exemplo, analisar um problema de vários ângulos. O Governo é sempre o problema, o culpado? Nunca a solução? A mídia manipula mesmo ou apenas se apropria de valores do senso-comum, como todo mundo faz? O cidadão comum é sempre um pobre inocente frente a todos os problemas? Ficar calado ou não ter opinião é mesmo um ato de isenção?  O fato de um comportamento ser praticado pela maioria significa que ele seja padrão ou correto? A maioria já concordou com a escravidão. A maioria na Alemanha apoiava Hitler... Pense.