sábado, 19 de abril de 2014

Skins é Malhação com neurônios
     Encontrei Skins por acaso, quando procurava na internet outros papéis de Dev Patel, o ator de Quem quer ser um milionário. Não sou tão fã assim do filme, mas é que Dev me lembra um amigo antigo. Mas não é a minha história que interessa e sim a dos adolescentes de Skins. Desde a primeira vez que vi Friends, que não me impressionava tanto com uma produção desse tipo. Skins é uma espécie de Malhação com neurônios. A semelhança na verdade reside tão-somente no fato de que as histórias circundam o mundo teen. Só isso. Skins é intenso, é forte, é angustiante, é repulsivo é viciante.
    É claro que as experiências pessoais, os traumas, os desejos reprimidos e as lembranças nos ajudam a compor a história alheia. Skins se passa em Bristol, cidade simpática da Inglaterra. Quem já andou por lá sabe o cheiro das ruas, o clima dos pubs, o vento frio do fim de tarde... Mas não precisa ter pisado na Inglaterra para se sentir na pele dos adolescentes de Skins.
   À primeira vista depravados e inconsequentes, os garotos e garotas são apenas um estereótipo das incoerências dessa fase da vida. Longe da frivolidade e do maniqueísmo das produções americanas  - O.C. – e brasileiras – Malhação, Sandy e Júnior (hehehe) -, Skins exagera nas cenas de sexo, bullying e transgressão de toda forma e assim vai esfolando os clichês até que em carne viva se apresenta a questão nua e crua: o que importa é o sentimento.
    Não o arquétipo romântico que caminha para o altar sob a indefectível valsa e a arrastar o impecável véu branco. Mas o sentimento que nos faz ser fiéis, companheiros e cúmplices; bons e maus. Amizade, amor, gostar, amar.  Skins consegue ser didático sem ser chato. O diálogo entre o jovem gay Maxxie e o muçulmano de araque Anwar – sim, achei o Dev Patel! – é quase um manifesto anti-homofobia: “Você já tentou ficar com garotas?”, pergunta Anwar ao amigo. “Você já tentou ficar com garotos?”, devolve Maxxie , com uma lógica desconcertante.
    Skins é a constatação de que existe vida inteligente longe de Hollywood e do Projac. É a prova de que é possível retratar o adolescente sem recorrer a caricaturas grosseiras. Skins é coisa de pele. Não compensa o amigo que sumiu, mas reforça que o que importa é o sentimento que fica. “A coisa mais fina do mundo”, diria Adélia Prado em seus saudosos tempos de coerência. (Skins, Inglaterra, 2007. HBO Plus, Netflix)