sábado, 10 de maio de 2014

O Facebook, esse assassino!
     Esta semana acordei com um whatsapp de um amigo: "O Facebook matou mais um". Levei um tempo para contextualizar. Imaginei que fosse uma forma de ele me dizer que também havia saído da rede social. Só depois de ver o noticiário da internet entendi a mensagem. Ele se referia à senhora que fora linchada no Guarujá (SP) após uma página no Facebook - "Guarujá Urgente" - divulgar um suposto boato de que haveria na região uma bruxa que matava criancinhas em rituais de magia negra. Cabe aí uma interessante discussão sobre o paradoxo de se usar a modernidade da internet para se incitar nas pessoas temores da Idade Média. Mas isso fica para outro texto.
  Fui, então, conhecer a tal página Guarujá Urgente. No geral, a fanpage se dedica a anunciar cachorrinhos perdidos e veículos roubados. Tudo em meio a uma espantosa fartura de crase. Praticamente todo "a" recebe o seu acento grave - "à todos", "à Deus, "à 50 mil". Fora esse atentado à gramática, a página não traz nada além daquilo em que o Facebook se tornou no Brasil após os flash-mob, ops!, protestos de rua de junho de 2013: um espaço de catarse; um ambiente para se xingar e acusar todo mundo, de preferência sem provas, sem argumentos, sem compaixão.
    O linchamento sofrido pela dona-de-casa confundida com a bruxa de Joãozinho e Maria comoveu o país porque foi real. Porque havia sangue jorrando, porque um corpo jazia no beco imundo da favela de Morrinhos, no Guarujá. Mas linchar tem-se tornado a especialidade dos usuários da rede social. A vítima é sempre o Governo, a TV aberta ou quem ouse defendê-los ou apele à razão, ao direito à defesa, à contra-argumentação. O post vivo e macabro de Morrinhos apenas imitou o Facebook: amigas da pobre vítima alegaram que tentaram evitar o massacre, mas foram ameaçadas por aqueles que curtiam e compartilhavam a barbárie.
    Bem, o Facebook é isso. E a rede social em si não tem nenhuma culpa pelo uso que se faz dela. Culpá-la equivale a botar a culpa na janela pela paisagem que ela mostra. É um espaço fantástico de debate de ideias. Os problemas nacionais estão no Facebook: violência, corrupção, educação ruim, falta de infraestrutura. Ótimo, um espaço para debate, para troca de informações e busca de conhecimento. Só que é mais ou menos como entregar uma Ferrari nas mãos de quem não sabe dirigir. Uma super ferramenta de troca de ideias nas mãos dos lanterninhas no ranking mundial de leitura e produção de texto, segundo o PISA.
   Não há o mínimo domínio da capacidade de interpretação, de analisar  contextos, de fazer inferências, de elaborar argumentos. Sem esses recursos, o usuário do Facebook se expressa de forma binária: existe um bem, ou bom (eu, o pobre, o povo) e um mal  ou mau (o outro: o Governo, os pulítico, a zelite, a Rede Globo). E para combater esse outro malvado vale tudo: mentir, adulterar dados, enganar, xingar, xingar muito, xingar mais. "Calhordas", "filhos da p****", "desgraçados". 
    No início eu fiquei perplexo ao ver professores, advogados, pessoas que eu tinha como instruídas fazendo esse jogo. Tentei argumentar com uma colega de profissão que postou uma foto-montagem de um avião atingindo o Planalto e a legenda: "O que todo brasileiro quer". Perguntei se esse era o papel de um educador ou, em última instância, se ela não sabia que apologia a atentados terroristas é crime. Ela deletou a postagem. Imagino que não soubesse que apologia a crimes é crime.
    Um outro conhecido - bombeiro! - postou uma montagem incentivando a população a botar fogo nas praças de pedágio. Argumento: pagamos IPVA e as estradas estão cheias de buracos. Perguntei se ele sabia que o dinheiro arrecadado com o IPVA não tem de ir para as estradas e que boa parte vai para a educação. Afinal, imagine se o imposto pago ao comprar feijão fosse apenas para o plantio de feijão; as taxas recolhidas na compra de um computador, iriam, então, exclusivamente para as empresas de informática. O imposto sobre os cigarros... Ah, já entendeu, né? Pela lógica dele, então, teríamos de cobrar impostos altos e exclusivos sobre a educação e a saúde, para manter esses serviços.
    Segundo Aristóteles, em sua "Retórica das Paixões", a retórica - que ele também conceitua como sendo a arte da persuasão -  é antes de tudo um ajuste de distância entre os indivíduos. Ou seja, eu faço uso da palavra, seja no Facebook ou em um júri, para tentar diminuir a distância que foi imposta entre mim e meu oponente através da configuração de um problema. É uma batalha a ser ganha com imposição de autoridade, argumentos e também paixões. O que ocorre no Facebook e nos comentários em geral sob artigos publicados na internet é que a única dimensão em que se "argumenta" é a da paixão. "Chamamos de paixão a tudo o que provoca dor, prazer e desprazer e que é capaz alterar os julgamentos proferidos", define Aristóteles.
    Para Aristóteles, a cólera é o reflexo da diferença entre aquele que se entrega a ela e aquele a quem ela se dirige. A ira é, assim, um grito contra a diferença imposta, injusta ou como tal sentida. A cólera, assim, reequilibra a relação proveniente do ultraje ou do desprezo. No caso do Facebook e dos comentários de internet em geral, quando o usuário digita os xingamentos ou inventa calúnias, a sensação é de alívio, de encurtamento da distância entre ele e o ofendido. 
     O curioso é que a ira dos usuários do Facebook pode se voltar até contra quem não lhes fez nada. Quando usava a rede social fui várias vezes atacado por pessoas que sequer conhecia. É que não só um ato é entendido como afronta. Mas o desprezo e até a manifestação involuntária de conhecimento podem ofender e também merecem a cólera como resposta. E num ambiente que sobrevive de trocas de curtições, compartilhamentos, e manifestação de ódio, quem não mantém essas práticas também vai ser visto como arrogante, aquele que se acha superior: daí cria-se a tal distância que o ofendido vai tentar reduzir com o ataque colérico.
    As paixões, portanto, são modos de ser ou respostas a modos de ser. Os moradores de Morrinhos, no Guarujá, não atacaram a dona-de-casa branca e magra porque a confundiram com o retrato falado de uma suposta criminosa negra e gorda do Rio. Também não o fizeram porque desacreditam na Justiça brasileira. Mataram porque precisavam externar sua ira, sua revolta contra algo que os oprime mas que não conseguem enxergar. Como míopes que são, só veem contornos indefinidos. Se não conseguem decifrar o inimigo, melhor matá-lo logo antes que ele os devore.

domingo, 4 de maio de 2014

Onde fica a Rua Viriato Correia?
      Precisei procurar um endereço em Divinópolis. Era no bairro São José, Rua Viriato Correia. Nunca havia ido além da Rua Amazonas. Espantei-me com o local, até mais agradável do que a parte antiga e conhecida do bairro. Mas assustou-me mais um outro fato: as ruas não têm nome ali! Até imagino que tenham nome, o que não há são placas indicando isso. Para conseguir achar a Viriato Correia tive de a todo momento procurar um morador para perguntar em que rua eu estava, o que não foi tarefa fácil, já que havia pouca gente nas ruas e muitas também não sabiam informar. Ao final, até achei a rua, mas o número não existia.
     No Japão, as ruas também não têm nome, mas os blocos de casas têm... Os comunistas são a favor de que não se coloque nome em nada; que se espere que o povo faça isso com o uso (mas quando o fizer, que ponham uma plaquinha!). Mas a experiência de Divinópolis é ainda mais radical. Não há como localizar uma rua e não é apenas em um trecho do São José porque ficaria num elo perdido; boa parte do São Judas também ostenta ruas sem nomes aparentes. Imagino que em rincões menos visitados...
     O que preocupa não é a falta do nome das ruas. Mas por que diabos ninguém reclama disso? Por que as pessoas saem às ruas com nomes do centro para pedir Fora Renan Calheiros! e não se preocupam com o seu bairro? Nomear as coisas é um dos sinais mais marcantes da civilização. Poder encontrar um endereço nos separa da balbúrdia de Cabul ou Djibout. Preocupar-se com o visitante também é um índice de civilização: eu acho a minha casa até de olhos fechados, mas e o forasteiro? Tudo bem que nenhum turista da Copa deve precisar procurar a Viriato Correia no São José, mas mesmo assim...
     Por que vereadores se preocupam em dar nomes a ruas - principal atividade da câmara, ao que parece - mas não ligam se há placas indicativas ou não? Por que os moradores não reclamam? A organização de Nova York onde a maioria das ruas é nomeada com números e oh!, a 74 fica entre a 73 e a 75!  A limpeza de Londres, onde não se joga  papel nas ruas mesmo não havendo lixeiras. Os jardins e árvores floridos de Buenos Aires. O asfalto impecável das avenidas de Lisboa refeito anualmente e não uma vez na vida como por aqui... Os ônibus com ar condcionado de Madri, uma cidade que nem é tão quente... Não,  em Divinópolis, como neste país, acostumou-se em tal magnitude com a desordem, que é bem possível que não se consiga mais viver de forma ordeira.
      "Mas isso tudo porque você não achou uma placa de rua?" Não, isso tudo porque uma cidade que não tem placas nas ruas também deve ter lixo nas calçadas, praças mal cuidadas, violência e educação ruim. Está tudo interligado, como nos mostra a Teoria das Janelas Quebradas. Comodismo gera desorganização, que gera falta de regras, que gera impunidade, que gera crimes... Não é apenas uma rua sem nome. É um país inteiro sem identidade.