domingo, 29 de junho de 2014

Chile, nos desculpe
     Chilenos, por favor, nos perdoem. Não, não peço desculpas por termos ganho a partida das oitavas de final da copa mesmo tendo um time muitor pior. Isso é do futebol e em outras ocasiões já fomos defenestrados da disputa mesmo tendo a melhor equipe, como em 1982. Peço desculpas por parte do Mineirão ter vaiado o hino nacional do Chile.
  Afinal, que tipo ordinário de gente vaia gratuitamente um símbolo de outro país? Quem ofende assim de forma tão baixa e traiçoeira o adversário? Simples, são os mesmos idiotas que agrediram verbalmente a presidente e a presidência do Brasil no mesmo Mineirão mandando a chefe da Nação tomar no c*.
     São os mesmos que saíram às ruas gritando que não haveria Copa, para depois gastarem fortunas em ingressos para assistir à Copa. São os mesmos que dizem que o dinheiro gasto com estádios deveria ir para a educação e depois dão show de grosseria e ignorância para o mundo todo ver.
    São os mesmos que fazem o gesto imbecil de coraçãozinho com os dedos para depois vomitarem seus recalques sobre qualquer um que pense diferente no Facebook. São os mesmos que baixam música sem pagar; roubam internet e TV a cabo do vizinho; fabricam e compram tênis falsificado em Nova Serrana e depois se convertem em palmatória dos políticos, "esses corruptos".
     Meses atrás muita gente temia pela Copa achando que os estádios não ficariam prontos ou que o Brasil não tivesse infraestutura à altura do evento. Hoje, o mundo se dobra diante do sucesso do Mundial. Aeroportos funcionando sem problemas, hotéis para todos, estádios perfeitos. Parece que só uma coisa não ficou pronta a tempo da Copa: o povo brasileiro.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Provando do próprio veneno
    É fácil imaginar como DIlma se sente com as manifestações contra seu governo. Afinal, ninguém em sã consciência há de negar que o Brasil de 2014 é muito melhor do que o Brasil de 2003 quando Lula tomou posse. Também são irritantes para qualquer ser que consiga pensar sem antes precisar ler postagens do Facebook os "argumentos" e os métodos que vêm sendo usados para atacar o Governo.
    No entanto, é claro também que o PT está provando do próprio veneno. E não me refiro aqui a seus atos no Governo. O partido está colhendo o que plantou quanto era oposição. Essa balela de que futebol e Rede Globo alienam, de que o dinheiro gasto com a Copa poderia ir para a saúde é invenção do próprio PT quando estava na oposição. Não reconhecer o esforço do adversário também é coisa do PT.
    Antes de chegar ao poder, o PT se arvorava em desconstruir a Copa do Mundo. Seus militantes, boa parte disfarçada sob a identidade secreta de professor de História, Filosofia e Educação Física, martelavam na cabeça dos alunos que a Copa era apenas um artifício para ludibriar o povo. Lembram do velho clichê "sobra circo e falta pão"? Lembram que o partido se dizia contra "tudo o que está aí"? Lembram de quando o presidente Fernando Henrique lançou o Plano Real e o PT proibiu que seus filiados se manifestassem a favor do pacote? Diziam que era mais um "estelionato econômico" e que como o Plano Cruzado, logo naufragaria. A ex-prefeita de São Paulo Luíza Erundina foi expulsa do partido porque apoiou o governo Itamar Franco em um momento delicado do país, pós-impeachment.
    Podemos dizer que essa onda de  gente raivosa contra  a Copa e contra "tudo o que está aí" é fruto de um efeito retardado da pregação do PT quando oposição. Com um delay de 20 anos, finalmente o "filho do trabalhador" entendeu o recado e encontrou no Facebook o ambiente ideal para manifestar sua cultura de almanaque. É óbvio que vários problemas do Brasil, como a corrupção são muito mais profundos e não podem ser resolvidos com a mera mudança do morador do Palácio do Alvorada. É claro que para combater a corrupção, o "filho do trabalhador" e toda a gente deste país terão de se policiar. Terão de valorizar a educação formal, terão de se conter antes de comprar cateira de motorista, roubar internet e TV a cabo do vizinho ou comprar tênis falsificado. Terão de aprender a votar, a defender o patrimônio público e a liberdade de expressão, antes de sair quebrando tudo o que está pela frente ou atacando a imprensa em manifestações sem motivo que não seja postar selfies no Facebook...
      Portanto, se quiser mais quatro anos em Brasília, o PT de 2014 terá de desconstruir o PT de 1994. O que não é difícil, uma vez que contra clichês e chavões, o partido tem oito anos de obras e serviços importantes para mostrar. Inclusive a popularização da internet e do ensino superior, que permitiu aos jovens ter acesso aos meios intelectuais e materiais para criticar o próprio PT.

Tutti buona gente
     Na copa, os comerciais de TV deram uma folga para as mulheres-objeto. Em seu lugar, entra o estrangeiro abobalhado. É essa a mensagem que os comerciais de cerveja parece quererem disseminar. Nada contra inflar o ego dos brasileiros e seu espírito patriótico. Ao contrário, após meses de torcida contra a Copa e contra o país, é alvissareiro ver de novo a TV sem vergonha de propagandear o Brasil. 
     O que incomoda, ou deveria incomodar, é a forma como as cervejarias resolveram dar um up no ego dos torcedores brasileiros: humilhando e debochando dos estrangeiros. Em um comercial de TV, "franceses" sofrem bullying e são obrigados a usar sutiam e saia para dançar o can-can. Mais ou menos como se na Copa da França um comercial de champanhe tivesse resolvido apresentar brasileiros vestidos de Globeleza, dançando de fio dental e salto alto.
     Em uma outra propaganda de cerveja um cântico  enumera contribuições dos italianos - tutti buona gente, dizem -  para com a cultura brasileira: "vocês nos deram o macarrone, o canelone, o panetone etc, etc..." e aí veem a desfeita: "... e também nos deram o tetra." Uma referência ao pênalti para fora do jogador Roberto Baggio, na final da Copa de 1994 contra o Brasil. Nesse caso há ainda um desmerecimento ao esforço da seleção, uma vez que a conquista da Copa dos Estados Unidos é reduzida ao efeito de um pênalti mal cobrado pelo adversário. Em outro anúncio, as vítimas são so ingleses: "Eles inventaram o futebol e não ganham nada desde 66..."
    É bom lembrar também aquele proibido pelo Conar, em que Neymar, ao "ensinar" estrangeiros como pedir uma determinada marca de guaraná no Brasil, acrescentava gracejos como "Um guaraná para o 'água de salsicha' ou 'filho de cruz-credo' aqui". Ou seja, o agradecimento pelo fato de o estrangeiro ter gostado de um produto brasileiro é o deboche. Mas de onde vem a inspiração para esse tipo de abordagem dos comerciais de bebidas? 
    Ao que parece, essas estratégias de marketing se baseiam na velha imagem do brasileiro malandro,  espertalhão, aquele que consegue tudo na maciota e por cima "dos trouxa". Assim, esperto é o que leva vantagem, o que lucra com o menor esforço ou melhor, com o trabalho alheio. Mané é o educado, o francês com sua bela música, o italiano que perdeu tempo inventando comidas tão saborosas, o inglês que criou o esporte mais apreciado no mundo, o idiota do japonês que limpa o estádio após o jogo...  Esperto mesmo é o brasileiro que chega de mansinho e usurpa o trabalho de todos eles. Afinal, roubado é mais gostoso.
     É importante lembrar que os comerciais de bebida não inventaram esses estereótipos; apenas os reproduzem. E se funciona é porque encontra respaldo. É comum ouvir de brasileiros que nunca saíram do país que "franceses não tomam banho", que "ingleses são frios"; "alemães rispidos" e "americanos apegados ao dinheiro". A TV, a mídia, não manipula ninguém, como o senso comum gosta de apregoar. A mídia apenas se apropria de elementos do imaginário coletivo. Ao mostrar uma mulher-bunda, gays afetados  ou estrangeiros sendo maltratados, os anúncios apenas tentam se aproximar desse imaginário inconsciente. Ao contrário, às vezes a TV até compra briga para mostrar algo fora desse imaginário. É o caso do espaço dado aos homossexuais, retratados em novelas como seres humanos que até se beijam. Enquanto isso, no imaginário social, os gays não passam de palhaços caricatos, cabeleireiros e maquiadores fúteis prontos a soltar gritinhos esganiçados ao menor vestígio de Madonna ou Rihanna.
     É claro que seria interessante ver a TV  mostrando uma mulher dinâmica e independente ou uma sociedade em que todos têm direitos iguais e a consumir avidamente literatura clássica. O problema é que nessa dimensão ninguém bebe cerveja, compra carros ou celulares modernos. Isso, pelo simples motivo de que esse mundo não existe. Pelo menos, não fora do Facebook ou dos comentários pretensiosamente inteligentes de internet.