segunda-feira, 23 de junho de 2014


Tutti buona gente
     Na copa, os comerciais de TV deram uma folga para as mulheres-objeto. Em seu lugar, entra o estrangeiro abobalhado. É essa a mensagem que os comerciais de cerveja parece quererem disseminar. Nada contra inflar o ego dos brasileiros e seu espírito patriótico. Ao contrário, após meses de torcida contra a Copa e contra o país, é alvissareiro ver de novo a TV sem vergonha de propagandear o Brasil. 
     O que incomoda, ou deveria incomodar, é a forma como as cervejarias resolveram dar um up no ego dos torcedores brasileiros: humilhando e debochando dos estrangeiros. Em um comercial de TV, "franceses" sofrem bullying e são obrigados a usar sutiam e saia para dançar o can-can. Mais ou menos como se na Copa da França um comercial de champanhe tivesse resolvido apresentar brasileiros vestidos de Globeleza, dançando de fio dental e salto alto.
     Em uma outra propaganda de cerveja um cântico  enumera contribuições dos italianos - tutti buona gente, dizem -  para com a cultura brasileira: "vocês nos deram o macarrone, o canelone, o panetone etc, etc..." e aí veem a desfeita: "... e também nos deram o tetra." Uma referência ao pênalti para fora do jogador Roberto Baggio, na final da Copa de 1994 contra o Brasil. Nesse caso há ainda um desmerecimento ao esforço da seleção, uma vez que a conquista da Copa dos Estados Unidos é reduzida ao efeito de um pênalti mal cobrado pelo adversário. Em outro anúncio, as vítimas são so ingleses: "Eles inventaram o futebol e não ganham nada desde 66..."
    É bom lembrar também aquele proibido pelo Conar, em que Neymar, ao "ensinar" estrangeiros como pedir uma determinada marca de guaraná no Brasil, acrescentava gracejos como "Um guaraná para o 'água de salsicha' ou 'filho de cruz-credo' aqui". Ou seja, o agradecimento pelo fato de o estrangeiro ter gostado de um produto brasileiro é o deboche. Mas de onde vem a inspiração para esse tipo de abordagem dos comerciais de bebidas? 
    Ao que parece, essas estratégias de marketing se baseiam na velha imagem do brasileiro malandro,  espertalhão, aquele que consegue tudo na maciota e por cima "dos trouxa". Assim, esperto é o que leva vantagem, o que lucra com o menor esforço ou melhor, com o trabalho alheio. Mané é o educado, o francês com sua bela música, o italiano que perdeu tempo inventando comidas tão saborosas, o inglês que criou o esporte mais apreciado no mundo, o idiota do japonês que limpa o estádio após o jogo...  Esperto mesmo é o brasileiro que chega de mansinho e usurpa o trabalho de todos eles. Afinal, roubado é mais gostoso.
     É importante lembrar que os comerciais de bebida não inventaram esses estereótipos; apenas os reproduzem. E se funciona é porque encontra respaldo. É comum ouvir de brasileiros que nunca saíram do país que "franceses não tomam banho", que "ingleses são frios"; "alemães rispidos" e "americanos apegados ao dinheiro". A TV, a mídia, não manipula ninguém, como o senso comum gosta de apregoar. A mídia apenas se apropria de elementos do imaginário coletivo. Ao mostrar uma mulher-bunda, gays afetados  ou estrangeiros sendo maltratados, os anúncios apenas tentam se aproximar desse imaginário inconsciente. Ao contrário, às vezes a TV até compra briga para mostrar algo fora desse imaginário. É o caso do espaço dado aos homossexuais, retratados em novelas como seres humanos que até se beijam. Enquanto isso, no imaginário social, os gays não passam de palhaços caricatos, cabeleireiros e maquiadores fúteis prontos a soltar gritinhos esganiçados ao menor vestígio de Madonna ou Rihanna.
     É claro que seria interessante ver a TV  mostrando uma mulher dinâmica e independente ou uma sociedade em que todos têm direitos iguais e a consumir avidamente literatura clássica. O problema é que nessa dimensão ninguém bebe cerveja, compra carros ou celulares modernos. Isso, pelo simples motivo de que esse mundo não existe. Pelo menos, não fora do Facebook ou dos comentários pretensiosamente inteligentes de internet.