sábado, 26 de julho de 2014

Linguagem e realidade 
    O que é a linguagem humana?  A definição de linguagem como a transcrição da realidade, embora possa satisfazer o senso comum, encerra em si um paradoxo. Isso à luz da definição de realidade segundo Espinosa. De acordo com o filósofo holandês, a realidade reside em uma substância infinita e indivisível. Por outro lado, o homem é finito e a linguagem divide tudo.
     Para efeito prático, a linguagem é a tradução de uma necessidade de socialização do homem. Ou seja, da necessidade de compartilhar conhecimentos, ideias, sentimentos. Ela permite ao homem se apropriar do mundo a sua volta. No entanto, é um equívoco acreditar que sirva para exprimir a realidade. No máximo, ela serve para exprimir a realidade humana. Isso porque a forma que a linguagem tem de representar a realidade é através da divisão, da compartimentalização de tudo em objetos, ideias, conceitos. Uma palavra é incapaz de traduzir uma realidade concreta. Isso seria impossível, devido à variedade e riqueza de características de cada coisa, de cada fenômeno, de cada sentimento.
     Uma palavra não passa de um arquétipo de algo, de uma representação metafórica. Para entender, basta imaginar o seguinte exercício. Você tem um gato de estimação. Quando você fala desse gato para alguém que nunca o viu, por mais detalhes que forneça, o seu interlocutor vai sempre ter apenas a ideia geral de gato que a palavra "gato" consegue evocar nele. Entram aí as experiências dele com aquilo que essa palavra representa e o conjunto de valores e conceitos que o imaginário social em que está inserido reserva para o conceito "gato". Mas nunca, jamais, você conseguirá evocar em outra pessoa o seu gato de verdade, aquela realidade particular, porque a linguagem não consegue transpor realidades, apenas conceitos, apenas ideias básicas, mas nunca particularidades. A palavra, assim, ajuda a compor uma realidade humana, mas não traduz a realidade externa à linguagem. E cada língua conterá uma visão diferente de mundo. Isso porque cada comunidade linguística irá dividir e organizar o mundo à sua maneira. A realidade tal como a entendemos, ou seja, a realidade humana, é apenas o resultado da divisão criada pela linguagem para compreender o mundo. Não é a realidade; não é o mundo. 
     Essa divagação deve ajudá-lo a entender por que é tão difícil conseguir implantar a paz, fazer reinar o amor, a democracia, o respeito... Isso é fácil apenas enquanto desejo, enquanto exercício da linguagem. Ao tentar transpor esses conceitos para a prática, cada povo vai tentar transpor essa realidade compartimentada pela linguagem para a instância da realidade exterior, por assim dizer. E aí entram os conflitos. Mas todos não querem paz, amor, felicidade? Querem, mas a harmonia só existe no plano da linguagem. Em todas as línguas essas palavras baseiam-se em conceitos que são, a priori, positivos. Digamos que a ideia geral evocada pela palavra "Paz", "Peace" ou "Paix" é de conforto, tranquilidade. Mas ao se tentar passar essas ideias para a realidade de fato, esbarram-se nas minúcias, nas visões de mundo, que a palavra em si não traduzia. A paz numa acepção primária pode ser a mera inexistência de conflitos. Mas na prática sua obtenção pode esbarrar em atitudes que se chocam com o conceito que o outro faz de Paz. Agora imagine essas diferenças sendo aplicadas a nivel de cada país, cada religião, cada classe social, cada indivíduo...
    Então, a linguagem não liberta o homem? Bem, o que é liberdade? É ter conhecimentos, direitos, poderes. Será? A posse desses conceitos trará responsabilidades que podem aprisionar seu detentor a obrigações comportamentais, padrões morais e éticos... Por outro lado, a ignorância pode ser a chave da liberdade, uma vez que se não conheço, não aspiro; logo sou livre dentro daquele mundo que consigo abarcar... 
     A questão é que a linguagem é um mal necessário. Ela ajuda o homem a organizar o mundo em diferentes conceitos e ideias.  É fato que ela não traduz a realidade, mas a recria dentro de uma Matrix em que o segredo é fingir que acreditamos que tudo possa ser expresso através de palavras. De ilusão também se vive. Ou só de ilusão se vive?