sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Escola ou educação em tempo integral?
     Quem acompanha a propaganda eleitoral deste ano já deve ter reparado que uma promessa é figurinha fácil entre os candidatos: a escola em tempo integral. Manter crianças o dia todo na escola virou uma panaceia para todos os nossos males. Segundo levantamento do portal G1, 42% dos candidatos a governador prometem escola em tempo integral. Entre presidenciáveis, essa promessa é repetida diariamente por Marina Silva (PSB). 
     Mas essa proposta é um clichê da "velha política". Ela não demonstra necessariamente comprometimento com a melhora da educação. A rigor, boa parte dos candidatos não promete educação em tempo integral. Promete escola em tempo integral. Ou seja, para essa promessa não há necessidade de projetos mais detalhados e de mudanças no currículo. Basta trancafiar as crianças na escola e, à tarde, dar uma bola para elas correrem atrás.
      O que se promete nesse caso é, na verdade, manter nossas crianças em cárcere privado. Um dos candidatos ao governo de Minas deixa claro em suas falas: "na escola, a criança fica longe da violência e das drogas presentes nas ruas". É sintomático quando até alguém em vias de assumir o posto de governante vê o espaço público como um terreno perdido para o crime. Muitos candidatos, quando questionados sobre como vão preencher o dia todo da crianças apreendidas nas escolas, citam as práticas esportivas e o ensino técnico. Sobre reformular o currículo, preparar melhor o professor e melhorar seu salário, o silêncio é de tempo integral.
       Já a educação em tempo integral não precisa que o aluno fique enclausurado na escola. Essa educação poderia ser implantada com o incremento dos trabalhos extra-classe, mais conectados com a realidade do aluno, com a valorização pela escola das atividades que o estudante tem ou deveria ter cotidianamente: ir ao teatro, cinema, ver TV, ler, viajar, como acontece nas escolas da Europa.  O que muitos candidatos têm prometido é, na prática, transformar professores em babás de luxo - luxo devido à sua formação, já que o salário costuma ser até menor do que o de uma baby sitter de fato.
       O pior nisso tudo é ver o professor aceitar ser alçado à condiçao de babá quase perfeita. É ver estudantes aceitarem tacitamente serem trancafiados em um ambiente onde imperam o bullying, a falta de infraestrutura e de planejamento. Educação de tempo integral necessita um imenso esforço de preparação de professores, para serem capazes de lidar com aquilo que aprenderam a taxar como o avesso da educação: a vida real.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina, você se pintou
      A candidata do PSB, Marina Silva, perdeu uma grande chance de mostrar ao Brasil que de fato é diferente daqueles que ela critica. Foi na entrevista ao Jornal Nacional, da Globo. Ao ser confrontada com supostas contradições entre seu discurso e suas ações, a candidata saiu-se com o manjado "Eu não sabia, mas quero que se investigue". É a mesmíssima resposta dos representantes daquilo que Marina chama de "velha política". De Obama a Dilma, quem está no poder, vira-e-mexe se vê em meio a microfones dizendo que não sabia de nada mas que investigará com rigor.
      Marina não sabia que o avião de sua campanha fora comprado com dinheiro de origem obscura. Não acha que ter um vice com ideias diametralmente opostas às suas seja uma jogada de marketing para acalmar os críticos a seu estilo, como fizeram Collor com o mineirinho quase socialista Itamar Franco, Lula com o empresário José Alencar, Obama com o experiente e branco Joseph Biden. Marina embarcou num voo cego e espera aterrisar em Brasília a despeito de suas contradições.
      Marina perdeu uma chance de ouro na entrevista do JN. Perdeu uma oportunidade de fazer o que nenhum candidato conseguiu: dar um xeque-mate em William Boner, dobrar o dedinho abusado de Patrícia Poeta. Poderia ter respondido: "Sim, eu errei". Há que se pensar - e deve ser o raciocínio dela e da "velha política" -: "mas assim ela perderia voto, pois quem vai garantir que eleita ela não errará de novo?". Uai, os mesmos que garantem que eleita ela "não saberá" de novo. No entanto, admitindo o erro, ela estaria dando um exemplo de como é a "nova política". Ela estaria tirando do plano teórico aquilo que hoje ainda soa a discurso eleitoral vazio. Na "nova política", erra-se, pedem-se desculpas, volta-se atrás.
      Admitir o erro não traria prejuízo à imagem de Marina. Ao contrário, daria credibilidade e atrairia eleitores. Mais eleitores entre aqueles que acreditam que possa existir alguém que seja presidente sem ser político; que é possível montar um governo "com os melhores do PT, do PSDB e do PMDB". Ou seja, o que sustenta Marina não são fatos, não é a lógica. É a paixão, é o autoengano. Ao mostrar fraqueza e arrogância no JN, Marina se igualou àqueles que critica e deu um passo para fora do altar em que se pusera.
     Se quiser continuar competitiva, Marina terá de manter o fetiche. Terá de ouvir Dorival Caymmi: "Marina morena, você se pintou. Marina, você faça tudo, mas faça um favor, não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu." O JN apenas mostrou o caminho. A partir de agora Marina terá sua coerência posta à prova pela imprensa e pelos opositores dia e noite. Caberá à candidata evitar que o eleitor se aborreça, se zangue e fique de mal, como na música.

Marina Morena
Marina Morena, Marina
Você se pintou
Marina, você faça tudo, mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto e que é só meu
Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina, não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa .
Você não arranjava outro igual
Desculpe Marina Morena, mas eu tô de mal.
De mal de você
De mal de você