quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina, você se pintou
      A candidata do PSB, Marina Silva, perdeu uma grande chance de mostrar ao Brasil que de fato é diferente daqueles que ela critica. Foi na entrevista ao Jornal Nacional, da Globo. Ao ser confrontada com supostas contradições entre seu discurso e suas ações, a candidata saiu-se com o manjado "Eu não sabia, mas quero que se investigue". É a mesmíssima resposta dos representantes daquilo que Marina chama de "velha política". De Obama a Dilma, quem está no poder, vira-e-mexe se vê em meio a microfones dizendo que não sabia de nada mas que investigará com rigor.
      Marina não sabia que o avião de sua campanha fora comprado com dinheiro de origem obscura. Não acha que ter um vice com ideias diametralmente opostas às suas seja uma jogada de marketing para acalmar os críticos a seu estilo, como fizeram Collor com o mineirinho quase socialista Itamar Franco, Lula com o empresário José Alencar, Obama com o experiente e branco Joseph Biden. Marina embarcou num voo cego e espera aterrisar em Brasília a despeito de suas contradições.
      Marina perdeu uma chance de ouro na entrevista do JN. Perdeu uma oportunidade de fazer o que nenhum candidato conseguiu: dar um xeque-mate em William Boner, dobrar o dedinho abusado de Patrícia Poeta. Poderia ter respondido: "Sim, eu errei". Há que se pensar - e deve ser o raciocínio dela e da "velha política" -: "mas assim ela perderia voto, pois quem vai garantir que eleita ela não errará de novo?". Uai, os mesmos que garantem que eleita ela "não saberá" de novo. No entanto, admitindo o erro, ela estaria dando um exemplo de como é a "nova política". Ela estaria tirando do plano teórico aquilo que hoje ainda soa a discurso eleitoral vazio. Na "nova política", erra-se, pedem-se desculpas, volta-se atrás.
      Admitir o erro não traria prejuízo à imagem de Marina. Ao contrário, daria credibilidade e atrairia eleitores. Mais eleitores entre aqueles que acreditam que possa existir alguém que seja presidente sem ser político; que é possível montar um governo "com os melhores do PT, do PSDB e do PMDB". Ou seja, o que sustenta Marina não são fatos, não é a lógica. É a paixão, é o autoengano. Ao mostrar fraqueza e arrogância no JN, Marina se igualou àqueles que critica e deu um passo para fora do altar em que se pusera.
     Se quiser continuar competitiva, Marina terá de manter o fetiche. Terá de ouvir Dorival Caymmi: "Marina morena, você se pintou. Marina, você faça tudo, mas faça um favor, não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu." O JN apenas mostrou o caminho. A partir de agora Marina terá sua coerência posta à prova pela imprensa e pelos opositores dia e noite. Caberá à candidata evitar que o eleitor se aborreça, se zangue e fique de mal, como na música.

Marina Morena
Marina Morena, Marina
Você se pintou
Marina, você faça tudo, mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto e que é só meu
Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina, não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa .
Você não arranjava outro igual
Desculpe Marina Morena, mas eu tô de mal.
De mal de você
De mal de você