sábado, 1 de novembro de 2014

Troco likes
     Em que se transformaram as redes sociais? Procuro encontrar algum parâmetro na vida real mas é difícil. Por que nesse ambiente as pessoas se comportam de forma tão mesquinha e são tão agressivas? Uma explicação já batida é que o suposto anonimato ou a falta de contato visual, cara a cara, encorajam as pessoas a externar seus verdadeiros sentimentos. De fato, a interação na rede parece um cochicho em voz alta, um distrato com as convenções sociais de polidez.
   O curioso é que quando temos contato pessoal, na "vida real", com "amigos" das redes sociais, paira no ar uma sensação de falsidade. Como não achar que o estranho que educadamente me cede a vez na porta giratória do banco não me chamaria de retardado burro que não consegue abrir uma porta? E a mocinha que cumprimenta docemente o porteiro do prédio não é a mesma que promete tacar fogo nos nordestinos preguiçosos e analfabetos que reelegeram Dilma?
     Esses não são de fato dilemas meus porque foi justamente para não os ter que renunciei ao Facebook há um ano. Refugiei-me no Instagram. Terreno bem mais pacífico, onde parece ser tácita a ideia de que se não concordo com a postagem do outro, basta ignorá-la. Não preciso chamá-lo de "corja de alguma coisa".
     Mas há algo de podre no Instagram desde que ele foi invadido por "celebridades instantâneas" como Lucas Ranngel  ou Emerson Lobo. Talentosos ou simplesmente corajosos, como o careteiro Victor Meyniel e sua voz de tia-avó rouca, esses moleques, com seus vídeos de até 15 segundos, parecem ter despertado em boa parte dos usuários uma sanha louca pela fama. E os degraus para o estrelato são feitos de likes e comentários.
    Ter um vídeo reproduzido por Lucas Ranngel em seu @oficialvinesbrasil é uma questão de vida ou morte. Daí surge um estranho comércio: a troca de likes e comentários. Troco likes, retribuo comentários, sigo de volta ou simplesmente sdv são as propostas que transformaram cada foto ou vídeo postado pelas celebridades-relâmpago do Instagram ou do Vine em um grande classificado. Por comentário entendam-se milhares de "KKKKKK morri" ou "assim mesmo" sob vídeos muitas vezes sem um pingo de graça quando não insondáveis.
    Quando, nos anos 1960, o artista Andy Warhol disse que no futuro todo mundo teria direito a 15 minutos de fama, é possível que preconizasse a existência de algo tão democrático como a Internet  Talvez só não imaginasse que o preço dessa fama seriam a dignidade e o amor próprio.