terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Carroçandei
     Na faculdade, ouvi de um professor de Literatura que o maior estímulo para a leitura e escrita vem das tias. Ele se referia não às professoras mas às tias mesmo. Segundo ele, são elas que, descompromissadas da severidade da educação cotidiana, têm tempo para contar histórias e estimular a criatividade dos pequenos. Não sei se ele tinha embasamento científico para essa teoria. Sei que a proposta encontrou eco na minha história. Sempre estive rodeado dessas figuras e de fato, eram cheias de histórias. Mas isso vale um outro texto. As histórias que mais me influenciavam eram contadas sem querer. Na verdade eram cantadas a plenos pulmões, à capela, acompanhadas apenas do barulhinho da água escorrendo da torneira e da roupa batida no tanque. É essa a lembrança mais antiga e mais persistente que eu tenho da minha mãe. E, sem dúvida, a mais marcante.
     Pequeno, ficava ao pé do tanque brincando de transportar o que estivesse à mão num caminhãozinho de plástico. Mas o que me transportava mesmo para além daquele cenário era a música. Minha mãe tinha um repertório limitado. Todo mundo tinha um repertório musical limitado nas décadas de setenta e oitenta. Afinal, sem internet, só se cantava o que o rádio ou o Flávio Cavalcanti ou outro apresentador da TV apresentassem. Eu me recordo de duas músicas em especial: “Ilha da Maré” e “Foi Deus que fez você”. A primeira, da Alcione e a segunda, da Amelinha. Não havia como fugir da música. Minha mãe cantava até perder o fôlego e eu era a única plateia. Mas eu não me entretinha só com a melodia. Ia tentando construir imagens com o que ouvia: “Ah, eu vim de ilha de Maré, minha senhora, pra fazer samba na lavagem do Bonfim...” Até esse ponto, a única palavra que fazia sentido para mim era “lavagem”.  Imaginava uma porção de porcos num chiqueiro. “...Saltei na rampa do mercado e segui na direção...” Aí os porquinhos já estavam sendo vendidos no mercado. Faz muito sentido.
     Mas havia um ponto dessa música que me causava grande desconforto: “Aí de carroça andei, comadre; Aí de carroça andei, compadre...”. Meu Deus, mas o que seria “carroçandei”? Aquela palavra era a pedra no caminho pelo qual a canção me levava. Era a peça que não encaixava, era um desafio. A cada vez que chegava ao refrão eu me esforçava para entender. Mas nada, aquilo não fazia nenhum sentido. O curioso é a ilusão de achar que era só o inusitado verbo "carroçandar" que eu não entendia. “Maré”, “samba”, “cortejo”, nada disso também tinha significação para mim. Mas nenhuma desas palavras me intrigava. Só carronçandei me fazia parar e apurar os ouvidinhos em direção à minha mãe. Sem ter noção disso, ela me apresentava talvez meu primeiro dilema na morfologia da língua.
     Anos depois surgiu também um problema semântico. Mas aí, o problema vinha de uma interpretação errada da cantora, no caso, minha mãe. É que na música “Foi Deus que fez você”, Amelinha dizia: “Fez até o anonimato dos afetos escondidos”. Mas minha mãe cantava: “Fez até o amor no mato dos afetos escondidos”. Em tempos de  funk, essa versão da minha mãe seria até fofa. Mas custava-me crer que em tempos tão recatados uma canção pudesse trazer tal epifania: “Foi Deus que criou o amor no mato”. Para minha mãe, não havia problema; problema para ela seria “anonimato”, afinal, que troço é esse? E seguia cantando assim mesmo. Como não tínhamos o LP da Amelinha, só vim a descobrir a letra original com a internet. E a safadeza foi desfeita.
     Mas a remoção da pedra não importa na educação. Na aula que minha mãe me dava enquanto lavava a roupa, o que importava era eu carregar as palavras e os seus sentidos tortos no meu caminhãozinho de plástico. Era o que minha mãe podia me dar lavando roupa. E aí de carroça andei.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A culpa é do professor 
     Analfabetismo em torno dos 8% e últimos lugares no Pisa. Apesar de avanços, a educação no Brasil melhora a passos lentos. De quem é a culpa?  Da Dilma, dos ricos,  do Cunha. Não. A culpa é da escola e principalmente dos professores. Em última instância cabe a esses dois agentes interagir com o aluno. Cabe ao professor não apenas repassar conteúdo mas também aplicar métodos eficientes de mensuração de aprendizado. E cabe à escola prover um ambiente adequado à educação e fiscalizar o trabalho dos professores. 
     Neste ponto,  os fãs incondicionais dos professores - ou da imagem santificada que se criou deles - hão de enumerar poréns. Mas os professores ganham mal. Têm formação acadêmica deficiente. Os alunos não têm educação e não demonstram interesse. Tudo isso é verdade. Mas nada disso torna menor a responsabilidade dos mestres. Professores ganham mal no Brasil desde todo o sempre. Quando optaram pela profissão já sabiam disso; ninguém os forçou a ser professores. Crianças mal educadas são um reflexo da sociedade mal educada brasileira, já deveríamos saber lidar com isso. E se se atrevem a dar aulas sem formação adequada ou sem buscar aperfeiçoamento, professores são ainda mais culpados.
    A verdade é que a categoria se acomodou à velha desculpa de botar a culpa no "governo", essa entidade malvada e sem rosto. Mas quando foi que vimos esforços conjuntos de professores para buscar soluções?  Quando escolas estaduais,  geralmente sofríveis, batem à porta das escolas federais - geralmente ótimas - para se aconselhar?
    A solução mais efetiva é o aumento salarial. Médicos são valorizados muito mais pelo poder aquisitivo que ostentam que pelas vidas que salvam. Com remuneração melhor, a profissão será mais atraente.  Haverá mais gente nas faculdades, que melhorarão sua qualidade. Por fim, haverá mais gente concorrendo por cada vaga de professor. Mais gente qualificada e de estratos sócio-econômicos variados. Na ponta, ganham os alunos, que terão professores mais bem formados, satisfeitos e cientes de o quanto vale o seu trabalho.

domingo, 25 de outubro de 2015




Tema da redação do Enem/2015
     O tema da redação do Enem deste ano foi um exemplo perfeito da tese que defendo de que mais importante do que tentar adivinhar a proposta é ir para a prova munido de informações históricas e relações de sentido. E a discussão sugerida pelo exame era justamente essa: "Apesar de todos os esforços dos últimos anos, a violência contra as mulheres continua. Por quê?" Como resposta, claro, cabem as considerações sobre valores, imaginários, influências culturais e históricas que discutidos desde o primeiro ano do curso. Na sexta-feira, entre as análises que fiz sobre possíveis temas, sugeri justamente "Por que a violência contra a mulher é recorrente?". 
    Importante ressaltar, também como prova de que a educação de qualidade é aquela que envida esforços variados para levar o aluno a construir sentidos, o tema do último "Diálogos".  O projeto do professor Raphael, de História, discutiu a partir de vários enfoques, notadamente históricos, a questão da violência contra a mulher, dia 6 de outubro. Também participaram os professores Tatiana, de Filosofia e Breno, de História, além dos alunos.  Veja a seguir uma possível abordagem do tema do Enem 2015. 

      Conquistas recentes, leis como a “Maria da Penha” e a recente “Lei do Feminicídio” penalizam aqueles que insistem em atentar contra as mulheres. Mas o ataque a esse problema exige mais que um aparato legal. A violência contra a mulher persiste no Brasil porque está amparada em razões históricas.
      Socialmente, espera-se que a mulher seja comportada, bonita, devotada ao lar. Esse figurino é reforçado pela família, que costuma preparar a menina para o casamento e as prendas domésticas. Da mídia também emerge um padrão de mulher sensual e servil. Seja verão ou inverno, a mulher dos comerciais de cerveja ou das telenovelas está a serviço de um padrão de beleza e da satisfação do homem.
      Além disso, é inegável que o Brasil atual herdou traços do autoritarismo e do machismo vigentes no período colonial escravocrata. Ainda hoje muitos homens veem a mulher como uma propriedade sua. Sob essa óptica, a agressão a elas é herança de uma época em que insubordinação se corrigia na ponta do chicote. No Brasil, matar a companheira “em defesa da honra” só deixou de ser um atenuante para o feminicídio há menos de três décadas...
      Portanto, além do aperfeiçoamento das leis, o Brasil precisa combater ranços históricos e culturais que ainda abonam a violência contra a mulher. A família pode fazer isso estimulando as crianças a verem a mulher como um ser apto a desempenhar qualquer função na sociedade. Brinquedos criativos, exemplos e diálogo podem ajudar nesse sentido. À escola e à mídia, caberia repensar o modelo de comportamento que têm perpetuado. O combate ao machismo, por exemplo, pode ser feito com acesso à informação e estímulo ao respeito às diferenças e às leis.


Alunos participam do debate do projeto Diálogos, dia 6/10, sobre o Feminismo, no Cefet-MG

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Gênero. Por que essa palavra
assusta os conservadores
     Já discuti aqui outras vezes sobre o poder da linguagem. Através dela criamos uma matrix dentro da qual nos relacionamos socialmente. A dependência é tão grande que acabamos por ignorar a realidade e vivemos dentro de um simulacro de realidade criado pelas palavras. Chamamos essa realidade mediada de "real". As palavras nos aprisionam em um mundo fictício em que sofremos temendo o peso delas: câncer, inflação, crise... Muitas vezes o assombro não corresponde à realidade. Mas as palavras também libertam. É o discurso que é capaz de mudar a matrix, através da alteração dos conceitos que circulam nos imaginários sociais e, por tabela, alterando ideologias, opiniões, conhecimentos.
    E foi essa a estratégia usada para libertar escravos, dar direitos a mulheres. Alguém trouxe para o discurso, para a linguagem, traços novos desses dois estratos sociais para além dos  clichês que circulavam socialmente. Com o tempo, negros passaram a ser também meu amigo, meu genro, meu professor, meu médico. As mulheres, de donzelas e parideiras passaram a ser trabalhadoras, políticas, casadas e solteiras por escolhas.
    Agora é a vez dos gays, outro personagem que ainda continua escravizado a concepções medievais, eivadas de mitos, medos, preconceitos. A missão: mudar o marketing em torno de si. Fazer com que homossexuais deixem de ser vistos apenas como "pessoas que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo" e se tornarem cidadãos multifacetados, como o restante da população.
    Mas, como fazer isso? A grande sacada foi retirar a discussão de searas religiosas e ligadas a patologias. Ou seja, não se trata de discutir o que a Bílblia ou a Biologia pensa dos gays. Mas reconhecer que legalmente eles têm o direito a ir e vir sem ter de se desviar de lâmpadas fluorescentes macetadas sobre suas cabeças e pastores evangélicos raivosos vociferantes.
    Daí a ideia de se discutir o conceito de gênero. Segundo essa lógica, homens e mulheres héteros ou gays sofrem com expectativas de comportamento e não com o fato de serem uma coisa ou outra. Ou seja, não se discute sexo mas gênero. A discussão passa a ser sobre o que é papel de um ou de outro gênero e se de fato tem de existir essa definição. Isso não é novidade, as mulheres também usam dessa lógica. 
     Não se viu nenhuma mobilização significativa, exceto um ou outro fanático religioso, se mobilizando contra argumentos como "a mulher pode ocupar qualquer papel social"; "lugar de mulher não é na cozinha"... Ou seja, esse é o mesmíssimo discurso do qual agora a "tradicional família brasileira" quer apear os gays. Ninguém está pedindo que héteros sejam convertidos em gays ou vice-versa. O que se discute é: devemos repensar a nossa noção de gênero, descolá-la da noção de sexo. 
    A expectativa de comportamento causa sofrimentos. Muitos casos de bullying tem sua origem no fato de uma criança não se comportar rigorosamente como outros esperam que ela se comporte.
    Mas se o conceito não é novo, por que os conservadores tanto o temem. Primeiramente, é porque para sorte de muitos, os reacionários são lentos e bitolados. Só agora eles pensam ter entendido a teoria dos gêneros. Em segundo lugar, porque eles perceberam que a teoria é lógica e pode ruir todo o discurso de ódio deles.
    As novas gerações já discutem e entendem a noção de que gênero é construído socialmente. Tanto, que hoje em dia meninos já não se importam em usar calças coladas ao corpo ou de cuidar do cabelo e da pele. Ou seja, eles perceberam que muitas imposições comportamentais têm base apenas em mitos, em preconceitos e podem ser mudadas. O temor dos conservadores é que essa forma mais racional, científica de analisar a questão dos gays se espalhe e torne a análise com base na crença, em dogmas, desacreditada até dentro das Igrejas, como ocorreu com a teoria de que negros não teriam almas...
    Aos arautos dos bons costumes, do certo e do errado, não interessa uma discussão racional. Para eles, tem de pairar sempre como pano de fundo de todo debate a ideia de que tudo está escrito na Bíblia e para azar dos gays, em meio a tantas palavras, a Bíblia não conhece o termo "gênero".

sábado, 5 de setembro de 2015

Só negro e pobre
    No Brasil, já virou um mantra. Todas as vezes que se propõe a adoção de penas mais rígidas para criminosos, há quem é contra sem sequer conhecer os detalhes da proposta. Argumento: “só negros e pobres serão punidos”. A lógica parece ser: “se só essa parcela da sociedade é punida, então que as punições sejam leves”. Claro que essa falácia é reforçada pelo lema dos que se consideram socialmente engajados: “o criminoso é fruto das injustiças sociais”, o top dos tops dos clichês.
    Ocorre que essa filosofia tacanha, ela mesma, é o maior algoz dos tais “negros e pobres”. É justamente a minoria desprotegida por um Estado que não tem instrumentos eficazes de coerção do crime que será a vítima preferida da bandidagem. Afinal, a “elite”, outro vocábulo comum ao léxico dos que defendem a lógica perversa das leis brandas, estará sempre em melhores condições de se defender do que os pobres. Miami é logo ali... Por outro lado, se permitíssemos ao Estado atuar com rigor proporcional ao crime, a experiência em outros países mostra que haveria uma queda na criminalidade e isso beneficiaria a todos. A Colômbia dos anos 1980 era um caso perdido, um lamaçal de impunidade, injustiça e império do narcotráfico. Acordos com os americanos e políticas duras de combate a toda e qualquer contravenção fizeram cair drasticamente os índices de criminalidade no país. Hoje, é muito mais provável lembrarmos de Shakira ou de James Rodrigues ao ouvirmos “Colômbia” do que de violência. Nova York, com a implantação da política da Tolerância Zero, também nos ano 80, conseguiu se tornar um oásis entre as metrópoles, a ponto de registrar até 10 dias consecutivos sem assassinatos.
    Mas onde nasce essa ideia de que o criminoso não tem responsabilidade sobre o que faz? O berço desse pensamento está nas próprias teorias acerca do contrato social, principalmente em Russeau. As ideias do filósofo foram a base da Revolução Francesa e se espalharam com a força de dogma principalmente na América Latina, onde se uniram a tudo isso preceitos católicos que incluem o conceito do “bom ladrão”. Concepções como a de que o homem é bom em estado de natureza e que é a sociedade que o corrompe vêm sendo amalgamadas a toda e qualquer situação. A rigor, Russeau se referia ao homem antes da organização social. Mas é comum que as pessoas adaptem a máxima para servir ao seguinte raciocínio: “o homem nasce bom, é o convívio com uma sociedade injusta que o torna mau”. É com base nesse pensamento que muitos defendem as penas leves e atacam a redução da maioridade penal. 
    Uma bobagem sem tamanho. Afinal, cada nascimento não representa um novo pacto social. Bem ou mal, o Estado fornece sim condições para formação do cidadão. Cabe à família procurar o acesso a esses meios. Tanto o indivíduo compreende o pacto social, que muitos se tornam criminosos justamente por perceber que dentro daquela sociedade quem comete crime não é punido. Então, há que se supor que o contrário também ocorreria. Ou seja, em uma sociedade em que cada criminoso recebesse uma pena proporcional ao que crime que cometera, logo logo o exemplo se espalharia e pretensos criminosos refreariam suas intenções perversas.
    O velho discurso da “elite” contra as minorias não pode continuar alimentando a violência no Brasil. Nossos formadores de opinião precisam rever seus conceitos. Questões ideológicas ultrapassadas não podem ser entraves à construção de um Brasil pacífico. Mesmo porque, a luta contra a desigualdade social acaba ficando em segundo plano quando é mais urgente para o indivíduo, seja branco, preto, pobre ou rico, salvar a própria pele.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A escola que nos rouba o sono
Há coisas que mesmo estando erradas estão tão introjectadas em nosso dia-a-dia que nem paramos para questionar. Mesmo assim, não deixam de estar erradas. É o caso do horário de início das aulas na maioria das escolas do Brasil. Sete horas é muito cedo e faz com que estudantes e professores tenham de se levantar de madrugada. Dependendo do percurso até a escola, há alunos que estão de pé antes das 4h. Isso é uma forma de violência principalmente aos adolescentes.
O curioso é que é a própria escola que defende a necessidade de pelo menos 8h de sono para que o conhecimento possa ser retido. Claro, que se que formos inquerir a escola, ela nos responderá: "basta que professores e alunos vão para a cama às 21, 22h..." Ok, mas sejamos realistas, quantos estudantes e professores podem se dar ao luxo de ir para a cama nesse horário? E as atividades extra-classe e as aulas para preparar, os exercícios para corrigir? Isso sem falar que sejam estudantes ou professores, as pessoas costumam também ter tarefas domésticas, ir ao médico, ao dentista, ao banco e, mesmo que a escola torça o nariz, ver TV, bater papo com os amigos pelo whatsApp, ver filmes, ler livros...
Não, não é possível dormir às 9 da noite em um país onde a temperatura na maior parte do ano chega fácil à sensação térmica de 40 graus e traz consigo pernilongos, quando não dengue. Nos Estados Unidos, onde a temperatura costuma ser civilizada o ano todo e pernilongos jamais recebem visto de permanência, ganha força um movimento pelo fim das aulas com início antes das 8h30. Uma mãe chegou a mover uma ação contra a escola dos filhos e venceu. Agora, escolas em todo o país estudam formas de respeitar o sono alheio.
No Brasil, há um estudo recente de um pesquisador da Universidade Tecnológica do Paraná que também condena o horário tradicional de início das aulas no país. Então, se há estudos, se há exemplos e se qualquer um pode ver por si a quantidade de walking dead que lota as as salas de aula das escolas brasileiras, por que não se vê no Brasil um movimento organizado contra as escolas que nos usurpam o sagrado direito ao sono? São vários os motivos.
O principal deles é que no Brasil é muito forte a crença de que saltar cedo da cama é sinal de disposição ao trabalho, caráter e até honestidade. Quem nunca foi chamado de vagabundo por querer ficar mais um pouco na cama? E quem nunca ouviu que "Deus ajuda quem cedo madruga"? A origem do mito muito provavelmente está no período escravocrata. Apesar do desprezo ao trabalho braçal, a elite colonial sempre admirou o "pegar cedo no batente". Principalmente quando alguém fazia isso por ela.
Ou seja, um movimento por aulas iniciando mais tarde teria forte resistência de mães e de professores. Aliás, professores costumam acreditar muto em lendas. Até hoje creem que decorar é um recurso didático imprescindível, quando originalmente era apenas uma contingência medieval, já que não havia como o aluno anotar nada à época. Além disso, muitas escolas funcionam também como creches. Aulas às sete dão tempo para que os pais deixem as crianças na escola e ainda cheguem ao seu trabalho que, normalmente, vai começar após as 8h.
Outro problema é a quantidade absurda de disciplinas e de aulas da mesma disciplina que as escolas costumam ter no Brasil. Excesso de aulas de português, matemática e física e outras matérias que muitas vezes só ocupam tempo dos alunos. Para as aulas começarem mais tarde, seria necessário rever a grade curricular. Mas mexer nisso seria botar a mãe em um enorme vespeiro, pois a maioria das escolas paga aos professores por quantidade de aulas dadas e a redução implicaria também diminuição salarial.
Como se vê, nenhum argumento em favor do início das aulas às 7 da manhã é baseado na qualidade de ensino. Mesmo porque, de qualidade, o ensino do Brasil tem muito pouco. Nesse contexto, permitir que o estudante durma - em casa, já que ele já faz isso na carteira - talvez até melhore a qualidade e ensino. Pior não fica. Já no modelo atual fica bem pior sim. Espere o horário de verão...

domingo, 16 de agosto de 2015

Real e Realidade
No dia-a-dia, as pessoas costumam usar como sinônimas as palavras “real” e “realidade”. Mas, na verdade, são dois conceitos diferentes. A realidade é uma noção dada a tudo o que existe independentemente do homem e se impõe a ele. Já o real é uma construção significante da realidade, é a realidade traduzida para o discurso, para a língua, para poder ser socializada.
Quando reduzimos qualquer coisa da realidade a uma palavra - “árvore”, “montanha”, “amor”, “felicidade” -, na verdade, matamos essa coisa para reconstruí-la conforme a capacidade de simbolização e compreensão de uma determinada comunidade linguística. É fácil constatar isso. Quando eu digo que em frente à minha casa existe uma árvore, essa árvore passa a ser para você algo real, mas não é a árvore da realidade. Isso porque, para poder abarcar esse conceito, você não idealizou em sua mente exatamente a árvore que existe em frente à minha casa, mas uma imagem, um conceito padronizado que você ativa toda vez que ouve a palavra “árvore”.
Ou seja, para trazer a minha árvore da realidade para o discurso, eu a matei, ou pelo menos, matei particularidades dela - é alta?, baixa?, tem folhas pequenas, grandes?, tem flores?, ninhos de aves? Assim, essa árvore que existe dentro da linguagem, é real, mas não é realidade. Um átomo já existia antes de o homem o entender e criar para ele esse nome. Ou seja, ele já era realidade e se tornou real depois que o homem achou necessário trazê-lo para o discurso.
O real está ligado à atividade de relacionamento social do homem. A realidade, para servir a essa necessidade, é sempre formatada para se tornar real e essa formatação se dá pela razão. Aqui chegamos num ponto interessante: quando debatemos, tomamos partido de algo, julgamos, condenamos ou absolvemos, sempre o fazemos com base no real. Ou seja, com base em um conceito moldado dentro de uma comunidade eivada de ideologias, preconceitos... Nunca com base na realidade porque essa é complexa demais para o nosso sistema de racionalização.
O problema é: quem escolhe os traços distintivos de algo da realidade que serão usados para definir esse algo dentro da comunicação, ou seja, do real? Então, as chamadas minorias devem se fazer essa pergunta. Quem foi que agregou ao conceito “Negro”, a ideia de inferioridade, submissão? Quem foi que traduziu todo um complexo conceito de homossexualidade como sendo apenas “aquele que faz sexo com outro do mesmo sexo”? Bem, a priori, essas facilitações são úteis para que possamos guardar noções básicas. Quando ouvimos “chefe de cozinha”, logo nos vem à mente a imagem daquele longo chapéu branco.
O problema é quando não ampliamos os conceitos e ficamos apenas com a noção básica que, muitas vezes, é desvantajosa e leva a estereotipações e preconceitos. Esses conceitos básicos, a que recorremos para formar uma noção inicial de algo, é o que chamamos de imaginários sociais. E esses imaginários podem ser mudados ou ampliados. É como se fossem informações em nuvem a que todo mundo recorre para formar opiniões.
A chave para combater a percepção negativa que uma comunidade tem de um grupo social, portanto, é agir para mudar os imaginários acerca desse grupo. É o que os gays têm feito. Pouco tempo atrás, a palavra “homossexual” já traria de imediato à mente apenas noções depreciativas como “promiscuidade sexual” ou “doenças venéreas”. Mas hoje, há um intenso trabalho de vários setores da sociedade, notadamente da mídia, para importar para o real características mais amplas e positivas sobre os homossexuais. Hoje, as pessoas já conseguem ativar conceitos como “cidadão”, “profissional”, “pai”, “mãe” quando ouvem a palavra “gay”.
E isso é um passo importante para combater o preconceito, pois altera aquelas informações que estão no imaginário e que vão nos ajudar a formar conceitos, ter opiniões e fazer julgamentos. As mulheres travam essa luta há mais tempo. Há um século o imaginário sobre elas trazia primeiramente as ideias de “mãe”, “virgindade”, “pureza”, “recato”... Hoje, já se vê a mulher compartilhando traços antes comuns apenas aos homens.
Portanto, toda luta contra preconceitos se dará em algum momento dentro do discurso. Nossos problemas referentes à aceitação do que nos é estranho estão, em algum grau ligados à dissonância entre os conceitos de realidade e real. Ou seja, o que não aceitamos nos gays, negros ou mulheres, são traços de sua realidade que se nos impõem e que não cabem dentro do nosso código linguístico e por extensão moral e ético. Mas o real pode e deve ser alterado, visto que é cruel exigir de alguém que abra mão de sua essência apenas para caber dentro da minha capacidade cognitiva. A realidade se impõe à nossa ignorância.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015



Câmpus de Divinópolis cai para 3º lugar
entre todas as unidades do Cefet-MG
     O Cefet-MG de Divinópolis manteve o 1º lugar em Divinópolis no ranking de 2014 por escolas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A escola teve nota média de 661,54 pontos. Em relação à edição de 2013, no entanto, a unidade de Divinópolis caiu do 1º, no último ranking, para o 3º posto entre todas as nove unidades do Cefet em Minas, atrás de Belo Horizonte, com média de 668,46 e Timóteo (664,68). No ranking nacional, incluindo todas as redes de ensino - federal, estadual, municipal e particular -, o Cefet-MG Divinópolis fica no 164º lugar (145º em 2013) e em 29º em Minas Gerais (31º em 2013). Já quando se analisam apenas as escolas públicas, a unidades de Divinópolis é a 17º melhor do país (13ª em 2013) e a 8ª de Minas (5ª em 2013).  A novidade do ranking deste ano é a inclusão do Nível de Permanência na Escola, que mostra a média de tempo em que os estudantes cursaram o ensino médio na escola. Os dados foram colhidos do ranking do G1.com.

sábado, 1 de agosto de 2015


Como ter bilhões de seguidores

       Como fazer com que multidões sigam você, mesmo sendo agredidas e insultadas em sua inteligência? Simples: convença-as de que o sentido da vida é fugir de um inimigo e adorar um herói e elas o seguirão justamente porque estão sendo insultadas e agredidas. Tudo o que as pessoas não querem é ser autônomas e independentes. Essa fraqueza vem sendo explorada há séculos por ditaduras e religiões. Aliás, essa é uma velha estratégia de captação de multidões: mantenha as pessoas sempre em estado de vigília: não lhes dê tempo de pensar. Isso também é fácil, as pessoas odeiam pensar por si só, estão sempre prontas a acreditar em mensagens de auto-ajuda, teorias da conspiração e em salvadores da Pátria, pois têm medo de se encontrar consigo mesmas no silêncio e na solidão do pensamento. Repita para elas: “o mau espreita, vigie” e não lhes dê tempo de usufruir um segundo de sossego. Ou deixe que o Facebook faça isso por você.
     Isso explica o suposto ódio da Venezuela e das ditaduras do Oriente Médio aos Estados Unidos ou a implicância de muitos com a Rede Globo. Estados Unidos e Globo são dois malvados favoritos fabricados com o mesmo intuito: mobilizar multidões em defesa de algo. É o caso também da tara dos evangélicos na figura do diabo, muito mais frequente no discurso deles do que Deus. Claro, imagine uma Igreja que pregue a paz, o bem sem olhar a quem, o amor a todos... Ora, logo logo esse fiel iria para casa viver feliz sua vida com sua família. Não se sentiria culpado, não viveria em sobressaltos com medo do chifrudo. Consequentemente, não dependeria de pastores, padres, papas, gurus e o dízimo minguaria. 
     Mas e para aqueles que acham difícil imaginar um demônio, algo tão caricato com chifrinhos, cascos e cheiro de enxofre? Problema resolvido: diga a eles que gays, ateus, Caverna do Dragão e o Miojo são franquias do demo na terra. O medo do diferente, daquilo que não entendemos é natural, basta você dar um emprurrãozinho e pronto: temos um demônio para chamar de nosso. Não, Igrejas não existem para nos trazer paz mas para nos manter em alerta contra moinhos de vento e para nos vender o antídoto contra problemas e culpas que ela mesma inventa.
     É a mesma técnica usada pelos déspotas. As ditaduras, para sobreviverem, precisam de dois ícones: o inimigo e o herói. A figura do inimigo existe para nos manter unidos, em alerta e dependentes. Existe para que não nos sintamos autônomos, fortes e livres. Já a imagem do herói é necessária para mostrar o quanto você, enquanto indivíduo é fraco, incapaz, vulnerável. A mensagem é: Tiradentes, Martin Luther King ou Jesus Cristo não foram seres comuns como eu e você. São super heróis, são iluminados. Só eles podem lutar contra a opressão, contra a tirania. Você, não, você é de carne e osso, não tente fazer isso em casa, deixe a Igreja ou o Governo ajudar... E assim o gado vai sendo conduzido, correndo do demônio e perseguindo seus heróis inalcansáveis enquanto alguns poucos estufam as burras de dinheiro, poder e fama.

terça-feira, 21 de abril de 2015


Como nascem os preconceitos
_ Gooool!
_ Gol de quem?
_ Do Cruzeiro!
_ Não, o Cruzeiro é de menina, você é Galo! De quem foi o gol?
_ Do Cruzeiro!
_ Não! Cruzeiro é de "viado"; você é Galo!

   Ouvi o diálogo acima enquanto tentava descansar no feriado de 21 de Abril. Vinha de um apartamento vizinho e os personagens eram um garotinho de não mais que dois anos, que brincava com uma bola de futebol e sua mãe. Fiquei imaginando por que depois da primeira reprimenda, o menino insistiu em dizer que o gol era do Cruzeiro.
      Gostei de supor que era porque ele não havia entendido que a relação menina e Cruzeiro fosse depreciativa. Ele não entendeu que a mãe ensinava que ele devia desprezar o Cruzeiro porque o time tinha entre seus torcedores pessoas do sexo feminino. Parece que a mãe também sentiu que precisava ser mais incisiva e trocou "menina" por "viado". Pronto, agora parece que ele entendeu: "você não pode torcer para um time que tem entre os seus torcedores desprezíveis mulheres e homossexuais".
     Mesmo assim a mãe sequer conseguiu que o menino pronunciasse a palavra "Galo" e ele logo se distraiu com outra coisa. Eu não acompanhei a gestação do moleque e sequer sei seu nome ou quando ele nasceu mas tive a sensação de naquele instante estar presenciando o nascimento de um monstro chamado "preconceito". 
  Fiquei imaginando se o menino havia entendido o que se passou. Muito provavelmente não. Afinal, ele convive com meninas o tempo todo: amiguinhas, primas, a mãe, a avó, que adora mostrar a ele as flores, a lua e os aviões. Então, por que cargas d'água ele acharia que sequer pode pronunciar a palavra "Cruzeiro" simplesmente porque Cruzeiro é de meninas?
     Ele pode não ter entendido naquele momento, mas ainda vai aprender a discriminar. Ainda vai aprender a desprezar mulheres, gays e tudo o que disserem a ele que é fraco ou diferente. Triste escola e mais triste ainda é constatar que a professora é aquela que pode vir a se tornar a maior vítima da intolerância. Sim, porque um preconceito nunca vem sozinho. Quem odeia gays, odeia mulheres e não raro despreza negros, deficientes, pobres... Não há meio termo, incentive um tipo de preconceito em seu filho e ele aprenderá outros. 
    O curioso é ver mulheres incitando o sexismo, a discriminação. E depois nos perguntamos por que ainda há tanta violência doméstica, por que precisamos da Lei Maria da Penha e do Feminicídio. É porque a ignorância é a mãe da intolerância. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Mente pra mim
     O Brasil vive uma guerra política. Uma guerra em que as armas são intolerância, conceitos difusos e a ignorância. De um lado, o Governo, que tenta negar ou atenuar verbalmente a crise econômica e ética que o país atravessa. No outro front, os descontentes com o PT, Dilma, com o contexto atual ou com tudo isso junto. A situação não é nova. O PT, quando oposição, também transformou os Governos dos adversários em um inferno povoado de ameaças de CPI’s e impeachments. A diferença é que agora essa luta é amplificada por meio da internet. Assim, o que é obviamente apenas uma bravata, como a ameaça de se instaurar um processo de cassação do mandato da presidente, torna-se algo real na interpretação de internautas com pouco ou nenhum conhecimento jurídico e dos trâmites políticos para se chegar a um impeachment
     Na cabeça de muitos brasileiros, o impeachment seria um mero mecanismo de retirar governantes com baixa aprovação popular. “Collor caiu porque era um mau caráter”. Não, Collor caiu porque encontraram-se provas de que ele agiu ou deixou que agissem contra os interesses do Estado durante seu mandato. Ou seja, o brasileiro reprovou nas urnas em 1993 a adoção do parlamentarismo, sistema de Governo que permite essa troca do presidente, e agora quer sacar o chefe do executivo apoiando-se em argumentos não previstos no dispositivo do impeachment, que só prevê a cassação em caso de ilícitos cometidos pelo chefe do executivo no desempenho do mandato, o que, até agora, não é o caso de Dilma Rousseff.
    O Governo, por sua vez, vem-se especializando em apagar o fogo com mais combustível. Desde ações políticas equivocadas, como demorar para trocar o comando da Petrobras e, quando o fez, nomear alguém sem respaldo do mercado, até estratégias de propaganda equivocadas, como foi o discurso da presidente no Dia da Mulher. Ao esperar uma data significativa para falar à Nação, Dilma passou a imagem de que problemas graves como inflação em alta, disparada do dólar, desemprego e violência crescentes fossem algo que não merecessem prestação de contas à população. Em seu discurso, Dilma deixou esses graves problemas e a explicação de o que vem fazendo para resolvê-los, em segundo plano. Preferiu entoar clichês sobre a importância da mulher para a sociedade. E concluiu com uma pérola: disse que o Governo terá tolerância zero com o assassinato de mulheres. Ou seja, desde que não se matem mulheres, está tudo bem. 
     A equipe de propaganda da senhora presidente prefere combater as críticas com o manjado argumento de que os protestos parte apenas daqueles que estão descontentes com o suposto fato de o Governo agir em favor dos pobres. O pior não é o Governo reagir assim. Isso já era esperado. Mas é constatar que a presidente e seus ministros mais próximos de fato acreditam na própria mentira. É incrível a incapacidade do Governo inclusive em usar técnicas de ilusionismo, recurso que até Maduro, o presidente da Venezuela, com a guilhotina já a lhe roçar a nuca é capaz de fazer, quando ataca os Estados Unidos para desviar a atenção dos problemas reais.
     Enquanto espera o cenário econômico melhorar, Dilma poderia, por exemplo, apresentar medidas de combate à violência. Além de prometer prender - “por até 20 anos!” - assassinos de mulheres apenas, por que não se engajar na luta pela reforma do Código Penal? Por que não defender a diminuição da maioridade penal, a adoção da prisão perpétua para qualquer assassino, a aprovação de uma Lei que puna de verdade a corrupção, a vigilância maior das nossas fronteiras para combater o tráfico de armas e drogas? Por que não apresentar - apenas apresentar, não precisa nem executar agora - um projeto de reconstrução de nossa malha ferroviária para transporte de passageiros? Por que não acenar às anovas gerações que no futuro elas poderão, como ocorre nos países civilizados, tomar um trem em vez de arriscar suas vidas em estradas perigosas? Por que não apresentar um cronograma para reforma do Ensino Médio, que bana o excesso de disciplinas inócuas e reformule o conteúdo das demais? E o Enem, qual o compromisso da presidente com a realização de mais de uma edição do exame por ano?
     Por outro lado, por que a população, em vez de perder seu tempo pedindo impeachment - não existe impeachment por incompetência -, não se mobiliza para exigir mudanças e reformas como as sugeridas acima? Por que não levar milhares, milhões às ruas para exigir do Congresso a apreciação de projetos de leis que reformulam o Código Penal, que modernizam o sistema de transportes e a rede de educação? Por que não exigir as famosas reformas de base - política, fiscal, da previdência - que desde o Império vêm sendo empurradas com a barriga? Porque os brasileiros não têm noção de como funciona o Governo e não querem ter.  Porque a educação recebida por boa parte das pessoas  não lhe permite sequer pesquisar no Google as regras do impeachment e as entender. Porque a maioria prefere acreditar que tudo se resolve elegendo-se um novo salvador da Pátria. Porque boa parte sabe que para ter uma Nação digna, livre da corrupção e da miséria todos terão de ceder, de vigiar, de voltar os olhos para temas que preferem ignorar. Porque assim como o Governo, a população mente para si. Mente que o Governo não é feito da mesma matéria que compõe a sociedade, um corpo corrupto, preconceituoso e leniente. Enfim, porque no fundo, Governo e sociedade entoam juntos, a mesma melodia: “mente pra mim, que ajuda a viver”.