quinta-feira, 12 de março de 2015

Mente pra mim
     O Brasil vive uma guerra política. Uma guerra em que as armas são intolerância, conceitos difusos e a ignorância. De um lado, o Governo, que tenta negar ou atenuar verbalmente a crise econômica e ética que o país atravessa. No outro front, os descontentes com o PT, Dilma, com o contexto atual ou com tudo isso junto. A situação não é nova. O PT, quando oposição, também transformou os Governos dos adversários em um inferno povoado de ameaças de CPI’s e impeachments. A diferença é que agora essa luta é amplificada por meio da internet. Assim, o que é obviamente apenas uma bravata, como a ameaça de se instaurar um processo de cassação do mandato da presidente, torna-se algo real na interpretação de internautas com pouco ou nenhum conhecimento jurídico e dos trâmites políticos para se chegar a um impeachment
     Na cabeça de muitos brasileiros, o impeachment seria um mero mecanismo de retirar governantes com baixa aprovação popular. “Collor caiu porque era um mau caráter”. Não, Collor caiu porque encontraram-se provas de que ele agiu ou deixou que agissem contra os interesses do Estado durante seu mandato. Ou seja, o brasileiro reprovou nas urnas em 1993 a adoção do parlamentarismo, sistema de Governo que permite essa troca do presidente, e agora quer sacar o chefe do executivo apoiando-se em argumentos não previstos no dispositivo do impeachment, que só prevê a cassação em caso de ilícitos cometidos pelo chefe do executivo no desempenho do mandato, o que, até agora, não é o caso de Dilma Rousseff.
    O Governo, por sua vez, vem-se especializando em apagar o fogo com mais combustível. Desde ações políticas equivocadas, como demorar para trocar o comando da Petrobras e, quando o fez, nomear alguém sem respaldo do mercado, até estratégias de propaganda equivocadas, como foi o discurso da presidente no Dia da Mulher. Ao esperar uma data significativa para falar à Nação, Dilma passou a imagem de que problemas graves como inflação em alta, disparada do dólar, desemprego e violência crescentes fossem algo que não merecessem prestação de contas à população. Em seu discurso, Dilma deixou esses graves problemas e a explicação de o que vem fazendo para resolvê-los, em segundo plano. Preferiu entoar clichês sobre a importância da mulher para a sociedade. E concluiu com uma pérola: disse que o Governo terá tolerância zero com o assassinato de mulheres. Ou seja, desde que não se matem mulheres, está tudo bem. 
     A equipe de propaganda da senhora presidente prefere combater as críticas com o manjado argumento de que os protestos parte apenas daqueles que estão descontentes com o suposto fato de o Governo agir em favor dos pobres. O pior não é o Governo reagir assim. Isso já era esperado. Mas é constatar que a presidente e seus ministros mais próximos de fato acreditam na própria mentira. É incrível a incapacidade do Governo inclusive em usar técnicas de ilusionismo, recurso que até Maduro, o presidente da Venezuela, com a guilhotina já a lhe roçar a nuca é capaz de fazer, quando ataca os Estados Unidos para desviar a atenção dos problemas reais.
     Enquanto espera o cenário econômico melhorar, Dilma poderia, por exemplo, apresentar medidas de combate à violência. Além de prometer prender - “por até 20 anos!” - assassinos de mulheres apenas, por que não se engajar na luta pela reforma do Código Penal? Por que não defender a diminuição da maioridade penal, a adoção da prisão perpétua para qualquer assassino, a aprovação de uma Lei que puna de verdade a corrupção, a vigilância maior das nossas fronteiras para combater o tráfico de armas e drogas? Por que não apresentar - apenas apresentar, não precisa nem executar agora - um projeto de reconstrução de nossa malha ferroviária para transporte de passageiros? Por que não acenar às anovas gerações que no futuro elas poderão, como ocorre nos países civilizados, tomar um trem em vez de arriscar suas vidas em estradas perigosas? Por que não apresentar um cronograma para reforma do Ensino Médio, que bana o excesso de disciplinas inócuas e reformule o conteúdo das demais? E o Enem, qual o compromisso da presidente com a realização de mais de uma edição do exame por ano?
     Por outro lado, por que a população, em vez de perder seu tempo pedindo impeachment - não existe impeachment por incompetência -, não se mobiliza para exigir mudanças e reformas como as sugeridas acima? Por que não levar milhares, milhões às ruas para exigir do Congresso a apreciação de projetos de leis que reformulam o Código Penal, que modernizam o sistema de transportes e a rede de educação? Por que não exigir as famosas reformas de base - política, fiscal, da previdência - que desde o Império vêm sendo empurradas com a barriga? Porque os brasileiros não têm noção de como funciona o Governo e não querem ter.  Porque a educação recebida por boa parte das pessoas  não lhe permite sequer pesquisar no Google as regras do impeachment e as entender. Porque a maioria prefere acreditar que tudo se resolve elegendo-se um novo salvador da Pátria. Porque boa parte sabe que para ter uma Nação digna, livre da corrupção e da miséria todos terão de ceder, de vigiar, de voltar os olhos para temas que preferem ignorar. Porque assim como o Governo, a população mente para si. Mente que o Governo não é feito da mesma matéria que compõe a sociedade, um corpo corrupto, preconceituoso e leniente. Enfim, porque no fundo, Governo e sociedade entoam juntos, a mesma melodia: “mente pra mim, que ajuda a viver”.