terça-feira, 21 de abril de 2015


Como nascem os preconceitos
_ Gooool!
_ Gol de quem?
_ Do Cruzeiro!
_ Não, o Cruzeiro é de menina, você é Galo! De quem foi o gol?
_ Do Cruzeiro!
_ Não! Cruzeiro é de "viado"; você é Galo!

   Ouvi o diálogo acima enquanto tentava descansar no feriado de 21 de Abril. Vinha de um apartamento vizinho e os personagens eram um garotinho de não mais que dois anos, que brincava com uma bola de futebol e sua mãe. Fiquei imaginando por que depois da primeira reprimenda, o menino insistiu em dizer que o gol era do Cruzeiro.
      Gostei de supor que era porque ele não havia entendido que a relação menina e Cruzeiro fosse depreciativa. Ele não entendeu que a mãe ensinava que ele devia desprezar o Cruzeiro porque o time tinha entre seus torcedores pessoas do sexo feminino. Parece que a mãe também sentiu que precisava ser mais incisiva e trocou "menina" por "viado". Pronto, agora parece que ele entendeu: "você não pode torcer para um time que tem entre os seus torcedores desprezíveis mulheres e homossexuais".
     Mesmo assim a mãe sequer conseguiu que o menino pronunciasse a palavra "Galo" e ele logo se distraiu com outra coisa. Eu não acompanhei a gestação do moleque e sequer sei seu nome ou quando ele nasceu mas tive a sensação de naquele instante estar presenciando o nascimento de um monstro chamado "preconceito". 
  Fiquei imaginando se o menino havia entendido o que se passou. Muito provavelmente não. Afinal, ele convive com meninas o tempo todo: amiguinhas, primas, a mãe, a avó, que adora mostrar a ele as flores, a lua e os aviões. Então, por que cargas d'água ele acharia que sequer pode pronunciar a palavra "Cruzeiro" simplesmente porque Cruzeiro é de meninas?
     Ele pode não ter entendido naquele momento, mas ainda vai aprender a discriminar. Ainda vai aprender a desprezar mulheres, gays e tudo o que disserem a ele que é fraco ou diferente. Triste escola e mais triste ainda é constatar que a professora é aquela que pode vir a se tornar a maior vítima da intolerância. Sim, porque um preconceito nunca vem sozinho. Quem odeia gays, odeia mulheres e não raro despreza negros, deficientes, pobres... Não há meio termo, incentive um tipo de preconceito em seu filho e ele aprenderá outros. 
    O curioso é ver mulheres incitando o sexismo, a discriminação. E depois nos perguntamos por que ainda há tanta violência doméstica, por que precisamos da Lei Maria da Penha e do Feminicídio. É porque a ignorância é a mãe da intolerância.