sábado, 1 de agosto de 2015


Como ter bilhões de seguidores

       Como fazer com que multidões sigam você, mesmo sendo agredidas e insultadas em sua inteligência? Simples: convença-as de que o sentido da vida é fugir de um inimigo e adorar um herói e elas o seguirão justamente porque estão sendo insultadas e agredidas. Tudo o que as pessoas não querem é ser autônomas e independentes. Essa fraqueza vem sendo explorada há séculos por ditaduras e religiões. Aliás, essa é uma velha estratégia de captação de multidões: mantenha as pessoas sempre em estado de vigília: não lhes dê tempo de pensar. Isso também é fácil, as pessoas odeiam pensar por si só, estão sempre prontas a acreditar em mensagens de auto-ajuda, teorias da conspiração e em salvadores da Pátria, pois têm medo de se encontrar consigo mesmas no silêncio e na solidão do pensamento. Repita para elas: “o mau espreita, vigie” e não lhes dê tempo de usufruir um segundo de sossego. Ou deixe que o Facebook faça isso por você.
     Isso explica o suposto ódio da Venezuela e das ditaduras do Oriente Médio aos Estados Unidos ou a implicância de muitos com a Rede Globo. Estados Unidos e Globo são dois malvados favoritos fabricados com o mesmo intuito: mobilizar multidões em defesa de algo. É o caso também da tara dos evangélicos na figura do diabo, muito mais frequente no discurso deles do que Deus. Claro, imagine uma Igreja que pregue a paz, o bem sem olhar a quem, o amor a todos... Ora, logo logo esse fiel iria para casa viver feliz sua vida com sua família. Não se sentiria culpado, não viveria em sobressaltos com medo do chifrudo. Consequentemente, não dependeria de pastores, padres, papas, gurus e o dízimo minguaria. 
     Mas e para aqueles que acham difícil imaginar um demônio, algo tão caricato com chifrinhos, cascos e cheiro de enxofre? Problema resolvido: diga a eles que gays, ateus, Caverna do Dragão e o Miojo são franquias do demo na terra. O medo do diferente, daquilo que não entendemos é natural, basta você dar um emprurrãozinho e pronto: temos um demônio para chamar de nosso. Não, Igrejas não existem para nos trazer paz mas para nos manter em alerta contra moinhos de vento e para nos vender o antídoto contra problemas e culpas que ela mesma inventa.
     É a mesma técnica usada pelos déspotas. As ditaduras, para sobreviverem, precisam de dois ícones: o inimigo e o herói. A figura do inimigo existe para nos manter unidos, em alerta e dependentes. Existe para que não nos sintamos autônomos, fortes e livres. Já a imagem do herói é necessária para mostrar o quanto você, enquanto indivíduo é fraco, incapaz, vulnerável. A mensagem é: Tiradentes, Martin Luther King ou Jesus Cristo não foram seres comuns como eu e você. São super heróis, são iluminados. Só eles podem lutar contra a opressão, contra a tirania. Você, não, você é de carne e osso, não tente fazer isso em casa, deixe a Igreja ou o Governo ajudar... E assim o gado vai sendo conduzido, correndo do demônio e perseguindo seus heróis inalcansáveis enquanto alguns poucos estufam as burras de dinheiro, poder e fama.