domingo, 16 de agosto de 2015

Real e Realidade
No dia-a-dia, as pessoas costumam usar como sinônimas as palavras “real” e “realidade”. Mas, na verdade, são dois conceitos diferentes. A realidade é uma noção dada a tudo o que existe independentemente do homem e se impõe a ele. Já o real é uma construção significante da realidade, é a realidade traduzida para o discurso, para a língua, para poder ser socializada.
Quando reduzimos qualquer coisa da realidade a uma palavra - “árvore”, “montanha”, “amor”, “felicidade” -, na verdade, matamos essa coisa para reconstruí-la conforme a capacidade de simbolização e compreensão de uma determinada comunidade linguística. É fácil constatar isso. Quando eu digo que em frente à minha casa existe uma árvore, essa árvore passa a ser para você algo real, mas não é a árvore da realidade. Isso porque, para poder abarcar esse conceito, você não idealizou em sua mente exatamente a árvore que existe em frente à minha casa, mas uma imagem, um conceito padronizado que você ativa toda vez que ouve a palavra “árvore”.
Ou seja, para trazer a minha árvore da realidade para o discurso, eu a matei, ou pelo menos, matei particularidades dela - é alta?, baixa?, tem folhas pequenas, grandes?, tem flores?, ninhos de aves? Assim, essa árvore que existe dentro da linguagem, é real, mas não é realidade. Um átomo já existia antes de o homem o entender e criar para ele esse nome. Ou seja, ele já era realidade e se tornou real depois que o homem achou necessário trazê-lo para o discurso.
O real está ligado à atividade de relacionamento social do homem. A realidade, para servir a essa necessidade, é sempre formatada para se tornar real e essa formatação se dá pela razão. Aqui chegamos num ponto interessante: quando debatemos, tomamos partido de algo, julgamos, condenamos ou absolvemos, sempre o fazemos com base no real. Ou seja, com base em um conceito moldado dentro de uma comunidade eivada de ideologias, preconceitos... Nunca com base na realidade porque essa é complexa demais para o nosso sistema de racionalização.
O problema é: quem escolhe os traços distintivos de algo da realidade que serão usados para definir esse algo dentro da comunicação, ou seja, do real? Então, as chamadas minorias devem se fazer essa pergunta. Quem foi que agregou ao conceito “Negro”, a ideia de inferioridade, submissão? Quem foi que traduziu todo um complexo conceito de homossexualidade como sendo apenas “aquele que faz sexo com outro do mesmo sexo”? Bem, a priori, essas facilitações são úteis para que possamos guardar noções básicas. Quando ouvimos “chefe de cozinha”, logo nos vem à mente a imagem daquele longo chapéu branco.
O problema é quando não ampliamos os conceitos e ficamos apenas com a noção básica que, muitas vezes, é desvantajosa e leva a estereotipações e preconceitos. Esses conceitos básicos, a que recorremos para formar uma noção inicial de algo, é o que chamamos de imaginários sociais. E esses imaginários podem ser mudados ou ampliados. É como se fossem informações em nuvem a que todo mundo recorre para formar opiniões.
A chave para combater a percepção negativa que uma comunidade tem de um grupo social, portanto, é agir para mudar os imaginários acerca desse grupo. É o que os gays têm feito. Pouco tempo atrás, a palavra “homossexual” já traria de imediato à mente apenas noções depreciativas como “promiscuidade sexual” ou “doenças venéreas”. Mas hoje, há um intenso trabalho de vários setores da sociedade, notadamente da mídia, para importar para o real características mais amplas e positivas sobre os homossexuais. Hoje, as pessoas já conseguem ativar conceitos como “cidadão”, “profissional”, “pai”, “mãe” quando ouvem a palavra “gay”.
E isso é um passo importante para combater o preconceito, pois altera aquelas informações que estão no imaginário e que vão nos ajudar a formar conceitos, ter opiniões e fazer julgamentos. As mulheres travam essa luta há mais tempo. Há um século o imaginário sobre elas trazia primeiramente as ideias de “mãe”, “virgindade”, “pureza”, “recato”... Hoje, já se vê a mulher compartilhando traços antes comuns apenas aos homens.
Portanto, toda luta contra preconceitos se dará em algum momento dentro do discurso. Nossos problemas referentes à aceitação do que nos é estranho estão, em algum grau ligados à dissonância entre os conceitos de realidade e real. Ou seja, o que não aceitamos nos gays, negros ou mulheres, são traços de sua realidade que se nos impõem e que não cabem dentro do nosso código linguístico e por extensão moral e ético. Mas o real pode e deve ser alterado, visto que é cruel exigir de alguém que abra mão de sua essência apenas para caber dentro da minha capacidade cognitiva. A realidade se impõe à nossa ignorância.