quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Gênero. Por que essa palavra
assusta os conservadores
     Já discuti aqui outras vezes sobre o poder da linguagem. Através dela criamos uma matrix dentro da qual nos relacionamos socialmente. A dependência é tão grande que acabamos por ignorar a realidade e vivemos dentro de um simulacro de realidade criado pelas palavras. Chamamos essa realidade mediada de "real". As palavras nos aprisionam em um mundo fictício em que sofremos temendo o peso delas: câncer, inflação, crise... Muitas vezes o assombro não corresponde à realidade. Mas as palavras também libertam. É o discurso que é capaz de mudar a matrix, através da alteração dos conceitos que circulam nos imaginários sociais e, por tabela, alterando ideologias, opiniões, conhecimentos.
    E foi essa a estratégia usada para libertar escravos, dar direitos a mulheres. Alguém trouxe para o discurso, para a linguagem, traços novos desses dois estratos sociais para além dos  clichês que circulavam socialmente. Com o tempo, negros passaram a ser também meu amigo, meu genro, meu professor, meu médico. As mulheres, de donzelas e parideiras passaram a ser trabalhadoras, políticas, casadas e solteiras por escolhas.
    Agora é a vez dos gays, outro personagem que ainda continua escravizado a concepções medievais, eivadas de mitos, medos, preconceitos. A missão: mudar o marketing em torno de si. Fazer com que homossexuais deixem de ser vistos apenas como "pessoas que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo" e se tornarem cidadãos multifacetados, como o restante da população.
    Mas, como fazer isso? A grande sacada foi retirar a discussão de searas religiosas e ligadas a patologias. Ou seja, não se trata de discutir o que a Bílblia ou a Biologia pensa dos gays. Mas reconhecer que legalmente eles têm o direito a ir e vir sem ter de se desviar de lâmpadas fluorescentes macetadas sobre suas cabeças e pastores evangélicos raivosos vociferantes.
    Daí a ideia de se discutir o conceito de gênero. Segundo essa lógica, homens e mulheres héteros ou gays sofrem com expectativas de comportamento e não com o fato de serem uma coisa ou outra. Ou seja, não se discute sexo mas gênero. A discussão passa a ser sobre o que é papel de um ou de outro gênero e se de fato tem de existir essa definição. Isso não é novidade, as mulheres também usam dessa lógica. 
     Não se viu nenhuma mobilização significativa, exceto um ou outro fanático religioso, se mobilizando contra argumentos como "a mulher pode ocupar qualquer papel social"; "lugar de mulher não é na cozinha"... Ou seja, esse é o mesmíssimo discurso do qual agora a "tradicional família brasileira" quer apear os gays. Ninguém está pedindo que héteros sejam convertidos em gays ou vice-versa. O que se discute é: devemos repensar a nossa noção de gênero, descolá-la da noção de sexo. 
    A expectativa de comportamento causa sofrimentos. Muitos casos de bullying tem sua origem no fato de uma criança não se comportar rigorosamente como outros esperam que ela se comporte.
    Mas se o conceito não é novo, por que os conservadores tanto o temem. Primeiramente, é porque para sorte de muitos, os reacionários são lentos e bitolados. Só agora eles pensam ter entendido a teoria dos gêneros. Em segundo lugar, porque eles perceberam que a teoria é lógica e pode ruir todo o discurso de ódio deles.
    As novas gerações já discutem e entendem a noção de que gênero é construído socialmente. Tanto, que hoje em dia meninos já não se importam em usar calças coladas ao corpo ou de cuidar do cabelo e da pele. Ou seja, eles perceberam que muitas imposições comportamentais têm base apenas em mitos, em preconceitos e podem ser mudadas. O temor dos conservadores é que essa forma mais racional, científica de analisar a questão dos gays se espalhe e torne a análise com base na crença, em dogmas, desacreditada até dentro das Igrejas, como ocorreu com a teoria de que negros não teriam almas...
    Aos arautos dos bons costumes, do certo e do errado, não interessa uma discussão racional. Para eles, tem de pairar sempre como pano de fundo de todo debate a ideia de que tudo está escrito na Bíblia e para azar dos gays, em meio a tantas palavras, a Bíblia não conhece o termo "gênero".