terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Carroçandei
     Na faculdade, ouvi de um professor de Literatura que o maior estímulo para a leitura e escrita vem das tias. Ele se referia não às professoras mas às tias mesmo. Segundo ele, são elas que, descompromissadas da severidade da educação cotidiana, têm tempo para contar histórias e estimular a criatividade dos pequenos. Não sei se ele tinha embasamento científico para essa teoria. Sei que a proposta encontrou eco na minha história. Sempre estive rodeado dessas figuras e de fato, eram cheias de histórias. Mas isso vale um outro texto. As histórias que mais me influenciavam eram contadas sem querer. Na verdade eram cantadas a plenos pulmões, à capela, acompanhadas apenas do barulhinho da água escorrendo da torneira e da roupa batida no tanque. É essa a lembrança mais antiga e mais persistente que eu tenho da minha mãe. E, sem dúvida, a mais marcante.
     Pequeno, ficava ao pé do tanque brincando de transportar o que estivesse à mão num caminhãozinho de plástico. Mas o que me transportava mesmo para além daquele cenário era a música. Minha mãe tinha um repertório limitado. Todo mundo tinha um repertório musical limitado nas décadas de setenta e oitenta. Afinal, sem internet, só se cantava o que o rádio ou o Flávio Cavalcanti ou outro apresentador da TV apresentassem. Eu me recordo de duas músicas em especial: “Ilha da Maré” e “Foi Deus que fez você”. A primeira, da Alcione e a segunda, da Amelinha. Não havia como fugir da música. Minha mãe cantava até perder o fôlego e eu era a única plateia. Mas eu não me entretinha só com a melodia. Ia tentando construir imagens com o que ouvia: “Ah, eu vim de ilha de Maré, minha senhora, pra fazer samba na lavagem do Bonfim...” Até esse ponto, a única palavra que fazia sentido para mim era “lavagem”.  Imaginava uma porção de porcos num chiqueiro. “...Saltei na rampa do mercado e segui na direção...” Aí os porquinhos já estavam sendo vendidos no mercado. Faz muito sentido.
     Mas havia um ponto dessa música que me causava grande desconforto: “Aí de carroça andei, comadre; Aí de carroça andei, compadre...”. Meu Deus, mas o que seria “carroçandei”? Aquela palavra era a pedra no caminho pelo qual a canção me levava. Era a peça que não encaixava, era um desafio. A cada vez que chegava ao refrão eu me esforçava para entender. Mas nada, aquilo não fazia nenhum sentido. O curioso é a ilusão de achar que era só o inusitado verbo "carroçandar" que eu não entendia. “Maré”, “samba”, “cortejo”, nada disso também tinha significação para mim. Mas nenhuma desas palavras me intrigava. Só carronçandei me fazia parar e apurar os ouvidinhos em direção à minha mãe. Sem ter noção disso, ela me apresentava talvez meu primeiro dilema na morfologia da língua.
     Anos depois surgiu também um problema semântico. Mas aí, o problema vinha de uma interpretação errada da cantora, no caso, minha mãe. É que na música “Foi Deus que fez você”, Amelinha dizia: “Fez até o anonimato dos afetos escondidos”. Mas minha mãe cantava: “Fez até o amor no mato dos afetos escondidos”. Em tempos de  funk, essa versão da minha mãe seria até fofa. Mas custava-me crer que em tempos tão recatados uma canção pudesse trazer tal epifania: “Foi Deus que criou o amor no mato”. Para minha mãe, não havia problema; problema para ela seria “anonimato”, afinal, que troço é esse? E seguia cantando assim mesmo. Como não tínhamos o LP da Amelinha, só vim a descobrir a letra original com a internet. E a safadeza foi desfeita.
     Mas a remoção da pedra não importa na educação. Na aula que minha mãe me dava enquanto lavava a roupa, o que importava era eu carregar as palavras e os seus sentidos tortos no meu caminhãozinho de plástico. Era o que minha mãe podia me dar lavando roupa. E aí de carroça andei.