segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Prova de redação já havia vazado há um ano

Corrija sua própria redação: clique aqui

      Entre todas as possibilidades de temas sugeridas pelos alunos, a que eu mais refutei foi a da Intolerância religiosa. E por quê? Primeiro porque é um tema polêmico e o Enem não costumava trabalhar com esse produto. Em segundo, porque o tema inclusive com os mesmos textos de apoio, havia sido vazado em outubro de 2015 e o MEC garantiu que a prova era falsa de gente irresponsável que seria processada pela Polícia Federal. Seria, no mínimo, estranho que o MEC plagiasse uma prova fake de gente que seria processada pela Polícia Federal. Qual era a proposta da prova  fake de gente  que seria processada pela Polícia Federal? "Os caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil". No sábado cheguei a enviar essa prova  fake de gente que seria processada pela Polícia Federal para um aluno do 2º ano com a mensagem que hoje soa irônica: "Pelo menos sabemos o que não será "intolerância religiosa". E foi. O MEC argumenta que tudo não passou de uma "coincidência". Além desse vazamento há um ano, a Polícia já descobriu no Ceará alunos que entraram para fazer a redação com uma cópia exata do tema deste domingo no bolso. Em 2009, quando o tema vazou,  o Enem foi cancelado. Com a palavram o MEC.

sábado, 5 de novembro de 2016

Dicas de última hora
para a redação do Enem
     Ponha título, espalhe as propostas de intervenção pelo texto e abuse da palavra "outrossim". Brincadeirinha! A redação do Enem não pede título; reúna as propostas de intervenção no último parágrafo, para facilitar a correção e usar palavra difícil só dava certo quando o Rui Barbosa corrigia as redações.
     Lembre-se: quem vai corrigir sua redação tem poucos segundos para fazer isso. E, como você, a esta altura do campeonato deveria saber, quando alguém que domina um tipo e um gênero textual vai ler um texto, tem uma expectativa do que vai encontrar no que se refere à estrutura. A única surpresa que se espera é quanto à qualidade da tese, dos argumentos e da conclusão. Jamais quanto à estrutura. 
     O que isso quer dizer? Não decepcione o leitor. Não altere a estrutura que o professor que vai ler seu texto espera encontrar. Por quê? Porque assim ele vai se fixar mais no conteúdo do seu texto, vai conseguir ler com mais rapidez e fluência. Por exemplo: a priori, a conclusão pode vir espalhada pelo desenvolvimento. Mas não é essa a expectativa do leitor. Quem vai corrigir o seu texto espera vê-la no último parágrafo. Por que você vai frustrar a pessoa que vai dar a nota na sua redação? Melhor não, né?
     Algum oráculo, no entanto, pode ter-lhe dito: "ah, se você põe a sugestão ao lado de cada argumento, facilita a análise". Não, mesmo, porque a correção segue a planilha de competências que você já conhece e a conclusão é a última coisa a ser avaliada. Se você a mistura com os argumentos, o professor terá de retornar e reler o desenvolvimento para pescar dali cada proposta. Acredite: ele não vai lhe dar uma estrelinha por isso...
     A dica-mor neste momento é: faça letra legível e dê o espaço de início de parágrafo. Não condense a letra para caber nas 30 linhas. Se possível, faça letra de imprensa. Por que essa dica é importante? Simples: se o professor não conseguir ler seu texto ou mesmo saber onde começa e termina cada parágrafo, de que adianta você ter feito uma redação maravilhosa? Gastou seus outrosins à toa.
      Agora, quanto à estrutura: elabore uma tese simples, clara e objetiva. Nunca a desenvolva na introdução. Ou seja, a tese deve apenas conter um ponto de vista e não desdobramentos, causas ou consequências. Desdobramentos, causas e consequências são da instância do desenvolvimento e não da introdução. Exemplos de teses objetivas:

Teses:
A escola precisa combater o bullying a todo custo.
A tragédia de Mariana deixou algumas lições para o Brasil.
O Brasil tem muito a colaborar com os refugiados sírios.
A obesidade infantil é um risco à saúde pública.
Viver de forma sustentável é se preocupar com o bem comum.

O que não se deve fazer:
A escola precisa combater o bullying porque prejudica o desenvolvimento das crianças.

      A partir do "porque" é desenvolvimento. Não desenvolva a tese na introdução. O fato de o bullying prejudicar o desenvolvimento da criança é um argumento e não parte da tese.

    O texto dissertativo argumentativo, portanto, deve conter introdução (apresentação da tese), desenvolvimento (defesa dos argumentos) e conclusão (no caso do Enem, a apresentação das propostas de soluções para o problema configurado na tese).

INTRODUÇÃO
     A introdução serve para que você contextualize o tema, sensibilize o leitor sobre a relevância dele e apresente sua tese.  Para isso, você pode recorrer a dados estatísticos, exemplos ou ordenações temporais (leia sobre isso). Veja exemplos de introduções:

Refugiados 
     A crise dos refugiados não pode ser medida pelo número de corpos que aparecem boiando no mar Mediterrâneo.  Por envolver o desrespeito a direitos fundamentais do ser humano, é necessário que o mundo todo se mobilize para resolver o problema. O Brasil pode fazer a sua parte para ajudar os refugiados.


Bullying
     Apelidos, insultos,  intimidações. Passar pela vida escolar sem ser vítima pelo menos uma vez desse tipo de "implicância" é quase impossível.  Mas quando isso se torna algo sistemático caracteriza bullying e precisa ser combatido a todo custo.


Tragédia de Mariana
    Há exato um ano, o rompimento da barragem de uma mineradora varria do mapa o  distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A lama causou mortes e enormes prejuízos  ao ecossistema. Ainda hoje se discutem as ações legais contra os responsáveis. Mas, para evitar que o desastre se repita,  é preciso que o Brasil aprenda algumas lições com a tragédia.

DESENVOLVIMENTO
     O desenvolvimento é a instância de comprovação, de defesa do ponto de vista que você expressou na tese. Um conselho quanto à estruturação desses argumentos: use apenas dois, um no segundo parágrafo e outro no terceiro. Você tem apenas 30 linhas. É melhor fundamentar bem dois argumentos do que citar de forma superficial uma porção deles. Como se elaboram os argumentos? Crie uma tese clara e objetiva e pergunte a ela: "por quê?" ou "Como?", "Quais?".

CONCLUSÃO
    No caso do Enem, a conclusão deve apresentar propostas que resolvam o problema expressão na tese. O ideal é que essas propostas sejam especificadas, na medida do possível, expondo-se:

O que fazer?
Quem deve fazer
Como se deve fazer

    Veja a seguir um exemplo de um texto feito a partir da tese "O Brasil também deve colaborar para a solução da crise dos refugiados sírios.":


TEMA:
"O papel do Brasil na crise dos refugiados"

INTRODUÇÃO:
     A crise dos refugiados não pode ser medida apenas pelo número de corpos que aparecem boiando no mar Mediterrâneo. O problema há muito ultrapassou as fronteiras da Europa e exige uma ação global. O Brasil também deve fazer a sua parte.

ARGUMENTO 1
     Uma forma de o país ajudar os refugiados é não se negando em recebê-los. A história nos mostra que a chegada de levas de estrangeiros pode, a longo prazo, melhorar a economia interna. Países como Brasil e Estados Unidos devem boa parte do seu desenvolvimento econômico e social à colaboração de imigrantes. Novos povos trazem diversidade cultural e novos modos de empreender.

ARGUMENTO 2
     Além disso, o Brasil deve atuar política e humanitariamente em busca de solução para o problema. Nosso país tem um bom currículo quando se trata de atuação para atacar problemas humanitários.O papel dos nossos pracinhas na Itália, durante a II Guerra, é lembrado até hoje como exemplo de diplomacia. A experiência recente no Haiti também habilita o pais a busca por soluções que vão além do confinamento de refugiados em campos de triagem como tem ocorrido na Europa.

CONCLUSÃO
     Portanto, o Brasil não pode se negar a ajudar os refugiados. Para viabilizar essa ajuda, o Governo deve, então, agir para conter discursos xenófobos. Isso pode ser feito através de campanhas publicitárias e da atuação das escolas. Empresas, ONGs e Igrejas, por sua vez, podem atuar no suporte humanitário e burocrático àqueles que solicitam o refúgio. O contato com organizações internacionais orientariam essas entidades nesse trabalho.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A verdadeira reforma do ensino médio
     A cada nova divulgação das notas do  Enem, a internet é invadida por rankings que acirraram a competição entre escolas e redes de ensino. Essa competição não é incentivada pelo Ministério da Educação (MEC), que alega que a nota no Enem não é o único viés capaz de traduzir qualidade de ensino. No entanto, há lições que o MEC poderia tirar desses rankings, como por que quatro das 10 escolas com maiores médias em redação estão no Piauí. Sim, o Piauí, o estado que tem as piores médias gerais no exame, um dos lugares mais pobres do Brasil.
     Ou, por que as escolas federais têm rendimento tão acima das demais públicas? Nunca ocorreu ao Governo que a verdadeira reforma seria ouvir essas escolas? Que metodologia seguem? São de tempo integral? Usam livros didáticos? Qual a formação dos professores? Quanto ganham? É verdade que uma reformulação precisa ser feita. Temos disciplinas demais, uma não conversa com a outra e nenhuma fala a língua do aluno. Mas é mais óbvio ainda que se se preocupasse em repassar boas experiências, seria muito mais provável que a qualidade de ensino melhorasse.

     Fiquemos no nosso quintal. O Cefet-MG tem, em Divinópolis, a maior média em Redação: 748,94. Já a maior nota de uma escola estadual da cidade é a da Monsenhor Domingos: 580 na redação. Nunca ocorreu à Superintendência de Ensino sequer a curiosidade de saber como os professores do Cefet-MG trabalham a redação? Nunca pensaram em buscar cooperação em outra escola pública da mesma cidade? Suponho que a resposta seja não. 

     O mesmo vale na relação com as particulares. É claro que a teimosia do Cefet em não abrir mão de aulas teóricas em salas calorentas influi no rendimento dos alunos. Do mesmo modo, a abertura do Colégio Integral a projetos que façam o aluno transitar por ambientes e áreas de conhecimento mais arejados deve repercutir em seu bom desempenho no Enem. 
     Conclusão: para o país, não importa quem está na frente no ranking, se o que uma escola tem de bom não contaminar a outra. A reforma proposta pelo governo terá efeitos muito limitados porque apenas corrige absurdos, como o excesso de aulas em sala calorentas. Mas não vai melhorar a qualidade dos professores. Não vai fazer com que procurem se atualizar. Uma reforma que não passe pela melhoria dos salários dos professores e pela total revisão do conteúdo ensinado e da forma como é ensinado não resolve os problemas do Ensino Médio.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Entenda as competências usadas
para corrigir as redações do Enem
A redação do Enem é corrigida com base em cinco competências:
1. Norma formal da língua
2. Compreensão do tema e do tipo textual
3. Coerência argumentativa
4. Coesão
5. Conclusão

     Para se preparar para fazer a redação do Enem, é essencial entender como esses itens são avaliados. Que tal corrigir alguns textos para treinar cada competência?  Eu selecionei 5 textos: 4 sobre o tema “A persistência da violência contra a mulher no Brasil” e um sobre o tema “O histórico desafio de se valorizar o professor”. Ambas as propostas foram solicitadas na última edição do Enem.
    Leia cada texto, clicando no link abaixo, em que você também tem acesso à planilha de correção. Depois, acesse o link de pontuação de cada texto Você vai corrigir as redações em cada competência. Para saber as notas médias dadas por todos que corrigiram e por mim, acesse o link do  resultado, que estará disponível a partir da tarde quinta-feira. Os textos para correção foram gentilmente cedidos por alunos ou elaborados especialmente para esse exercício.

Textos para correção: clique aqui
Para avaliar o texto 1: clique aqui
Para avaliar o texto 2: clique aqui
Para avaliar o texto 3: clique aqui
Para avaliar o texto 4: clique aqui
Para avaliar o texto 5: clique aqui
Nota média dada pelos leitores e pelo professor: clique aqui



Cefet-MG é 1º lugar em Divinópolis
no ranking do Enem por Escola 2015

O que pode ser tema da Redação do Enem: clique aqui

     Depois de divulgar no dia 4 de outubro as notas do Enem/2016 por escolas sem a maioria dos Institutos e Centros Federais, o Inep soltou nesta terça uma nova planilha incluindo essas instituições. O Cefet-MG manteve o 1º lugar em Divinópolis quando levada em conta a média entre as notas da parte objetiva e da redação. A escola teve nota média de 652,44 pontos. Em relação às demais unidades do Cefet-MG, a escola mantém o 3º posto, atrás de Belo Horizonte, com média de 673,36 e Timóteo (669,02). A escola era a primeira entre as unidades do Cefet-MG até o Enem de 2013. Em redação, no entanto, a unidade de Divinópolis tem a maior média entre as unidades: 748,94 pontos. 

sábado, 15 de outubro de 2016


Dia do Professor
    As homenagens pelo Dia do Professor são bastante reveladoras do imaginário que permeia essa profissão."Valorização", "amor", "sacrifícios", são termos praticamente indefectíveis nas mensagens. Há,  nitidamente,  uma percepção quase unânime de que o professor não é um profissional "reconhecido". 
   Não compartilho dessa análise.  Muitos professores são mal remunerados. Mas, reconhecimento, é um conceito subjetivo. Ser professor é sim uma profissão tratada com respeito socialmente. É nítida a simpatia e afeição das pessoas quando revelamos ser professores. É bobagem, no entanto,  traçar comparações entre a forma como a sociedade trata ídolos de futebol ou do funk e os professores. Preconceito puro. Neymar e MC Bin Laden não concorrem em prestígio com professores. Não querem ensinar nada, só encantar.
    Aliás, professores também encantam. Também têm seu palco e seu público cativo. Muitos, no entanto, perderam ou nunca desenvolveram a capacidade de ler a admiração em seus alunos. Rubem Alves dizia que ser professor é ser imortal porque continuamos a viver naqueles cujos olhos aprendem a ver o mundo pela magia da nossa palavra. Verdade. O professor reclama da falta de valorização mas não reconhece que a evolução do aluno é o maior reconhecimento possível. Esse é o  nosso gol; esse é o nosso sucesso.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Portaria proíbe cultos religiosos no Cefet-MG
    O Diretor Geral do Cefet-MG, Flávio Santos, publicou uma portaria que proíbe a realização de cultos religiosos dentro dos campi da instituição. Segundo o documento, a proibição se baseia na Constituição Federal, que veda ao Estado promover por qualquer meio eventos religiosos. A portaria foi publicada em 16 de setembro, ou seja três meses após ter sido realizada no Cefet de Divinópolis uma missa, com apoio da Diocese da cidade. A Constituição de 1988, em seu artigo 19, proíbe esse tipo de evento em instituições públicas:

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
II - recusar fé aos documentos públicos;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Ministro cogita retirar redação do Enem
     O ministro da Educação Mendonça Filho expressou recentemente o desejo de retirar a prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O pretexto, segundo ele: economizar 200 milhões de reais por ano, gastos na correção da prova. Ainda que o próprio Mendonça, na mesma oportunidade, considere que "haverá resistências à ideia", a simples manifestação do desejo do ministro é o fato mais preocupante dentre todas as ilações duvidosas que o governo provisório deixou escapar até agora. O Enem não é uma mera prova de seleção de candidatos para a entrada na graduação. É também uma proposta de reforma, de redirecionamento da educação básica. Ao supervalorizar a produção de texto, o Enem aponta para qual seria de fato a função precípua da escola: ensinar a organizar informações, elaborar ´pontos de vista, defendê-los e propor soluções. Afinal, não são essas características elementares para um pesquisador? Não seriam esses traços indispensáveis a qualquer cidadão consciente?
     É bem verdade que se o intuito do Enem é provocar escolas e professores a reverem seus conteúdos e metodologias de ensino, ainda é cedo para dizer se está funcionando. Mesmo porque não basta a boa vontade do MEC para que isso aconteça. De nada adianta mostrar a professores a linha que devem seguir se não lhes for dado o preparo para compreendê-la. E, infelizmente, nossas faculdades de formação de docentes ainda não entenderam isso. Ainda não são capazes de formar professores que se interessem em dissecar as técnicas de produção de texto bem como  as melhores estratégias de sua abordagem em sala de aula. Há as exceções de sempre: escolas particulares e federais, que se tornam ilhas de excelência e não parecem ter o poder de influenciar as sofríveis redes estaduais e municipais de ensino.
     Mas, acabar com a redação no Enem significaria retroceder no pouco que se ganhou e dar adeus a qualquer perspectiva de melhora na educação. Desde que o Enem ganhou o atual status, em 2010,  a produção de texto tornou-se o carro-chefe de qualquer escola que se preze. Alunos passaram a investigar se a escola tem aulas específicas de Redação e qual seria a reputação dos professores. É um avanço enorme. Se não está no ritmo esperado, o que se deve fazer é buscar meios para que a boa experiência das escolas federais, cujos alunos  costumam ter índices de desempenho no Enem equivalente aos de estudantes de países evoluídos se espalhe e não brecá-la. 
     É bom lembrar o ministro que os 200 milhões de reais que ele quer economizar incluem formação de professores para a correção das provas. Ou seja,  esse valor é empregado também na formação de multiplicadores: cada professor que corrige as redações volta depois para a sala de aula com muito mais conhecimento sobre o texto. Em vez de extinguir uma boa experiência, o ministro deveria pensar em uma forma de levar o know-how dos Cefets, Institutos Federais, colégios de aplicação a todas as escolas do país. Já que pôs fim ao Ciência Sem Fronteiras, que tal promover um intercâmbio interno de professores e alunos? Que tal aproximar escolas que muitas vezes ficam no mesmo bairro e estão a anos-luz uma da outra quando o tema é qualidade ensino? Que tal ampliar programas de iniciação científica, como o Bic-Jr, fazendo com que estudantes da rede estadual, por exemplo, sejam orientados em redação, matemática... por professores das escolas federais? 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A Santa Missa em sua escola
     É comum assistir ao debate sobre a presença de símbolos religiosos em repartições públicas brasileiras. O Ministério Público tem-se posicionado contra e aguarda-se uma posição do STF sobre o tema. Essa pode até ser uma questão polêmica para alguns. Muitos alegam que o símbolo em questão pode ser uma manifestação íntima e silenciosa deste ou daquele servidor, sem se falar no valor artístico que se pode atribuir a esses objetos ou imagens.
    Já a realização de missas dentro de uma instituição pública parece ser uma afronta ostensiva à laicidade do Estado Brasileiro e à Constituição Federal de 1988. O artigo 19 da Constituição Federal está assim redigido:


Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
II - recusar fé aos documentos públicos;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

       Com relação ao que se discute aqui, interessa-nos apenas a vedação contida no inciso I acima. Nele, parece evidente que é vedado ao Estado subvencionar (ajudar, colaborar com) cultos religiosos bem como dificultar seu funcionamento. De acordo com o jurista Pontes de Miranda,  a referência da Constituição a “estabelecer cultos religiosos ou igrejas" está em sentido amplo: significa criar religiões ou seitas, ou fazer igrejas ou quaisquer postos de prática religiosa, ou propaganda. Ou seja, não inclui a realização de cultos. 
     A questão é o verbo "subvencionar". Ou seja, o Estado não pode colaborar de forma alguma para a realização de cultos religiosos. Ainda segundo Pontes de Miranda, por "subvencionar", entenda-se "concorrer, com dinheiro ou outros bens da entidade estatal, para que se exerça a atividade religiosa."  Assim, parece claro que o uso de prédios ou quaisquer bens móveis ou imóveis do Estado para a celebração de cultos religiosos constitui-se numa subvenção à prática religiosa.
     Para aqueles que queiram se apegar à ressalva da "colaboração de interesse público, na forma da lei", o jurista explica que "é certo que essa colaboração não poderá ocorrer no campo religioso." Essa colaboração a que a Constituição alude está ligada a questões práticas e de interesse comum, como a parceria em projetos de assistência social, humanitários ou educacionais mas a religião ou, mais grave, uma determinada religião, não pode ser o fim dessa colaboração.
          É manjada também a velha estratégia de qualificar os defensores do Estado Laico, conquista constitucional desde 1890, como "ateus", dando ao termo um ar de xingamento. Há ainda os que, após serem pegos usando a estrutura pública para privilegiar uma religião, argumentem que ninguém foi obrigado a participar ou que, se outras religiões quiserem, o espaço está aberto. Não,  não está.  Estado Laico não significa nem Estado ateu e nem Estado multirreligioso. Significa Estado neutro quanto a crenças religiosas.
     Ainda que a intenção seja boa - trazer reflexão, espiritualidade, paz - não parece ser algo necessário e muito menos saudável à democracia trazer uma missa católica para dentro de uma repartição pública ou escola, como aconteceu no Cefet de Divinópolis. Primeiro, porque o ensino público brasileiro não é confessional. Existem espaços na sociedade destinados aos cultos religiosos. Segundo, porque não deixa de ser uma intimidação a praticantes de outras religiões, a ateus, agnósticos ou a qualquer pessoa que preze pelo Estado laico. 


Referências
https://jus.com.br/artigos/22219/brasil-a-laicidade-e-a-liberdade-religiosa-desde-a-constituicao-da-republica-federativa-de-1988

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A maioria nem sempre consegue tomar o café antes de ir para a escola

Aulas às 7 da manhã tira
o sono de muitos alunos
     Cedo demais. É essa a opinião de 94% dos alunos entrevistados no Cefet-MG de Divinópolis sobre o horário mais comum de início das aulas no Brasil: 7 da manhã. E para 73%, o horário ideal para estar na escola seria entre 8h e 9h da manhã. A pesquisa, feita dias 2 e 3 de junho, faz parte de uma atividade dos alunos de Redação da 2ª Série integrada e ouviu 100 alunos da primeira à terceira séries. Não existe uma determinação legal sobre a hora de início das aulas no Brasil. Abrir os portões às 7 da manhã é uma prática que se baseia apenas no costume e na conveniência. Escolas normalmente se guiam pela mesma lógica de organização do trabalho, com turnos e divisões em departamentos. E no imaginário brasileiro, é sempre melhor começar a trabalhar com o cantar do galo. Afinal,  “Deus ajuda quem cedo madruga”, já diz o ditado popular.
     Mas estudos sobre sono e saúde têm colocado a crença em xeque. Isso porque com o aumento da carga de estudos e de ocupações sociais dos estudantes - inglês, balé, musculação, internet, lição de casa... - é cada vez mais improvável que consigam dormir as 8 ou 9 horas receitadas pelos especialistas. A pesquisa feita no Cefet-MG confirma isso: 53% dos entrevistados admitem que só conseguem pegar no sono após as 23 horas. Isso, para estar de pé entre 5h e 6h da manhã (68%). É o caso do João Vitor Morais Rocha, da 2ª Série do curso de Informática do Cefet Divinópolis: “eu durmo em média seis horas por noite e sempre vou para a escola cansado e desanimado”, conta. O horário apertado pode ainda influir na nutrição dos estudantes. Segundo o levantamento, 63% dos entrevistados admitem que muitas vezes deixam de tomar o café da manhã para poderem responder “presente” às sete em ponto.
      São dados como esses que têm feito escolas repensarem se vale a pena obrigar alunos e professores a estarem em sala de aulas às 7 da manhã. Alguns escolas têm trocado os turnos, colocando crianças pequenas de manhã e adolescentes e adultos à tarde. Isso porque, além de precisarem de menos horas de sono, os pequenos têm mais facilidade para adormecer. Na pequena Fairfex, cidade de menos de 30 mil habitantes do estado americano de Virgínia, um mãe, cansada de ver crianças perambulando como zumbis para as escolas ainda de madrugada, comprou há 11 anos uma briga com o Estado. E venceu: desde 2015, as escolas da cidade começam as aulas às 8h10 e não mais às 7h.  
     No Brasil, além da tradição, a mudança poderia encontrar resistência nos próprios pais, que costumam despachar os filhos para a escola antes de irem para o trabalho e não teriam como se ajustar a novos horários. Isso não quer dizer que não haja quem recomende a mudança. O professor Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, alega que não faz sentido as aulas começarem às 7 da manhã. Para ele, as escolas não levam em conta o sono do estudante e acabam por prejudicar o rendimento escolar. Dormir, segundo ele, ajuda no aprendizado e o ideal seriam aulas começando às nove da manhã. (lcg)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ex-aluno do Cefet Divinópolis
conduz a tocha olímpica
      O ex-aluno do Cefet-MG em Divinópolis, Matheus de Oliveira Xavier, foi um dos selecionados para carregar a tocha olímpica durante a passagem por Minas Gerais. Matheus se formou em Informática no Cefet-MG em 2010  e foi escolhido devido a seu trabalho na internet de divulgação de informações a pessoas com diabetes. Ele convive com a doença desde criança e falou sobre isso em entrevista ao Jornal Nós, antigo periódico do câmpus. Ele também foi matéria do Bem Estar, da Globo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Retórica e Argumentação
     Para Platão, a retórica é a arte de manipular através da emoção. Para Aristóteles, é a exposição de argumentos que visam a persuadir. Já Quintiliano define retórica como “a arte de falar bem”. Falar bem, emocionar, persuadir. Essas três abordagens apontam para as três dimensões necessárias para que a retórica se manifeste: o orador, o auditório (aquele que precisa ser convencido de algo) e a mídia. Por mídia, entende-se a linguagem, em suas várias formas de expressão: falada, escrita, pictória ou visual. A essas três dimensões, por sua vez, associamos os três elementos da retórica: o éthos (a imagem prévia ou criada do orador), o páthos (a emoção que se quer suscitar no auditório) e o lógos (a racionalidade da linguagem). Para quem acha essas palavras esquisitas, basta lembrar que "ética" origina-se de éthos, ou seja, uma virtude que deve ostentar o orador. Já quando alguém diz que não se simpatizou com alguém, quis dizer que o éthos do outro ou o seu discurso, lhe despertou um phátos, uma emoção negativa.
     Platão considerava que é o phátos - e não a verdade, a razão - que comanda o jogo da linguagem no discurso retórico. Aliás, Platão é o responsável pela má fama da retórica entre nós. Sua percepção de que a retórica é manipulação através do emocional denegriu a imagem da retórica. Não sem razão, claro. Quando tomados pela emoção, supervalorizamos e idealizamos uma resposta, uma suposta verdade e nos esquecemos da pergunta, do problema que a originou. E não é isso que costuma ocorrer em discussões políticas? Frente a problemas, como a corrupção, boa parte da população fica cega de paixão por uma resposta que se dá ao problema, segunda a qual toda a culpa caberia a um partido, a um governante, por exemplo. Poucos procuram as raízes do problema.
     É interessante, pois, separar os conceitos de retórica e de argumentação. A argumentação se preocupa com o problema, com a pergunta e a partir desse problema elabora premissas ou argumentos que possibilitam sua análise. Já a retórica parte de uma resposta, de uma suposta verdade e a defende, lançando mão para isso da linguagem (lógos), da imagem do orador (éthos), para gerar emoção no auditório (phátos) que, cego de paixão, aceitaria aquele pressuposto como verdade. A paixão cega porque faz com que aquele ou aquilo que se defende apaixonadamente passe a se revestir de qualidade que nós atribuímos a ele como se fossem reais.
     Os sofistas, entre os séculos V e I aC são considerados os primeiros advogados. Foi deles a ideia de sair pela Grécia cobrando-se para defender verdades. Esse ato provocou mal estar entre filósofos como Sócrates e Platão. Era um desvirtuamento da Filosofia, que prima pela razão, pela lógica e sobretudo pela sondagem do problema. Fato é que a prática se difundiu e a retórica ganhou força com a representação política, com a profissionalização doas advogados e, principalmente, com a sofisticação da mídia. A TV tem recursos elaborados para patemizar - provocar o phátos. Imagens, trilha sonora, cores e versos. Quem resiste? A publicidade também descobriu o poder da retórica. Produtos são associados à imagem (ao éthos) de celebridades, embrulhados em seus supostos princípios e valores sociais e vendidos a apaixonados consumidores que ignoram a real necessidade do que se compra.
     Hoje em dia, a Análise do Discurso, que como todo ramo da linguística não emite juízos de valor, define a retórica como “todo esforço usado para reduzir a distância entre dois pontos de vista conflitantes”. Esse conceito não se preocupa em hierarquizar os elementos da retórica ou em julgá-la. Deve-se a Aristóteles o resgate da Retórica dentro das ciências. Ele não chega a inocentá-la, mas a classifica como “um mal necessário”. Para o filósofo grego, a retórica se insere em um vão que existe entre o literal e o metafórico; aquilo que pode ser, que se esconde por trás da certeza. A retórica trabalha, então, com uma verdade relativa. Algo que existe dentro do teatro discursivo, cujos atores são o éthos, o phátos e o lógos.
     Na prática, não há como dissociar retórica de argumentação. A não ser em situações artificiais, como na Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ali, embora o aluno não esteja proibido de patemizar, através da escolha lexical, por exemplo, o que se espera é a defesa de um ponto de vista com base em fatos, ou seja, pura argumentação.

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AMOSSY, Ruth (org.). Imagens de si no discurso: a construção do Ethos. São Paulo, Contexto, 2013.
ARISTÓTELES, Retórica das Paixões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MEYER, M. A retórica. São Paulo, Ática, 2007.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A crise da ignorância
     Quando vemos jovens comprando soluções imediatistas para a atual crise brasileira, é hora de pensar em como nossa escola trabalha conceitos básicos sobre a organização social. Nossos estudantes aprendem a ir à raiz do problema? Aprendem a problematizar ou apenas compram soluções vendidas a granel nas redes sociais, nas rodas de boteco? Há inúmeros conceitos como as teorias naturalistas e contratualistas sobre a origem da sociedade que merecem mais destaque na formação dos nossos jovens. Serão os adeptos do golpe militar ou de Bolsonaro, simpatizantes das ideias absolutistas de Hobbes?
     Bem, uma coisa de cada vez. Vamos nos centrar na questão da finalidade social. Vamos assumir que a sociedade é um consórcio instituído com uma finalidade clara: o bem comum, o bem da maioria. Não à toa, se diz que quando uma sociedade promove o bem apenas de uma parcela de seus integrantes, ela está mal organizada, “afastada dos objetivos que justificam a sua existência.”. Afinal, se é para viver cada um por si, não faz sentido suportar as inconveniências de viver sob regras que nos tolhem a individualidade.
     No entanto, o que é o bem comum? Esse conceito não se materializa na mesa de um presidente, por exemplo, como algo acabado e pronto. Para se chegar a decisões que afetem positivamente a maioria, é preciso que a sociedade ouça todas as demandas particulares. Para ser ouvido, um indivíduo ou um grupo de indivíduos precisa se manifestar em conjunto, de forma reiterada (repetida), obedecendo a uma ordem e sua demanda precisa se adequar ao momento histórico e às necessidades da maioria. É da análise dessas vontades que vão sair as decisões para o “bem comum”, ainda que não coincidam com a vontade de fulano ou sicrano.
    No entanto, em uma sociedade com tanta diversidade, como é possível essa manifestação? Uma boa analogia pode ser feita com a natureza. Se observarmos uma floresta, veremos quanta variedade co-existe em um pequeno espaço. São plantas, fungos, bichinhos... todos convivendo de forma harmoniosa. Como isso é possível? É, porque os movimentos ali são ordenados e obedecem a determinadas leis. Podemos dizer que todos ali reivindicam o seu lugar ao sol. Ou longe dele, dependendo o ser. Mas todos sabem que, para uma demanda ser atendida é preciso que ela seja feita de forma conjunta, insistente, deve seguir uma ordem e é preciso que ela seja adequada. Afinal, uma andorinha só não faz verão.
     Ao pé das grandes árvores, há sempre mudas pequenas. E elas vão continuar ali até que uma árvore grande caia e abra espaço e acesso à luz. Quando isso acontecer, haverá uma disputa entre as pequenas mudas para saber qual delas vai se erguer acima das outras. A natureza tem suas leis. Crescerá a mais saudável, a mais bem localizada, a maior, a mais apta. E as outras esperarão até que sua vontade de ser grande seja entendida como um bem à floresta. Isso vai acontecer, ou não no momento adequado. Essa lógica muda quando uma planta ou animal de outro ecossistema invade aquele sociedade. O invasor não conhece as leis dali, não tem as limitações impostas àqueles indivíduos. Ele não espera e se espalha à custa do conforto e da vida dos demais.
     E em nossa sociedade? Quem cumpre esse papel da natureza? O Estado. A sociedade delega a um poder concebido socialmente a prerrogativa de arbitrar entre duas vontades qual deve prevalecer. Para isso, a sociedade conta com ferramentas de controle social, que atuam nos casos de conflito. A moral e a religião são dois desses instrumentos. Funcionam. Mas estão longe de dar conta de toda a demanda e de maneira justa.
     Assim, quando o Estado decide que vontade prevalecerá, não tem ele a pretensão de estar instituindo a verdade ou o certo mas, com bases em leis previamente definidas, de eleger quem teria prioridade. O Direito é a ferramenta acordada numa sociedade como a nossa como sendo o mecanismo mais eficiente para arbitrar conflitos. Ele regula as prioridades e deveria fazer tudo funcionar em harmonia. Mas nem sempre é assim. Isso porque, ao contrário das plantas, não queremos sempre o mesmo na mesma ordem. Porque evoluímos. E o Direito não evolui com a velocidade que cada indivíduo considera adequada. As leis estão sempre atreladas a um momento histórico e cultural. Dessa forma, o Direito se alimenta de influências dos costumes em voga. Assim, uma reivindicação ignorada por ser considerada inadequada em um tempo, pode ser cabível em outro.
     Então, a sociedade só atende demandas que visam ao bem comum e isso está atrelado ao que a maioria considera adequado em um dado tempo e cultura. Isso quer dize que eu tenho de esperar que minha demanda seja considerada adequada? De certa forma, sim. Mas isso não significa imobilismo. Costumes mudam por força da ação e dos hábitos dos indivíduos. A demanda, por exemplo, pelo divórcio em 1950, seria rejeitada pelo Estado. Mas em 1980, aceita. Foi a ação conjunta, reiterada e organizada de parte da sociedade que fez com que o Estado concluísse, em 1979, que o divórcio era uma vontade cujos efeitos, ainda que contrários a preceitos religiosos e morais, levariam ao Bem Comum.
     Conclusão: erramos ao não conhecer os mecanismos sociais. Erramos ao optar por soluções fáceis como simplesmente depor um presidente. Crises como a atual deveriam nos levar a, conjuntamente, nos mobilizar para que ajustes sejam feitos no nosso ordenamento jurídico e nas práticas sociais. É preciso penas mais rígidas para corruptos, revisão da forma de governo, do sistema eleitoral? Seja qual for a mudança, é ela que deve mobilizar e levar milhões às ruas. Não o ódio, não a vingança, não o revanchismo. O problema é que no Brasil, a cada crise econômica ou social, corresponde uma ainda maior: a crise da ignorância.