terça-feira, 5 de abril de 2016

Retórica e Argumentação
     Para Platão, a retórica é a arte de manipular através da emoção. Para Aristóteles, é a exposição de argumentos que visam a persuadir. Já Quintiliano define retórica como “a arte de falar bem”. Falar bem, emocionar, persuadir. Essas três abordagens apontam para as três dimensões necessárias para que a retórica se manifeste: o orador, o auditório (aquele que precisa ser convencido de algo) e a mídia. Por mídia, entende-se a linguagem, em suas várias formas de expressão: falada, escrita, pictória ou visual. A essas três dimensões, por sua vez, associamos os três elementos da retórica: o éthos (a imagem prévia ou criada do orador), o páthos (a emoção que se quer suscitar no auditório) e o lógos (a racionalidade da linguagem). Para quem acha essas palavras esquisitas, basta lembrar que "ética" origina-se de éthos, ou seja, uma virtude que deve ostentar o orador. Já quando alguém diz que não se simpatizou com alguém, quis dizer que o éthos do outro ou o seu discurso, lhe despertou um phátos, uma emoção negativa.
     Platão considerava que é o phátos - e não a verdade, a razão - que comanda o jogo da linguagem no discurso retórico. Aliás, Platão é o responsável pela má fama da retórica entre nós. Sua percepção de que a retórica é manipulação através do emocional denegriu a imagem da retórica. Não sem razão, claro. Quando tomados pela emoção, supervalorizamos e idealizamos uma resposta, uma suposta verdade e nos esquecemos da pergunta, do problema que a originou. E não é isso que costuma ocorrer em discussões políticas? Frente a problemas, como a corrupção, boa parte da população fica cega de paixão por uma resposta que se dá ao problema, segunda a qual toda a culpa caberia a um partido, a um governante, por exemplo. Poucos procuram as raízes do problema.
     É interessante, pois, separar os conceitos de retórica e de argumentação. A argumentação se preocupa com o problema, com a pergunta e a partir desse problema elabora premissas ou argumentos que possibilitam sua análise. Já a retórica parte de uma resposta, de uma suposta verdade e a defende, lançando mão para isso da linguagem (lógos), da imagem do orador (éthos), para gerar emoção no auditório (phátos) que, cego de paixão, aceitaria aquele pressuposto como verdade. A paixão cega porque faz com que aquele ou aquilo que se defende apaixonadamente passe a se revestir de qualidade que nós atribuímos a ele como se fossem reais.
     Os sofistas, entre os séculos V e I aC são considerados os primeiros advogados. Foi deles a ideia de sair pela Grécia cobrando-se para defender verdades. Esse ato provocou mal estar entre filósofos como Sócrates e Platão. Era um desvirtuamento da Filosofia, que prima pela razão, pela lógica e sobretudo pela sondagem do problema. Fato é que a prática se difundiu e a retórica ganhou força com a representação política, com a profissionalização doas advogados e, principalmente, com a sofisticação da mídia. A TV tem recursos elaborados para patemizar - provocar o phátos. Imagens, trilha sonora, cores e versos. Quem resiste? A publicidade também descobriu o poder da retórica. Produtos são associados à imagem (ao éthos) de celebridades, embrulhados em seus supostos princípios e valores sociais e vendidos a apaixonados consumidores que ignoram a real necessidade do que se compra.
     Hoje em dia, a Análise do Discurso, que como todo ramo da linguística não emite juízos de valor, define a retórica como “todo esforço usado para reduzir a distância entre dois pontos de vista conflitantes”. Esse conceito não se preocupa em hierarquizar os elementos da retórica ou em julgá-la. Deve-se a Aristóteles o resgate da Retórica dentro das ciências. Ele não chega a inocentá-la, mas a classifica como “um mal necessário”. Para o filósofo grego, a retórica se insere em um vão que existe entre o literal e o metafórico; aquilo que pode ser, que se esconde por trás da certeza. A retórica trabalha, então, com uma verdade relativa. Algo que existe dentro do teatro discursivo, cujos atores são o éthos, o phátos e o lógos.
     Na prática, não há como dissociar retórica de argumentação. A não ser em situações artificiais, como na Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ali, embora o aluno não esteja proibido de patemizar, através da escolha lexical, por exemplo, o que se espera é a defesa de um ponto de vista com base em fatos, ou seja, pura argumentação.

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AMOSSY, Ruth (org.). Imagens de si no discurso: a construção do Ethos. São Paulo, Contexto, 2013.
ARISTÓTELES, Retórica das Paixões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MEYER, M. A retórica. São Paulo, Ática, 2007.