sexta-feira, 3 de junho de 2016

A maioria nem sempre consegue tomar o café antes de ir para a escola

Aulas às 7 da manhã tira
o sono de muitos alunos
     Cedo demais. É essa a opinião de 94% dos alunos entrevistados no Cefet-MG de Divinópolis sobre o horário mais comum de início das aulas no Brasil: 7 da manhã. E para 73%, o horário ideal para estar na escola seria entre 8h e 9h da manhã. A pesquisa, feita dias 2 e 3 de junho, faz parte de uma atividade dos alunos de Redação da 2ª Série integrada e ouviu 100 alunos da primeira à terceira séries. Não existe uma determinação legal sobre a hora de início das aulas no Brasil. Abrir os portões às 7 da manhã é uma prática que se baseia apenas no costume e na conveniência. Escolas normalmente se guiam pela mesma lógica de organização do trabalho, com turnos e divisões em departamentos. E no imaginário brasileiro, é sempre melhor começar a trabalhar com o cantar do galo. Afinal,  “Deus ajuda quem cedo madruga”, já diz o ditado popular.
     Mas estudos sobre sono e saúde têm colocado a crença em xeque. Isso porque com o aumento da carga de estudos e de ocupações sociais dos estudantes - inglês, balé, musculação, internet, lição de casa... - é cada vez mais improvável que consigam dormir as 8 ou 9 horas receitadas pelos especialistas. A pesquisa feita no Cefet-MG confirma isso: 53% dos entrevistados admitem que só conseguem pegar no sono após as 23 horas. Isso, para estar de pé entre 5h e 6h da manhã (68%). É o caso do João Vitor Morais Rocha, da 2ª Série do curso de Informática do Cefet Divinópolis: “eu durmo em média seis horas por noite e sempre vou para a escola cansado e desanimado”, conta. O horário apertado pode ainda influir na nutrição dos estudantes. Segundo o levantamento, 63% dos entrevistados admitem que muitas vezes deixam de tomar o café da manhã para poderem responder “presente” às sete em ponto.
      São dados como esses que têm feito escolas repensarem se vale a pena obrigar alunos e professores a estarem em sala de aulas às 7 da manhã. Alguns escolas têm trocado os turnos, colocando crianças pequenas de manhã e adolescentes e adultos à tarde. Isso porque, além de precisarem de menos horas de sono, os pequenos têm mais facilidade para adormecer. Na pequena Fairfex, cidade de menos de 30 mil habitantes do estado americano de Virgínia, um mãe, cansada de ver crianças perambulando como zumbis para as escolas ainda de madrugada, comprou há 11 anos uma briga com o Estado. E venceu: desde 2015, as escolas da cidade começam as aulas às 8h10 e não mais às 7h.  
     No Brasil, além da tradição, a mudança poderia encontrar resistência nos próprios pais, que costumam despachar os filhos para a escola antes de irem para o trabalho e não teriam como se ajustar a novos horários. Isso não quer dizer que não haja quem recomende a mudança. O professor Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, alega que não faz sentido as aulas começarem às 7 da manhã. Para ele, as escolas não levam em conta o sono do estudante e acabam por prejudicar o rendimento escolar. Dormir, segundo ele, ajuda no aprendizado e o ideal seriam aulas começando às nove da manhã. (lcg)