sexta-feira, 29 de julho de 2016

Ministro cogita retirar redação do Enem
     O ministro da Educação Mendonça Filho expressou recentemente o desejo de retirar a prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O pretexto, segundo ele: economizar 200 milhões de reais por ano, gastos na correção da prova. Ainda que o próprio Mendonça, na mesma oportunidade, considere que "haverá resistências à ideia", a simples manifestação do desejo do ministro é o fato mais preocupante dentre todas as ilações duvidosas que o governo provisório deixou escapar até agora. O Enem não é uma mera prova de seleção de candidatos para a entrada na graduação. É também uma proposta de reforma, de redirecionamento da educação básica. Ao supervalorizar a produção de texto, o Enem aponta para qual seria de fato a função precípua da escola: ensinar a organizar informações, elaborar ´pontos de vista, defendê-los e propor soluções. Afinal, não são essas características elementares para um pesquisador? Não seriam esses traços indispensáveis a qualquer cidadão consciente?
     É bem verdade que se o intuito do Enem é provocar escolas e professores a reverem seus conteúdos e metodologias de ensino, ainda é cedo para dizer se está funcionando. Mesmo porque não basta a boa vontade do MEC para que isso aconteça. De nada adianta mostrar a professores a linha que devem seguir se não lhes for dado o preparo para compreendê-la. E, infelizmente, nossas faculdades de formação de docentes ainda não entenderam isso. Ainda não são capazes de formar professores que se interessem em dissecar as técnicas de produção de texto bem como  as melhores estratégias de sua abordagem em sala de aula. Há as exceções de sempre: escolas particulares e federais, que se tornam ilhas de excelência e não parecem ter o poder de influenciar as sofríveis redes estaduais e municipais de ensino.
     Mas, acabar com a redação no Enem significaria retroceder no pouco que se ganhou e dar adeus a qualquer perspectiva de melhora na educação. Desde que o Enem ganhou o atual status, em 2010,  a produção de texto tornou-se o carro-chefe de qualquer escola que se preze. Alunos passaram a investigar se a escola tem aulas específicas de Redação e qual seria a reputação dos professores. É um avanço enorme. Se não está no ritmo esperado, o que se deve fazer é buscar meios para que a boa experiência das escolas federais, cujos alunos  costumam ter índices de desempenho no Enem equivalente aos de estudantes de países evoluídos se espalhe e não brecá-la. 
     É bom lembrar o ministro que os 200 milhões de reais que ele quer economizar incluem formação de professores para a correção das provas. Ou seja,  esse valor é empregado também na formação de multiplicadores: cada professor que corrige as redações volta depois para a sala de aula com muito mais conhecimento sobre o texto. Em vez de extinguir uma boa experiência, o ministro deveria pensar em uma forma de levar o know-how dos Cefets, Institutos Federais, colégios de aplicação a todas as escolas do país. Já que pôs fim ao Ciência Sem Fronteiras, que tal promover um intercâmbio interno de professores e alunos? Que tal aproximar escolas que muitas vezes ficam no mesmo bairro e estão a anos-luz uma da outra quando o tema é qualidade ensino? Que tal ampliar programas de iniciação científica, como o Bic-Jr, fazendo com que estudantes da rede estadual, por exemplo, sejam orientados em redação, matemática... por professores das escolas federais?