sábado, 5 de novembro de 2016

Dicas de última hora
para a redação do Enem
     Ponha título, espalhe as propostas de intervenção pelo texto e abuse da palavra "outrossim". Brincadeirinha! A redação do Enem não pede título; reúna as propostas de intervenção no último parágrafo, para facilitar a correção e usar palavra difícil só dava certo quando o Rui Barbosa corrigia as redações.
     Lembre-se: quem vai corrigir sua redação tem poucos segundos para fazer isso. E, como você, a esta altura do campeonato deveria saber, quando alguém que domina um tipo e um gênero textual vai ler um texto, tem uma expectativa do que vai encontrar no que se refere à estrutura. A única surpresa que se espera é quanto à qualidade da tese, dos argumentos e da conclusão. Jamais quanto à estrutura. 
     O que isso quer dizer? Não decepcione o leitor. Não altere a estrutura que o professor que vai ler seu texto espera encontrar. Por quê? Porque assim ele vai se fixar mais no conteúdo do seu texto, vai conseguir ler com mais rapidez e fluência. Por exemplo: a priori, a conclusão pode vir espalhada pelo desenvolvimento. Mas não é essa a expectativa do leitor. Quem vai corrigir o seu texto espera vê-la no último parágrafo. Por que você vai frustrar a pessoa que vai dar a nota na sua redação? Melhor não, né?
     Algum oráculo, no entanto, pode ter-lhe dito: "ah, se você põe a sugestão ao lado de cada argumento, facilita a análise". Não, mesmo, porque a correção segue a planilha de competências que você já conhece e a conclusão é a última coisa a ser avaliada. Se você a mistura com os argumentos, o professor terá de retornar e reler o desenvolvimento para pescar dali cada proposta. Acredite: ele não vai lhe dar uma estrelinha por isso...
     A dica-mor neste momento é: faça letra legível e dê o espaço de início de parágrafo. Não condense a letra para caber nas 30 linhas. Se possível, faça letra de imprensa. Por que essa dica é importante? Simples: se o professor não conseguir ler seu texto ou mesmo saber onde começa e termina cada parágrafo, de que adianta você ter feito uma redação maravilhosa? Gastou seus outrosins à toa.
      Agora, quanto à estrutura: elabore uma tese simples, clara e objetiva. Nunca a desenvolva na introdução. Ou seja, a tese deve apenas conter um ponto de vista e não desdobramentos, causas ou consequências. Desdobramentos, causas e consequências são da instância do desenvolvimento e não da introdução. Exemplos de teses objetivas:

Teses:
A escola precisa combater o bullying a todo custo.
A tragédia de Mariana deixou algumas lições para o Brasil.
O Brasil tem muito a colaborar com os refugiados sírios.
A obesidade infantil é um risco à saúde pública.
Viver de forma sustentável é se preocupar com o bem comum.

O que não se deve fazer:
A escola precisa combater o bullying porque prejudica o desenvolvimento das crianças.

      A partir do "porque" é desenvolvimento. Não desenvolva a tese na introdução. O fato de o bullying prejudicar o desenvolvimento da criança é um argumento e não parte da tese.

    O texto dissertativo argumentativo, portanto, deve conter introdução (apresentação da tese), desenvolvimento (defesa dos argumentos) e conclusão (no caso do Enem, a apresentação das propostas de soluções para o problema configurado na tese).

INTRODUÇÃO
     A introdução serve para que você contextualize o tema, sensibilize o leitor sobre a relevância dele e apresente sua tese.  Para isso, você pode recorrer a dados estatísticos, exemplos ou ordenações temporais (leia sobre isso). Veja exemplos de introduções:

Refugiados 
     A crise dos refugiados não pode ser medida pelo número de corpos que aparecem boiando no mar Mediterrâneo.  Por envolver o desrespeito a direitos fundamentais do ser humano, é necessário que o mundo todo se mobilize para resolver o problema. O Brasil pode fazer a sua parte para ajudar os refugiados.


Bullying
     Apelidos, insultos,  intimidações. Passar pela vida escolar sem ser vítima pelo menos uma vez desse tipo de "implicância" é quase impossível.  Mas quando isso se torna algo sistemático caracteriza bullying e precisa ser combatido a todo custo.


Tragédia de Mariana
    Há exato um ano, o rompimento da barragem de uma mineradora varria do mapa o  distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A lama causou mortes e enormes prejuízos  ao ecossistema. Ainda hoje se discutem as ações legais contra os responsáveis. Mas, para evitar que o desastre se repita,  é preciso que o Brasil aprenda algumas lições com a tragédia.

DESENVOLVIMENTO
     O desenvolvimento é a instância de comprovação, de defesa do ponto de vista que você expressou na tese. Um conselho quanto à estruturação desses argumentos: use apenas dois, um no segundo parágrafo e outro no terceiro. Você tem apenas 30 linhas. É melhor fundamentar bem dois argumentos do que citar de forma superficial uma porção deles. Como se elaboram os argumentos? Crie uma tese clara e objetiva e pergunte a ela: "por quê?" ou "Como?", "Quais?".

CONCLUSÃO
    No caso do Enem, a conclusão deve apresentar propostas que resolvam o problema expressão na tese. O ideal é que essas propostas sejam especificadas, na medida do possível, expondo-se:

O que fazer?
Quem deve fazer
Como se deve fazer

    Veja a seguir um exemplo de um texto feito a partir da tese "O Brasil também deve colaborar para a solução da crise dos refugiados sírios.":


TEMA:
"O papel do Brasil na crise dos refugiados"

INTRODUÇÃO:
     A crise dos refugiados não pode ser medida apenas pelo número de corpos que aparecem boiando no mar Mediterrâneo. O problema há muito ultrapassou as fronteiras da Europa e exige uma ação global. O Brasil também deve fazer a sua parte.

ARGUMENTO 1
     Uma forma de o país ajudar os refugiados é não se negando em recebê-los. A história nos mostra que a chegada de levas de estrangeiros pode, a longo prazo, melhorar a economia interna. Países como Brasil e Estados Unidos devem boa parte do seu desenvolvimento econômico e social à colaboração de imigrantes. Novos povos trazem diversidade cultural e novos modos de empreender.

ARGUMENTO 2
     Além disso, o Brasil deve atuar política e humanitariamente em busca de solução para o problema. Nosso país tem um bom currículo quando se trata de atuação para atacar problemas humanitários.O papel dos nossos pracinhas na Itália, durante a II Guerra, é lembrado até hoje como exemplo de diplomacia. A experiência recente no Haiti também habilita o pais a busca por soluções que vão além do confinamento de refugiados em campos de triagem como tem ocorrido na Europa.

CONCLUSÃO
     Portanto, o Brasil não pode se negar a ajudar os refugiados. Para viabilizar essa ajuda, o Governo deve, então, agir para conter discursos xenófobos. Isso pode ser feito através de campanhas publicitárias e da atuação das escolas. Empresas, ONGs e Igrejas, por sua vez, podem atuar no suporte humanitário e burocrático àqueles que solicitam o refúgio. O contato com organizações internacionais orientariam essas entidades nesse trabalho.