quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sugestões de  abordagens para alguns temas
    Uma das maiores dificuldades de quem se dispõe a redigir nos moldes da redação do Ene,  é a introdução. O que colocar nesse parágrafo além da tese? O ideal é que a introdução contextualize o tema,  comece do assunto até chegar à tese em si. Ou seja, digamos que o tema seja “violência urbana”, o primeiro parágrafo pode começar discutindo o surgimento das cidades e os benefícios trazidos por esse estilo de vida. Após, passa-se a discutir o outro lado da moeda, os conflitos causados pela interação humana no espaço urbano e, especificamente, a violência. 


Veja também: o que pode ser tema da Redação

Desastres ambientais - 2 anos da Tragédia de Mariana
    Neste domingo, quando os participantes do Enem/2017 estiverem resolvendo a prova, a tragédia de Mariana estará completando dois anos. O maior desastre ambiental da história do Brasil é uma das possibilidades de tema da prova de redação. Nesse caso, seria bem provável que se pedisse uma análise sobre as lições que aprendemos ou deveríamos ter aprendido com o incidente que matou 19 pessoas e afetou milhões que habitantes ao longo dos rios afetados pelos rejeitos da barragem da mineradora Samarco. O que o Brasil tem feito para que desastres dessa magnitude não se repitam? Vale, então, uma analogia com o Japão pós-tsunami. Em 2011, o país foi abalado por um terremoto de 9 graus na escala Richter e, como se não bastasse, em seguida veio uma tsunami que provocou vazamento de material radioativo. Foram cerca de 11 mil mortos. Mas, assim como reagiu à devastação da II Guerra, a população japonesa se uniu, ajudou quem precisava, economizou energia para não piorar a situação energética do país. Além disso, o aparato de monitoramento a desastres naturais foi aperfeiçoado e é possível que no futuro causem menos estragos. Já no Brasil, o que mudou desde o desastre de Mariana? Que medidas efetivas foram tomadas para se prevenir novas tragédias? O que a população tem feito para cobrar mudanças?


Epidemias, doenças tropicais (febre amarela, dengue...)
    Pode-se começar o texto com uma ordenação temporal que aborde o impacto das epidemias que assolavam populações inteiras na Idade Média, passando pela evolução dos hábitos de higiene, dos medicamentos e da medicina até os dias de hoje em que, mesmo com todo o avanço científico ainda lutamos contra doenças como dengue e febre amarela.  A cruzada do sanitarista Osvaldo Cruz no início do século XX também é um marco temporal com o qual se pode fazer um link.

     AIDS - Especificamente sobre aids, além do contexto acima, é possível também ampliar a discussão a partir da Revolução sexual dos anos 1960 (Woodstock), que deu início a uma liberação que pode ter tido impacto na disseminação do vírus HIV. O fato de a doença não assustar mais como antes e de sexo continuar sendo um tabu na sociedade explicam o aumento dos casos da doença entre os mais jovens.


Internet, redes sociais
     Além da Revolução Industrial, a chamada Revolução Tecnológica, da metade do século XX, é outro fato que pode ser citado como estímulo para a disseminação de novas tecnologias. A chegada da internet ao Brasil para uso civil, em 1994, é também um marco a partir do qual se pode desenvolver o tema. De 1988 a 1994, a internet era usada apenas nas universidades. A criação do conceito de redes sociais e comunicadores instantâneos - ICQ, MSN, Orkut - também são ponto de partida para a popularização da internet.


Fake News
     Disseminar notícias falsas ou distorcer informações para converter pessoas a um ponto de vista não é uma invenção moderna ou algo fruto das facilidades advindas do maior acesso a dados e a pessoas na internet. Igrejas e governos fazem uso de Fake News desde sempre para conquistar e manter seguidores. Distorcer informações na internet não é muito diferente de se manipulares pesquisas de opinião para facilitar a aprovação de um projeto no Congresso ou de se reinterpretar a Bíblia para incutir segurança ou medo nos fiéis. É o velho poder da manipulação da informação, só que agora disseminado pelo alcance da internet aliado à péssima qualidade de ensino de boa parte das pessoas. O antídoto contra essa manipulação, venha ela do Estado, da Igreja ou de grupos do whatsapp é a educação crítica. Aquela que propicie ao indivíduo o poder de analisar e selecionar o que lê e o que compartilha.


Suicídio 
    Para além das causas patológicas, o suicídio pode ser discutido a partir dos fatos sociais que podem propiciá-lo entre os jovens. Os desafios da vida em sociedade - viver sob a crítica e as regras alheias e da moral religiosa - podem ser pesados para muitos. Os padrões românticos, disseminados após a Revolução Francesa através da mídia, são cruéis e causam sofrimento para muitos. A imposição de padrões de beleza, de conduta sexual e de felicidade tem um peso muito grande nos casos de suicídio. Além disso, o aumento da exigência de sucesso compartilhado na internet é um fator que também pode exercer influência sobre alguém propenso ao suicídio.


Pedofilia / abuso infantil
    A pedofilia é uma doença classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) entre os transtornos da preferência sexual. Pedófilos são pessoas adultas (homens e mulheres) que têm preferência sexual por crianças. O crime, portanto, está na satisfação desse desejo, já que o código penal considera crime a relação sexual ou ato libidinoso praticado por adulto com criança menor de 14 anos. Dados comprovam que o abuso a crianças ocorre majoritariamente por pessoa próxima: pai, mãe, tios... Isso talvez esteja ligado à secular percepção de que os entes familiares sejam posse daquele que detém o pátrio poder e, portanto, possam ser usados como mercadoria. Era essa a percepção implícita no direito romano antigo. Filhos e esposas eram "res", coisa pertencente ao chefe de família. O pagamento de dote à família na qual a filha entrará por casamento é um resquício disso. Não há, no entanto, como dizer que tem havido aumento de casos de pedofilia, mas de denúncias. Esse tema era um tabu até pouco tempo.


Xenofobia
    A expansão romana e de sua cultura provocou muitas feridas na Europa, que não se fecharam até hoje. A sobreposição de uma cultura sobre outra é sempre traumática. A imposição do cristianismo e de seus padrões morais e éticos levou muitas pessoas a repudiarem aqueles povos que fujam dessa expectativa. Além disso, o 11 de Setembro ajudou a realçar o preconceito contra muçulmanos e árabes em geral. No Brasil há ainda a crise econômica, que torna as pessoas mais egoístas e avessas à chegada de estrangeiros que supostamente competiriam com elas por empregos. Como todas as discussões sobre preconceito, esse é um tema cuja proposta de intervenção passa pelo esclarecimento da população a fim de se desfazerem imaginários coletivos desfavoráveis a um povo. 


Homofobia
    Diferentemente do que muitos possam pensar, o preconceito contra gays não é algo que sempre existiu. A imposição da moral católica a partir da Idade Média é que levou à perseguição aos homossexuais. Antes, a sociedade era mais liberal quanto a orientações sexuais diversas ou isso não tinha tanta relevância. Na Grécia antiga, os homossexuais tinham inclusive destaque na organização social. No Brasil atual, a disseminação principalmente na internet de igrejas com discurso mais extremista e o aumento da visibilidade LGBT através, por exemplo, das paradas gays, fez aumentarem ou se tornarem públicos os conflitos. 


A dependência da tecnologia
     Mais um tema cuja introdução pode se dar pela abordagem das revoluções Industrial e Tecnológica. Esse é um assunto propício à exposição de clichês do tipo "a internet, o celular acabaram com as relações interpessoais, o olho no olho, pessoas se reúnem numa mesa de bar e ficam ao celular como zumbis..." Há no entanto que se levar em conta que invenções hoje corriqueiras como a luz elétrica, a caneta e o vaso sanitário também geraram discussões acalouradas à sua época sobre como "destruíram hábitos saudáveis". Tolice achar que vamos abrir mão do celular para ter mais contato presencial. Por outro lado, o fato de uma tecnologia ser novidade faz com que seja usada de forma mais intensa. É claro que em algum tempo o celular ocupará em nossas vidas um lugar mais discreto e ficaremos livres dos grupos de família no whatsapp. Brinquedos novos sempre são mais fascinantes... Mas e a dependência da tecnologia? Se há exageros são fruto da novidade, da descoberta ou da conveniência. Também somos dependentes da tecnologia têxtil, farmacológica, educacional. Alguém está disposto a andar nu, consultar-se com um pajé ou fazer contas com um ábaco?


Bullying
    Não há como discutir bullying sem se falar de preconceito e do despreparo para o convívio social e, principalmente com a diversidade. O bullying aparece na escola, no clube, no trabalho. Ou seja, em ambientes em que o intolerante precisa interagir com aquele que ele não aceita. Dessa forma, a discussão do bullying acaba por permear a discussão sobre homofobia e intolerâncias de gênero: é uma reação de quem teve sua expectativa de comportamento contrariada. O bullying também é uma forma de se mostrar popular: aquele que tem coragem de humilhar, de "por o outro em seu devido lugar".


sábado, 28 de outubro de 2017

Material do Aulão
Para acessar propostas de redação e o material do "aulão" de 28/10, vá à página Enem 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Meio-dia
      E essa incontinência de foguetes? Quando era pequeno, gostava do 12 de outubro porque o almoço ficava pronto mais cedo e havia um espetáculo programado. Um espetáculo assustador e fascinante. O espocar de infinitos estouros. Não era ainda Dia da Criança. Se era, eu não sabia. Sabia que era Dia de Nossa Senhora Aparecida.
     A comida tinha de estar pronta bem antes porque ao meio-dia, meio-dia em ponto, começava o foguetório. Nossa Senhora inspirou o primeiro flashmob da história.  Não havia nem um estouro antes. Era ao meio-dia ou só no ano seguinte. Ao mesmo tempo, minha mãe entrava em transe ajoelhada com um terço em frente à imagem da virgem. Eu ficava olhando com medo, respeito e fascínio.
     Como conseguem? Como conseguem essa sincronia? Dava medo tantos estouros. Quem foi o primeiro? Quem disse que a santa apreciava essa artilharia? Eu apreciava a organização, a disciplina. E, mais do que isso, gostava quando acabava. O cheiro da pólvora era cheiro de missão cumprida. Acabou. Minha mãe fazia o sinal da cruz e voltava para o resto do dia sem foguetes. Havia fumaça ainda e com sorte a criançada achava algum foguete não disparado na rua e ia brincar com ele.  Ouvia falar de moleque que perdia dedo ou mão inteira com essa brincadeira. Fazer o quê? Não era dia da criança.
       Mas o foguetório do Dia 12 era um relógio. Hoje, na era da ansiedade, da ostentação, ninguém espera o meio-dia. Todos querem ser os primeiros a estourar o foguete. É um show de incontinência foguetória sem ritmo, sem compasso, sem hora marcada. Mataram o ritual, que é o que dava a mística ao evento. Agora, foguetes me acordam às sete da manhã do feriado. Não é hora do almoço. Minha mãe não se ajoelharia para rezar com esse estouro pífio antes do café. A santa faz que não é com ela. É a droga, é o gol, é a ânsia. Não tem nem cheiro mais.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O que pode ser o tema de 2017?
    À medida que o dia da prova se aproxima, começam as especulações sobre possíveis temas para a redação do Enem. Impulsionado pela novela da Globo, que discute transfobia, o aumento do número de homicídios com base na orientação sexual e, claro, no fenômeno Pabllo Vitar, muitos apostam na Homofobia. Além desse tema, abaixo, uma lista das propostas que considero mais prováveis.

:) Nível de probabilidade


Homofobia :)
Apesar de marcar com apenas uma carinha feliz esse tema, coloco-o no topo por entender que seja o mais urgente e necessário a ser discutido pela prova, tendo em vista ser o Brasil o pais onde mais se pratica a violência contra homossexuais. Até mais do que em países onde a homossexualidade ainda é legalmente proibida. Mas é muito pouco provável que o Governo permita a discussão desse tema, devido aos ataques que sofreria de alguns líderes religiosos com grande força política no Congresso Nacional.

Desastres ambientais - 2 anos da Tragédia de Mariana  :)  :)  :)  :)  :)
    No dia 5 de novembro, a tragédia de Mariana completa dois anos. O maior desastre ambiental da história do Brasil é uma das possibilidades de tema da prova de redação. Nesse caso, seria bem provável que se pedisse uma análise sobre as lições que aprendemos ou deveríamos ter aprendido com o incidente que matou 19 pessoas e afetou milhões que habitantes ao longo dos rios afetados pelos rejeitos da barragem da mineradora Samarco. O que o Brasil tem feito para que desastres dessa magnitude não se repitam? Vale, então, uma analogia com o Japão pós-tsunami. Em 2011, o país foi abalado por um terremoto de 9 graus na escala Richter e, como se não bastasse, em seguida veio uma tsunami que, por sua vez, provocou vazamento de material radioativo. Foram cerca de 11 mil mortos. Mas, assim como reagiu à devastação da II Guerra, a população japonesa se uniu, ajudou quem precisava, economizou energia para não piorar a situação energética do país. Além disso, o aparato de monitoramento a desastres naturais foi aperfeiçoado e é possível que no futuro causem menos estragos. Já no Brasil, o que mudou desde o desastre de Mariana? Que medidas efetivas foram tomadas para se prevenir novas tragédias? O que a população tem feito para cobrar mudanças?

Xenofobia :)  :)  :)  :)  :)
A aprovação da Lei da Imigração, elogiada internacionalmente, e o caso do vendedor sírio de esfihas que foi agredido no Rio, são motivos que avalizam a aposta nesse tema.

Pedofilia :)  :)  :)  :)  :)
Os direitos das crianças e dos adolescentes foram discutidos no Enem de 2000. Mas, dentre os problemas que mais afligem a sociedade brasileira, sem dúvida, a pedofilia e a Homofobia estão na fila há mais tempo para serem discutidos pela prova. A pedofilia não é o nome de um crime, mas de um transtorno de preferência sexual. Aquele que a pratica está sujeito a alguns dispositivos legais previstos tanto no Código Penal - estupro de vulnerável -, quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Doenças tropicais :)  :)  :)  :)  :)
Dengue, zica, chikungunya, febre amarela... Essas doenças nunca saem de moda no Brasil e, por isso, também continuam como forte aposta como tema da redação. Abordagens sobre como evitá-las e sua relação com a maior mobilidade humana, por exemplo, são possíveis.

Suicídio entre jovens :)  :)  :)  :)  :)
Normalmente, a mídia e o Governo convencionam não divulgar casos de suicídio, partindo-se do pressuposto de que isso pode incentivar a prática. Mas é fato que os números têm aumentado e o sucesso da série 13 Reasons Why, da Netflix,também chamou a atenção para o problema.

AIDS E DSTs entre jovens :)  :)  :)  :)
    A infecção pelo vírus HIV na faixa dos 16 aos 24 anos cresceu de 9,6 para 12,7 por 100 mil habitantes, nos últimos dez anos. Muitos estudiosos apontam como causa o fato de essa geração ter-se acostumado à AIDS como uma doença tratável.


Bullying :)  :)  :)  :)
    A entrada em vigor da Lei antibullying, em 2016, gerou expectativas de que o Enem possa trazer esse tema à tona. O Cyberbullying também é abordado na lei. É bom Lê-la na íntegra. Veja uma proposta de redação sobre Bullying no Brasil.

Lixo Eletrônico  :)  :)  :)  :)
       O problema da destinação do e-lixo no Brasil.

Drogas e cracolândias :)  :)  :)
    Este ano, mais uma intervenção da Prefeitura e do Governo de São Paulo na chamada cracolândia, região do centro da cidade de São Paulo que reúne usuários e vendedores de entorpecentes, chamou a atenção para o problema da internação compulsória e da criação de áreas para o uso assistido de drogas... É um bom tema mas o fato de estar muito ligado à figura de dois presidenciáveis do PSDB (Dória e Alckmin) recomenda que não se apostem todas as fichas nele.


Violência Urbana :)  :)  :)
    A violência já foi tema da Redação do Enem em 2003. Mas, devido aos índices que tem alcançado ultimamente, não seria absurdo que voltasse a ser discutida pela prova. Afinal, o Enem tem também o valor de pautar a mídia e as escolas com os temas que escolhe.

Crise hídrica :)  :)  :)
   Embora o auge da crise tenha sido em 2015, ainda é um tema que precisa ser debatido para que as pessoas não relaxem na no uso racional.  A prova pode pedir que o candidato discuta, por exemplo, efeitos da crise ou possíveis medidas de prevenção, a importância da água para a vida em sociedade...


O impacto da tecnologia em nossas vidas :)  :)  :)
   Celular, internet, computador... O quanto essas invenções que se têm popularizado cada vez mais tornaram a vida em sociedade melhor? Que problemas causaram?  E a relação das escolas com o celular? Proibir ou não?

Agressão a professores :)  :) 
    "O histórico desafio de se valorizar o professor no Brasil." foi o tema da segunda aplicação da prova do Enem em 2015. Por isso, ainda que o surto de agressões a professores em 2017 enseje a discussão sobre o tema na prova deste ano, é improvável que o assunto se repita.


Crise prisional :)  :) 
    Grande aposta de muitos estudantes, a questão da falta de vagas nos presídios, da pouco eficiência do Estado em recuperar os condenados também pode ser discutida pela prova. Para quem aposta nesse tema, abra os olhos para as formas alternativas de punição, leia sobre os tipos de penas previstas no Código Penal (Art. 32...) antes de sair defendendo a prisão como a única forma de se punir. Veja sobre a pena mínima para se cumprir a condenação em regime fechado, sobre quando e como surgiu a pena de prisão e sua eficácia - há vários juristas renomados que são contra a generalização desse modelo de pena -, sobre a experiência de outros países...


A internet: fake news e pós-verdade :)  :)
    Prematuramente, o Enem discutiu sobre redes sociais e privacidade, em 2011. Mas o tema merece ser revisitado. A disseminação de notícias falsas - fake news - tem sido um problema no mundo todo à medida em que altera até o resultado de eleições, como muitos suspeitam que tenha acontecido nas inesperadas vitórias do Brexit, no Reino Unido, e de Donald Trump, nos Estados Unidos. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem tomado medidas para tentar se contrapor a essa "estratégia" eleitoral. Os ingleses cunharam a expressão Pós-Verdade - do inglês, Post-Truth -, para se referir a circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.

O conceito de arte :)  :)
   Mais um tema inspirado nas ações midiáticas do prefeito de São Paulo. Ao classificar algumas intervenções em muros da cidade como depredação e cobri-las de tinta cinza e permitir que outras ficassem, a Prefeitura deu novas cores ao desbotado debate sobre o que seria arte. Tema pouco provável tanto por sua complexidade quanto por estar ligado a uma questão específica envolvendo um pré-candidato ao Planalto em 2018.

O combate ao tabagismo :)
    É verdade que o Brasil tem uma das mais elogiadas políticas de combate ao fumo, copiada por vários países. Mas o males que o cigarro causa justifica intensificar o alerta através da prova do Enem.

A questão do idoso no Brasil :)
    "A valorização do Idoso" foi o tema da prova cancelada do Enem em 2009. É pouco provável que a organização do concurso repita a proposta, embora seja relevante.

A importância de se aprender a redigir :)
   Em 2006, o Enem discutiu o poder transformador da leitura. Seria muito bem-vinda também uma reflexão sobre a importância de se praticar a escrita. Afinal, de que vale aprender a produzir textos apenas para se fazer a redação do Enem?


Os perigos por trás da auto-medicação :)

   A ingestão de remédios sem receita médica é um mal que faz cada vez mais vítimas no mundo. Esse é um tema que precisa ser debatido.


Fome e desperdício de alimentos :)


   O Brasil é um dos países que mais desperdiçam alimentos no mundo. Em contrapartida, tem inúmeras pessoas abaixo da linha de miséria, muitas sem ter o que comer. Como conciliar esses dois dilemas?

Veja mais propostas aqui.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

5 razões pelas quais a Homofobia
será o tema da Redação do Enem 2017
1. Dandara
    A forma cruel como a travesti Dandara foi executada, no início deste ano, no Ceará, repercutiu no mundo todo. O carrinho de mão em que o corpo ensaguentado de Dandara foi transportado por seus algozes virou um ícone contra a homofobia e foi tema de uma instalação da artista visual Nayara Leite, apresentada na University of the Arts, em Londres, na Inglaterra. Tão icônico quanto o caso Dandara é o do jovem Itaberlly, de 17 anos, torturado e morto a mando da própria mãe, no interior de São Paulo, por ser gay. Ah, você não sabe quem são Dandara e Itaberlly? Esse é mais um motivo para que o Enem inicie um debate sobre o que está por trás da carnificina de homossexuais em marcha no Brasil. 

2. Recorde de homicídio de homossexuais no Brasil em 2016
    Se no último Enem, 216 denúncias em 3 anos (de 2011 a 2014) de intolerância religiosa, sem um caso sequer de morte, fez com que o tema fosse abordado, por que os 343 homicídios comprovadamente motivados pela orientação sexual da vítima, ocorridos apenas em 2016 não merecem uma reflexão? Repito: 343 mortes em um ano, contra, em média, 72 denúncias anuais de intolerância quanto a religião. Os dados são do respeitado Grupo Gay da Bahia (GGB), que há quase 50 anos acompanha casos de violência contra homossexuais no país. Em 2017, o número também já é recorde.

3. A Força do Querer
    Dos 343 crimes de homofobia de 2016, 144 tiveram como alvo transexuais e travestis. Esses grupos têm sido vítimas de ataques na mesma proporção em que ganham visibilidade social. Nos últimos anos, a mídia tem noticiado casos de transexuais e travestis que ocupam cargos e funções sociais de destaque, o que incomoda quem quer confinar essas pessoas às esquinas e outros pontos obscuros das grandes cidades. Sempre antenada com temas como esse, a autora Glória Perez resolveu abordar na novela A força do Querer  a questão da transexualidade, através da personagem Ivana, que luta para, como recomendou Nietzsche, “tornar-se o que ela é”.


4. O tema está na fila há muito tempo
    É bem verdade que em 2007 o tema "O desafio de se conviver com as diferenças" dava margem para debater a questão de gênero. A proposta aludia ao "respeito aos nossos semelhantes independentes do sexo, raça, idade, religião". Mas de lá para cá, foi discutida a questão da mulher, do negro, da religião... Ou seja, falta justamente o debate sobre o respeito à diversidade sexual. Enem após Enem, o tema Homofobia bomba nas bolsas de apostas dos cursinhos. De fato, salvo um arroubo inesperado de criatividade dos organizadores da prova, será difícil este ano pensar em um dilema social mais urgente.

5. Pablo Vittar
    Vítima de todo tipo de ataque desde que despontou como um fenômeno da música, a cantora Pablo Vittar por si só já seria um argumento suficiente para justificar a escolha do tema Homofobia para o Enem 2017. Ao fugir de rótulos, do discurso de vítima, ao inspirar alegria, a moça ou moço do Maranhão é a síntese da negação dos discursos de normatização, de padronização dos sentimentos e dos modos de vida. 

...e 5 razões pelas quais não será
1. A força da Igreja
    Apesar de declarações do Papa sobre a aceitação dos homossexuais, muitas Igrejas ainda insistem em eleger os gays como seus malvados favoritos. E, mesmo que esse discurso não seja unanimidade entre os fiéis, há pastores com força suficiente para influir nas políticas do Governo. Prova disso é o fato de a Lei Anti-homofobia não ter sido aprovada mesmo nos governos do PT ou de o tema do ano passado do Enem ter sido "Intolerância Religiosa" e, não, intolerância à diversidade sexual...

2. Eleições 2018
    Ano que vem haverá eleições presidenciais e parlamentares. Um ímã para atrair polêmicas, muito dificilmente o presidente Temer concordaria com um tema da redação que considere propenso a atritá-lo com sua conservadora base parlamentar e, principalmente com a chamada bancada da Bíblia. Aliás, dias atrás, em um ato com a presença dos tucanos Alckmin e Dória, o pastor Malafaia ameaçou: “O candidato que tocar no tema gênero, que siga seu caminho!”.

3.  Sexualidade ainda é um tabu 
    É claro que resumir a homossexualidade à questão sexual é algo injusto. Mas é inegável que esse viés é o primeiro a surgir na cabeça de quem se defronta com o tema. Este é um país que optou por não discutir a sexualidade, ainda que os números de gravidez e de transmissão de DSTs na adolescência venham subindo. Definitivamente, não discutimos nada que tenha conotação sexual fora da esfera do humor de gosto duvidoso.

4. Ignorância sobre o tema
    Quem estuda nas boas escolas federais e até em algumas particulares de qualidade pode estar acostumado a debater o tema homossexualidade em sala de aula. Mas essa não é a realidade da grande maioria das escolas deste país. Assim como a questão do negro, antes da Lei do Racismo, muitos professores não têm informações sobre a homossexualidade ou a veem como uma questão de escolha pessoal ou até mesmo como uma anomalia cujo contágio se espalha quando se toca no assunto.


5. Governo é contra Lei Anti-homofobia
    Por fim, seria de extrema incoerência um Governo contrário à aprovação da PL 122/06, que criminaliza a homofobia, propor o debate da homofobia. O atual Governo não só é contra o projeto, como endossa o discurso de que não existe homofobia e de que os ataques a gays "fazem parte das estatísticas comuns de violência, sem relação com a sexualidade das vítimas". Além disso, o governo excluiu a questão do gênero da base curricular comum da educação básica, fato pelo qual até recebeu um puxão de orelha da ONU. E as propostas de intervenção? Afinal, a mais lógica não seria "Cabe ao Estado propor leis que punam aqueles que agridem pessoas por sua orientação sexual"? Como Temer explicaria aos seus ministros-pastores essa bola fora? Sem chance.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Senado discute transformar funk em crime
    Sugestões Legislativas são propostas populares apresentadas ao Senado Federal.  Toda proposta que conquista 20 mil apoiadores no site da instituição ganha o direito de ser discutida pelos senadores.  É o que aconteceu com a ideia de tipificar o funk como um "crime de saúde pública contra a criança", o adolescente e a família.  A iniciativa acumula cerca de 22 mil apoiadores e, por iniciativa do relator da proposta, o senador Romário (PSB-RJ), será debatida no Parlamento. De acordo com a Sugestão 17/2017, o funk é "uma falsa cultura com poder público do crime contra a criança", seja lá o que isso signifique. Para saber mais sobre como propor e apoiar sugestões ao Senado Federal, clique aqui.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tempo de odiar
      O ano terminou no Brasil como começou: crise, violência e gente vestida de branco. Mas um acontecimento devia ocupar mais espaço em nossas divagações porque foi apocalíptico. No apagar de 2016, concorrendo com os fogos e brindes de Ano Novo, um ex-marido raivoso de Campinas exterminou a tiros boa parte da família da ex, além do próprio filho de 8 anos. Muita gente confundiu o estampido dos tiros com o estouro dos fogos de artifício. O branco tingido de vermelho sangue, no entanto, quebrou a magia da festa. Triste mas corriqueiro no Brasil. O que deveria chamar mais a atenção, no entanto, são os recados pós-morte deixados pelo assassino em bilhetes e áudios.
      Ele vivia em pé de guerra com a ex-mulher pela guarda do filho. Normal. A única certeza do matrimônio é que acaba. Nem por isso, ex-cônjuges saem por aí brindando Ano Novo com uma arma alemã bem carregada. Em seus bilhetes ele explica que queria ter feito o ato no Natal, "pois conseguiria matar mais mulheres". Ele explica: a culpa é das "feminazi", expressão em voga no discurso de um pré-candidato raivoso à presidência do Brasil, que não tolera os direitos individuais.
     O ódio, seja às mulheres, negros ou funkeiros, não é coisa nova. A novidade é achar que ele pode ser expresso abertamente sem consequências. É totalmente compreensível que não se derramem lágrimas pelos mortos nos presídios de Manaus e Roraima, que não se cultive uma ruga de preocupação pelos brasileiros sumidos enquanto tentavam entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Mas ter freios sociais é essencial à convivência. As pessoas perderam essa noção e a capacidade de educar suas emoções. A mocinha meiga da padaria revela-se uma maníaca da serra elétrica no Facebook, o garotinho de não mais que 14 anos que entrega o jornal "acha pouco" o que aconteceu com os presos no Amazonas: "bandido bom é bandido morto".  O médico que atente gentilmente o paciente também curte o ódio: "que morram todos". 
    É um direito de cada pessoa apoiar esta ou aquela ideologia mas o ódio nunca foi um bom norteador para nenhuma nação. Se alguém ainda duvida de como este país pode mergulhar em uma guerra civil, se optarmos pela política oficial do racismo, da xenofobia, sugiro que se dedique a analisar o legado do assassino de Campinas. O erro não está em sentir. O erro está em expressar o ódio. A vida em sociedade é um teia complexa que se sustenta pela colaboração mútua. O que faz a civilização não é a existência de tecnologia mas a capacidade de arbitrar conflitos.