sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tempo de odiar
      O ano terminou no Brasil como começou: crise, violência e gente vestida de branco. Mas um acontecimento devia ocupar mais espaço em nossas divagações porque foi apocalíptico. No apagar de 2016, concorrendo com os fogos e brindes de Ano Novo, um ex-marido raivoso de Campinas exterminou a tiros boa parte da família da ex, além do próprio filho de 8 anos. Muita gente confundiu o estampido dos tiros com o estouro dos fogos de artifício. O branco tingido de vermelho sangue, no entanto, quebrou a magia da festa. Triste mas corriqueiro no Brasil. O que deveria chamar mais a atenção, no entanto, são os recados pós-morte deixados pelo assassino em bilhetes e áudios.
      Ele vivia em pé de guerra com a ex-mulher pela guarda do filho. Normal. A única certeza do matrimônio é que acaba. Nem por isso, ex-cônjuges saem por aí brindando Ano Novo com uma arma alemã bem carregada. Em seus bilhetes ele explica que queria ter feito o ato no Natal, "pois conseguiria matar mais mulheres". Ele explica: a culpa é das "feminazi", expressão em voga no discurso de um pré-candidato raivoso à presidência do Brasil, que não tolera os direitos individuais.
     O ódio, seja às mulheres, negros ou funkeiros, não é coisa nova. A novidade é achar que ele pode ser expresso abertamente sem consequências. É totalmente compreensível que não se derramem lágrimas pelos mortos nos presídios de Manaus e Roraima, que não se cultive uma ruga de preocupação pelos brasileiros sumidos enquanto tentavam entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Mas ter freios sociais é essencial à convivência. As pessoas perderam essa noção e a capacidade de educar suas emoções. A mocinha meiga da padaria revela-se uma maníaca da serra elétrica no Facebook, o garotinho de não mais que 14 anos que entrega o jornal "acha pouco" o que aconteceu com os presos no Amazonas: "bandido bom é bandido morto".  O médico que atente gentilmente o paciente também curte o ódio: "que morram todos". 
    É um direito de cada pessoa apoiar esta ou aquela ideologia mas o ódio nunca foi um bom norteador para nenhuma nação. Se alguém ainda duvida de como este país pode mergulhar em uma guerra civil, se optarmos pela política oficial do racismo, da xenofobia, sugiro que se dedique a analisar o legado do assassino de Campinas. O erro não está em sentir. O erro está em expressar o ódio. A vida em sociedade é um teia complexa que se sustenta pela colaboração mútua. O que faz a civilização não é a existência de tecnologia mas a capacidade de arbitrar conflitos.