segunda-feira, 28 de agosto de 2017

5 razões pelas quais a Homofobia
será o tema da Redação do Enem 2017
1. Dandara
    A forma cruel como a travesti Dandara foi executada, no início deste ano, no Ceará, repercutiu no mundo todo. O carrinho de mão em que o corpo ensaguentado de Dandara foi transportado por seus algozes virou um ícone contra a homofobia e foi tema de uma instalação da artista visual Nayara Leite, apresentada na University of the Arts, em Londres, na Inglaterra. Tão icônico quanto o caso Dandara é o do jovem Itaberlly, de 17 anos, torturado e morto a mando da própria mãe, no interior de São Paulo, por ser gay. Ah, você não sabe quem são Dandara e Itaberlly? Esse é mais um motivo para que o Enem inicie um debate sobre o que está por trás da carnificina de homossexuais em marcha no Brasil. 

2. Recorde de homicídio de homossexuais no Brasil em 2016
    Se no último Enem, 216 denúncias em 3 anos (de 2011 a 2014) de intolerância religiosa, sem um caso sequer de morte, fez com que o tema fosse abordado, por que os 343 homicídios comprovadamente motivados pela orientação sexual da vítima, ocorridos apenas em 2016 não merecem uma reflexão? Repito: 343 mortes em um ano, contra, em média, 72 denúncias anuais de intolerância quanto a religião. Os dados são do respeitado Grupo Gay da Bahia (GGB), que há quase 50 anos acompanha casos de violência contra homossexuais no país. Em 2017, o número também já é recorde.

3. A Força do Querer
    Dos 343 crimes de homofobia de 2016, 144 tiveram como alvo transexuais e travestis. Esses grupos têm sido vítimas de ataques na mesma proporção em que ganham visibilidade social. Nos últimos anos, a mídia tem noticiado casos de transexuais e travestis que ocupam cargos e funções sociais de destaque, o que incomoda quem quer confinar essas pessoas às esquinas e outros pontos obscuros das grandes cidades. Sempre antenada com temas como esse, a autora Glória Perez resolveu abordar na novela A força do Querer  a questão da transexualidade, através da personagem Ivana, que luta para, como recomendou Nietzsche, “tornar-se o que ela é”.


4. O tema está na fila há muito tempo
    É bem verdade que em 2007 o tema "O desafio de se conviver com as diferenças" dava margem para debater a questão de gênero. A proposta aludia ao "respeito aos nossos semelhantes independentes do sexo, raça, idade, religião". Mas de lá para cá, foi discutida a questão da mulher, do negro, da religião... Ou seja, falta justamente o debate sobre o respeito à diversidade sexual. Enem após Enem, o tema Homofobia bomba nas bolsas de apostas dos cursinhos. De fato, salvo um arroubo inesperado de criatividade dos organizadores da prova, será difícil este ano pensar em um dilema social mais urgente.

5. Pablo Vittar
    Vítima de todo tipo de ataque desde que despontou como um fenômeno da música, a cantora Pablo Vittar por si só já seria um argumento suficiente para justificar a escolha do tema Homofobia para o Enem 2017. Ao fugir de rótulos, do discurso de vítima, ao inspirar alegria, a moça ou moço do Maranhão é a síntese da negação dos discursos de normatização, de padronização dos sentimentos e dos modos de vida. 

...e 5 razões pelas quais não será
1. A força da Igreja
    Apesar de declarações do Papa sobre a aceitação dos homossexuais, muitas Igrejas ainda insistem em eleger os gays como seus malvados favoritos. E, mesmo que esse discurso não seja unanimidade entre os fiéis, há pastores com força suficiente para influir nas políticas do Governo. Prova disso é o fato de a Lei Anti-homofobia não ter sido aprovada mesmo nos governos do PT ou de o tema do ano passado do Enem ter sido "Intolerância Religiosa" e, não, intolerância à diversidade sexual...

2. Eleições 2018
    Ano que vem haverá eleições presidenciais e parlamentares. Um ímã para atrair polêmicas, muito dificilmente o presidente Temer concordaria com um tema da redação que considere propenso a atritá-lo com sua conservadora base parlamentar e, principalmente com a chamada bancada da Bíblia. Aliás, dias atrás, em um ato com a presença dos tucanos Alckmin e Dória, o pastor Malafaia ameaçou: “O candidato que tocar no tema gênero, que siga seu caminho!”.

3.  Sexualidade ainda é um tabu 
    É claro que resumir a homossexualidade à questão sexual é algo injusto. Mas é inegável que esse viés é o primeiro a surgir na cabeça de quem se defronta com o tema. Este é um país que optou por não discutir a sexualidade, ainda que os números de gravidez e de transmissão de DSTs na adolescência venham subindo. Definitivamente, não discutimos nada que tenha conotação sexual fora da esfera do humor de gosto duvidoso.

4. Ignorância sobre o tema
    Quem estuda nas boas escolas federais e até em algumas particulares de qualidade pode estar acostumado a debater o tema homossexualidade em sala de aula. Mas essa não é a realidade da grande maioria das escolas deste país. Assim como a questão do negro, antes da Lei do Racismo, muitos professores não têm informações sobre a homossexualidade ou a veem como uma questão de escolha pessoal ou até mesmo como uma anomalia cujo contágio se espalha quando se toca no assunto.


5. Governo é contra Lei Anti-homofobia
    Por fim, seria de extrema incoerência um Governo contrário à aprovação da PL 122/06, que criminaliza a homofobia, propor o debate da homofobia. O atual Governo não só é contra o projeto, como endossa o discurso de que não existe homofobia e de que os ataques a gays "fazem parte das estatísticas comuns de violência, sem relação com a sexualidade das vítimas". Além disso, o governo excluiu a questão do gênero da base curricular comum da educação básica, fato pelo qual até recebeu um puxão de orelha da ONU. E as propostas de intervenção? Afinal, a mais lógica não seria "Cabe ao Estado propor leis que punam aqueles que agridem pessoas por sua orientação sexual"? Como Temer explicaria aos seus ministros-pastores essa bola fora? Sem chance.