quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Meio-dia
      E essa incontinência de foguetes? Quando era pequeno, gostava do 12 de outubro porque o almoço ficava pronto mais cedo e havia um espetáculo programado. Um espetáculo assustador e fascinante. O espocar de infinitos estouros. Não era ainda Dia da Criança. Se era, eu não sabia. Sabia que era Dia de Nossa Senhora Aparecida.
     A comida tinha de estar pronta bem antes porque ao meio-dia, meio-dia em ponto, começava o foguetório. Nossa Senhora inspirou o primeiro flashmob da história.  Não havia nem um estouro antes. Era ao meio-dia ou só no ano seguinte. Ao mesmo tempo, minha mãe entrava em transe ajoelhada com um terço em frente à imagem da virgem. Eu ficava olhando com medo, respeito e fascínio.
     Como conseguem? Como conseguem essa sincronia? Dava medo tantos estouros. Quem foi o primeiro? Quem disse que a santa apreciava essa artilharia? Eu apreciava a organização, a disciplina. E, mais do que isso, gostava quando acabava. O cheiro da pólvora era cheiro de missão cumprida. Acabou. Minha mãe fazia o sinal da cruz e voltava para o resto do dia sem foguetes. Havia fumaça ainda e com sorte a criançada achava algum foguete não disparado na rua e ia brincar com ele.  Ouvia falar de moleque que perdia dedo ou mão inteira com essa brincadeira. Fazer o quê? Não era dia da criança.
       Mas o foguetório do Dia 12 era um relógio. Hoje, na era da ansiedade, da ostentação, ninguém espera o meio-dia. Todos querem ser os primeiros a estourar o foguete. É um show de incontinência foguetória sem ritmo, sem compasso, sem hora marcada. Mataram o ritual, que é o que dava a mística ao evento. Agora, foguetes me acordam às sete da manhã do feriado. Não é hora do almoço. Minha mãe não se ajoelharia para rezar com esse estouro pífio antes do café. A santa faz que não é com ela. É a droga, é o gol, é a ânsia. Não tem nem cheiro mais.