terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Sempre é possível ficar pior
     Nunca me decepcionei sendo pessimista quanto ao futuro do Brasil. E nem é preciso ser tão urucubaquento para prever que o legado da Operação Lava Jato será um país muito, mas muito, mas muito mais corrupto do que já é. Isso porque nos derradeiros passos dessa triste farsa vai-se evidenciando um capítulo final que os habitués desse tipo de espetáculo já esperavam: apenas um vilão será executado em praça pública. Os demais, a maioria muito mais lesiva ao país, terão um final feliz e farão as malas com 20 milhões de motivos para se sentirem livres, leves e soltos - aos otimistas, desculpas pelo spoiler.
     O povo sentirá que a justiça foi feita, afinal, matamos o único responsável por tudo. Já os políticos tradicionais, livres do partido popular que havia levado a horrenda palavra "trabalhador" para os palácios, tratarão de mudar as regras que permitiram que a prática da corrupção houvesse sido exposta em público. A partir daí, um novo ciclo - mais profissional e rentável - de corrupção terá início. Os políticos não se deixarão mais ser investigados com tanta facilidade. Só darão entrevistas a bordo de iates e sem roupas para evitarem ser gravados. Agirão para preencher cada órgão fiscalizador com um dos seus. Provavelmente, as verbas para a PF minguarão e os processos contra o presidentes e seus amigos voltarão a ser engavetados como nos bons tempos do presidente Fernando Henrique Cardoso,cujo Procurador Geral ganhou a sugestiva alcunha de Engavetador Geral da União.
     A corrupção, então,o atingirá níveis tão escandalosos e serão empossados tantos ministros debochados e avessos ao cheiro de povo, que muito provavelmente surgirá um novo salvador da pátria resolvido a dar um basta em tanto descaramento. Provavelmente algum jovem que neste momento está ralando no chão de uma fábrica ou se matando para pagar uma faculdade privada enquanto os ricos se aproveitam da rede pública de ensino e sua excelência. Esse novo mártir, então, repetirá a história daquele que veio do Nordeste e acreditou que poderia levar a Brasília as vontades, as virtudes e defeitos de uma gente nunca foi admitida na casa grande. E ficaremos presos eternamente nesse episódio macabro de Black Mirror.